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Day One

Os Irmãos Grimm e o viés doméstico

O investidor mais bem-informado, se consegue superar o medo reforçado pelo excesso de regras, precisa rebolar para conseguir a tão benéfica diversificação regional de seu portfólio. Se é o seu caso, destaco aqui alguns caminhos possíveis.

Por Equipe Empiricus

11 jun 2018, 15:11

“… e Chapeuzinho Vermelho, que estava feliz por ter escapado, prometeu a si mesma: ‘De agora em diante, não vou mais sair do caminho nem entrar na floresta sozinha’…”.

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Na certa você conhece o trecho acima. As narrativas dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm são os textos alemães mais traduzidos de todos os tempos, à frente inclusive do tão disseminado “Manifesto Comunista”, de Marx e Engels.

Desde 1812, quando foram pela primeira vez registradas, as narrativas construídas a partir da tradição oral tornaram-se “o primeiro conselheiro das crianças”, nas palavras do filósofo alemão Walter Benjamin – ainda que não seja um consenso que todos os contos eram originalmente voltados para elas.

A tradução dos originais, publicada em uma linda edição da finada Cosac Naify, tem mensagens muito mais assustadoras do que as edições ilustradas a que tivemos contato quando crianças. Nelas, por exemplo, Rapunzel tem as tranças cortadas porque engravidou ao ter relações sexuais secretas com o príncipe, e a rainha vaidosa sonha em se alimentar do pulmão e do fígado da Branca de Neve (com sal).

Nas versões mais puras da tradição oral, aventurar-se, explorar o desconhecido, tentar ir além de seu espaço são atos severamente punidos – totalmente compreensível para uma época em que povoados guerreavam entre si e matar e morrer eram esportes cotidianos.

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Vejo resquícios, entretanto, do tal medo do lobo-mau. No mundo dos investimentos, ele recebe o nome de “home bias”, ou, em tradução livre, viés doméstico: a tendência que os investidores têm de concentrar uma grande quantidade de seus investimentos no país em que vivem.

Mentalize seu patrimônio agora: qual o percentual dele que está alocado em ativos brasileiros? E o quão confortável você se sente em investi-lo além-mar?

Imagine a reação de um investidor americano ao seguinte dado: 93% dos 754 bilhões de reais investidos pelos brasileiros em previdência estão na renda fixa local. A não ser que você tenha investido em algum dos produtos mais modernos deste mercado – como os da Adam, Ibiuna, Verde e SPX –, é muito provável que sua aposentadoria esteja completamente exposta a ativos brasileiros.

A cultura é, infelizmente, reforçada pela regulação, que restringe ao que chama de “qualificados” – que têm mais de 1 milhão de reais em investimentos financeiros – e “profissionais” – com mais de 10 milhões de reais – os produtos com maior exposição ao exterior.

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Já ouviu falar nos BDRs? São recibos de ações de empresas estrangeiras negociados na Bolsa brasileira. Eles permitem investir em companhias como Google, Facebook e Amazon por meio da Bolsa local – mas somente se você for um investidor qualificado.

Nada contra a Saraiva, mas será mesmo menos arriscado investir nela do que na Amazon? Faz sentido que para investir na segunda sem sair do Brasil você precise ser um milionário e para aplicar na primeira não?

Conhece a Pimco? A gestora americana gere 1,77 trilhão de dólares, mais do que toda a indústria brasileira de fundos. O produto de renda fixa que lançou no Brasil, entretanto, somente pode ser oferecido a investidores qualificados – e isso porque se submete a várias regras locais e se compromete a ter sempre entre 67% e 100% do patrimônio fora do país. Se quisesse poder variar esse percentual entre 0 e 100%, então o fundo somente poderia ser vendido aos profissionais.

O brasileiro pode abrir uma conta fora e investir diretamente? Sim. A legislação também proíbe, entretanto, que um gestor faça propaganda pública no Brasil de seu produto lá fora – para tal, precisa criar um fundo local que invista nele. Assim, o investidor fica “protegido” de acessar todo o exterior.

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“O mal também não é pequeno, próximo e ruim, porque poderíamos nos acostumar a ele, mas algo horroroso, obscuro, estritamente separado, do qual não nos devemos aproximar” – voltamos aos irmãos Grimm, no prefácio à edição que reúne os contos.

O investidor mais bem-informado, se consegue superar o medo reforçado pelo excesso de regras, precisa rebolar para conseguir a tão benéfica diversificação regional de seu portfólio.

Se é o seu caso, destaco aqui alguns caminhos possíveis. A primeira delas é abrir uma conta fora. Há, porém, alternativas, como um bom fundo de BDRs, que, ao contrário do investimento direto, pode ser oferecido no varejo – destaco o da IP Capital Partners, que mescla ações brasileiras e estrangeiras e tem mínimo de 1 mil reais.

Os fundos multimercados oferecidos no varejo também podem investir até 20% do seu patrimônio fora. E há alguns abertos que se esforçam para explorar essa possibilidade – como Adam, Gávea, Ibiuna e Kapitalo.

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Há também COEs (Certificados de Operações Estruturadas) que dão acesso a ativos estrangeiros ao cliente do varejo, mas é preciso avaliar bem se a estruturação é vantajosa somente à instituição financeira ou também ao cliente.

E, para proteger-se ao menos de uma parte do risco, há o próprio dólar – em que se pode aplicar diretamente ou via um fundo cambial (de preferência que não diversifique em crédito privado local, o que é comum, e que tenha taxa menor do que 1% ao ano).

Não é perfeito, fato, mas há saídas para quem não se intimida. Vale sempre, mas, em um momento como o atual, buscá-las tornou-se claramente necessário para equilibrar o portfólio.

Posições que têm se mostrado ganhadoras e que poderiam ajudar a compensar perdas em ativos locais – como a vendida em moedas de países emergentes ou a que aposta na virada da política monetária americana – estão em grande parte restritas ao portfólio dos mais ricos, enquanto as carteiras do varejo ficam concentradas no risco-Brasil. A pergunta é: estará mesmo o lobo fora ou dentro de casa?

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Por falar em lobo, a expectativa eleitoral ainda turva a visibilidade dos investidores domésticos. Em pauta hoje a pesquisa Datafolha, que mostra baixa probabilidade do cenário que o mercado vinha desenhando: um segundo turno entre Jair Bolsonaro e Ciro Gomes. Da prisão, Lula segue na liderança, com 30%, à frente de Bolsonaro, com 17% e Marina Silva, com 10%. Ciro aparece com 6%, empatado com Geraldo Alckmin.

No campo dos indicadores, já tivemos hoje a inflação medida pelo IGP-M, em 1,5%, um pouco acima do 1,1% registrado há um mês. E a tabela dos fretes segue em negociação entre caminhoneiros e agência reguladora.

Quem tem olhos para fora prepara-se para duas reuniões importantes na semana – do banco central americano na quarta e do europeu na quinta – com sinais sobre os rumos das políticas monetárias globais e, assim, prováveis reflexos sobre o câmbio (do lado de cá, o BC brasileiro segue com os leilões para conter o dólar). Na arena geopolítica, expectativa para o encontro de Donald Trump com o ditador norte-coreano Kim Jong-un.

O dia começa com Ibovespa futuro em alta de 0,75%, enquanto o dólar avança 0,42% e taxas de DIs caem ao longo de toda a curva.

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