“Quando a necessidade entra pela porta, o amor sai pela janela.”
Imagino que você concorde comigo que é somente nas adversidades que as nossas convicções são testadas.
O amor de um casal, o companheirismo de amigos, a confiança de sócios, a lealdade de funcionários. Somente em situações realmente adversas podemos comprovar a firmeza dessas relações.
Nada mais fácil do que sair por aí com a camiseta do time quando o cavalinho lidera a corrida do Fantástico.
Quero ver ostentar a mesma devoção com o time virando saco de pancadas e com o fantasma da Série B aparecendo no retrovisor.
Tal qual a falseabilidade do método científico, um ideia precisa passar por desafios relevantes para firmar-se como um pensamento categórico.
Nos últimos dias, a dor de barriga do mercado testou a convicção dos entusiasmados defensores da ideia do bull market nas ações brasileiras.
Uma repentina confluência negativa nos fronts externo e interno lembrou a todos que não só a renda variável varia, mas a renda fixa também.
Noto também convicções sobre como a economia do país deve ser conduzida sendo testadas.
Com a derrocada dos governos petistas e a desintegração dos tucanos e sua social-democracia, surgiu no Brasil recentemente um certo consenso liberal e um entendimento de que a nossa viabilidade econômica passa por menos Estado e mais mercado.
Um grupo de sociais-democratas e até socialistas começou a propagar as virtudes da austeridade fiscal e de uma economia de mercado.
Esse processo culminou com a brilhante escolha de Paulo Guedes para comandar a pasta da Economia, contrariando o passado estatizante e protecionista do presidente Jair Bolsonaro.
Guedes é o nosso primeiro ministro da Fazenda (ou da Economia, dá no mesmo) verdadeiramente liberal. Seu discurso mostra o único caminho possível para destravar o país, e suas ações vêm confirmando a rota apresentada.
Não escondo meu entusiasmo com o que está sendo feito pela equipe de Paulo Guedes. Está tudo certo. Não mudaria nada.
Acontece que a economia de um país como o Brasil é um sistema absurdamente complexo. Além disso, não há mágica. Como tudo que realmente vale a pena na vida, é preciso investir muito esforço antes para colher os benefícios no futuro.
Como pai de três filhos pequenos, observo o esforço diário da turma lá de casa para ser gente grande na vida. Como toda criança deve fazer, acordam cedo, vão para a escola, aprendem, estudam. E farão isso por anos a fio para, lá na frente, se tornarem seres humanos produtivos e realizados.
Não há atalhos para a formação de um indivíduo.
Voltando ao tema principal, apesar dos louváveis esforços do time de Paulo Guedes, a economia real ainda não demonstra sinais de reação. Não há retomada relevante do crescimento e o desemprego segue elevado.
E é aí que a convicção dos novos liberais vacila.
Aqueles que até há pouco defendiam a simplicidade do ajuste fiscal e a economia de mercado começam a verbalizar ideia heterodoxas para “estimular” a retomada da atividade econômica.
Neste semana, o professor Eduardo Giannetti, convidado frequente nos eventos da Empiricus, me decepcionou ao defender que o BNDES faça uso de recursos da venda de participações em empresas para concluir obras inacabadas pelo país.
Cito a chamada principal de sua entrevista ao Estadão: “Governo deveria vender participações do BNDES em empresas para terminar obras públicas”.
Em seguida ele complementa: “O país precisa de um impulso fiscal para a economia sair da letargia, e o melhor impulso é esse”.
Pronto, lá se foi a convicção de mais um liberal.
Já que a economia não reage, tem que fazer pegar no tranco mesmo, empurrando a gerigonça para ver se vai na marra. Já que o caminho é longo, vamos tomar um atalho.
Veja bem. Concordo com a ideia de que o BNDES venda suas participações nas empresas. Aliás, eu não só venderia tudo, como aproveitaria para fechar o banco também, uma monstruosidade desenvolvimentista. Já defendi isso nesta newsletter e estou seguro de que Paulo Guedes pensa igual a mim.
E também apoio que as obras sejam concluídas, de preferência com recursos privados, mas somente aquelas que tenham um sentido econômico. Nada de colocar dinheiro bom atrás de dinheiro ruim — o nosso dinheiro, aliás.
Trago o caso do emérito professor, com absoluto respeito, apenas para exemplificar a nossa mania de achar que o Estado pode tirar da cartola a solução para os nossos problemas econômicos.
Se fosse esse o caso, os governos petistas, com seus PACs, “campeões nacionais”, desonerações setoriais, e por aí vai, teriam surtido algum efeito duradouro na nossa economia.
Finalizo citando Paulo Guedes:
“Dê um governo, dê uma chance de um governo de quatro anos para a liberal-democracia. (…) Nós esperamos tantas vezes. Espera um pouquinho, espera quatro anos, vamos ver se melhora um pouco. Nos deem chance de trabalhar também.”
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