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Investimentos

Novas ameaças tarifárias de Trump ‘esgotam’ tolerância dos mercados globais? Entenda cenário para as bolsas de valores nesta quarta-feira (21)

Após meses de resiliência dos mercados diante das incertezas globais do presidente dos EUA, as Bolsas amargam com a notícia de novas tarifas. Saiba mais.

Por Matheus Spiess

21 jan 2026, 09:49

Atualizado em 21 jan 2026, 09:49

mercado eua usa bolsas dolar

Imagem: iStock.com/franckreporter

Após meses em que os mercados mostraram notável tolerância à incerteza global, tudo indica que um ponto de inflexão foi alcançado com as novas ameaças tarifárias de Donald Trump associadas à questão da Groenlândia. As bolsas recuaram de forma acentuada nos Estados Unidos e na Europa, o dólar perdeu força, os títulos do Tesouro americano foram pressionados por vendas e o ouro avançou para novos recordes históricos — um conjunto de movimentos que caracteriza um claro episódio de “venda dos EUA”.

A escalada do discurso, que inclui tarifas de até 25% contra países europeus e ameaças de até 200% sobre vinhos e champanhes franceses, enfraqueceu a narrativa de que Trump sempre recua. O resultado foi um salto do índice de volatilidade (VIX) para o maior nível desde novembro e a eliminação dos ganhos acumulados pelas bolsas americanas no ano. Até vemos uma tentativa de recuperação na manhã de hoje, mas muito mais tímida do que o necessário por conta dos riscos.

· 00:58 — Ruídos políticos no radar

Por aqui, a agenda doméstica vem mais esvaziada após a forte alta de ontem, que ocorreu de forma descolada do ambiente internacional. O Ibovespa avançou, encerrando aos 166.277 pontos e, pela primeira vez na história, superando a marca dos 166 mil no fechamento. O movimento parece refletir uma rotação global de portfólios: com o sell-off de ativos americanos, parte do capital internacional começa a buscar alternativas em outros mercados. Esse fluxo estrangeiro teve papel central no desempenho local, colocando as blue chips de commodities e do setor financeiro em tendência de alta, com destaque para a Petrobras, que acompanhou a valorização do petróleo no exterior, e para a Vale, que conseguiu se descolar do mau humor global.

Outro fator que entrou no radar foi o noticiário político. A possível visita do governador Tarcísio a Jair Bolsonaro, na Papudinha, inicialmente autorizada para quinta-feira, foi interpretada por parte do mercado como um sinal de possível transição de liderança dentro do campo conservador, o que animou investidores em busca de uma alternativa mais pragmática e reformista. Flávio Bolsonaro, por sua vez, afirmou que a visita teria como objetivo cobrar apoio mais explícito do governador. De todo modo, o encontro acabou sendo cancelado e adiado para outro momento. É difícil para o mercado ler os bastidores. Já na manhã de hoje, a divulgação de uma pesquisa Atlas Intel surpreendeu ao mostrar um desempenho inicial bastante positivo de Flávio. Embora ele ainda seja visto como menos competitivo em um eventual segundo turno, os números indicam um começo de campanha mais forte do que o esperado. A grande dúvida é se essa tendência se sustentará quando ele passar a ser mais testado pela oposição, que hoje tende a poupá-lo por enxergá-lo como um adversário teoricamente mais fácil. Ainda assim, qualquer melhora na percepção sobre a viabilidade de uma candidatura com viés mais reformista tende, em tese, a ser bem recebida pelos mercados.

· 01:42 — Mercados sofrendo

Nos Estados Unidos, as ações sofreram quedas expressivas depois que Donald Trump voltou a ameaçar impor tarifas a oito países europeus caso não haja um acordo para a compra da Groenlândia. Pelo plano divulgado, as tarifas começariam em 10% a partir de fevereiro e poderiam subir para 25% em junho, além de ameaças adicionais de até 200% sobre vinhos e champanhes franceses. O tom mais duro pegou os mercados de surpresa, já que muitos investidores vinham tratando as tarifas como uma tática de negociação e não como uma política efetiva. Na terça, a reação foi imediata: o Dow Jones caiu 1,8%, o S&P 500 recuou 2,1% e o Nasdaq perdeu 2,4%, enquanto ouro e prata avançaram para novas máximas históricas, refletindo a busca por proteção.

O episódio também destoou do padrão clássico de aversão ao risco. Em vez de migrarem para os títulos públicos americanos, os investidores também venderam Treasuries, fazendo os juros subirem — um sinal claro de “venda dos Estados Unidos”, com receio de que o uso agressivo da política comercial enfraqueça alianças históricas e torne os ativos americanos estruturalmente mais arriscados. Esse movimento foi reforçado por fatores adicionais, como a fraca demanda em leilões de títulos japoneses e notícias corporativas negativas. Entre elas, destacou-se a queda de cerca de 5% nas ações da Netflix, após a empresa divulgar um guidance abaixo do esperado, que acabou ofuscando um balanço trimestral que, isoladamente, havia sido bastante sólido.

· 02:34 — De olho na Suprema Corte

A Suprema Corte dos Estados Unidos iniciou a análise sobre até que ponto o presidente pode suspender ou demitir integrantes do Federal Reserve enquanto eles são alvo de investigações — um debate que, no caso concreto, envolve a diretora Lisa Cook e que pode abrir um precedente sensível para a percepção de independência do banco central americano. A decisão não deve sair de imediato, mas, se a tese de Trump prevalecer, o desfecho pode alterar a composição do conselho do Fed, potencialmente dando aos indicados pelo presidente maioria na diretoria — o que, por extensão, também aumenta a incerteza em torno do futuro de Jerome Powell, cujo mandato como chairman termina em maio, embora ele possa permanecer como membro do conselho até 2028. Em paralelo, a discussão judicial sobre a legalidade de parte das tarifas ainda deve se arrastar por algumas semanas; e, caso elas venham a ser consideradas ilegais, o atraso tende a elevar o tamanho dos reembolsos e, consequentemente, ampliar a pressão sobre o déficit fiscal americano.

· 03:27 — Zeitgeist

Em meio às reações europeias às ameaças de Donald Trump envolvendo a Groenlândia — com Emmanuel Macron afirmando em Davos que “preferimos o respeito à intimidação”, Ursula von der Leyen reiterando a soberania do território e líderes como Friedrich Merz buscando manter canais de diálogo enquanto outros alertam para o risco de fragmentação do bloco —, o pronunciamento mais contundente do Fórum Econômico Mundial partiu do primeiro-ministro canadense, Mark Carney. Em sua fala, ele afirmou que a ordem internacional baseada em regras está, na prática, esgotada e defendeu que as chamadas potências médias passem a construir novas alianças para se proteger de superpotências cada vez mais coercitivas. Sua mensagem sintetiza com precisão o espírito do tempo: um mundo menos cooperativo, mais áspero e no qual a força política e econômica tende a se sobrepor aos antigos compromissos multilaterais.

· 04:13 — Uma nova crise no horizonte

Mesmo em meio ao barulho geopolítico, a crise climática avança e empurra o planeta para o que a ONU descreve como uma era de “falência global da água” — um cenário em que os sistemas de água doce passam a ser consumidos e degradados em ritmo superior à sua capacidade de recomposição. Hoje, cerca de 75% da população mundial (algo como 6,1 bilhões de pessoas) vive em países onde o abastecimento de água doce já é inseguro ou criticamente inseguro, e aproximadamente 4 bilhões enfrentam escassez severa por pelo menos um mês ao ano.

O resultado é um aumento dos episódios de “Dia Zero”, quando redes municipais se aproximam do colapso e medidas emergenciais entram em cena. Ao mesmo tempo, o aquecimento global intensifica o problema ao elevar a demanda por água — por calor, agricultura e consumo — e ao tornar o suprimento natural mais irregular, instável e imprevisível.

· 05:01 — Proteções inevitáveis

A presença da maior delegação americana da história em Davos simboliza, de forma explícita, a consolidação da doutrina “América Primeiro”. Donald Trump deixa claro que países que não se alinhem a essa lógica correm o risco de perder espaço econômico e estratégico. A nova agenda passa pelo enfraquecimento do multilateralismo tradicional, pela priorização de acordos transacionais, por uma política tarifária mais agressiva, pela rejeição da pauta climática e por uma reconfiguração das alianças globais. Esse redesenho fica especialmente visível na disputa em torno da Groenlândia, que já levou Trump a ameaçar tarifas de até 25% contra países europeus e fez a União Europeia discutir um pacote de retaliações que pode chegar a € 93 bilhões.

Em um ambiente assim, marcado por incerteza geopolítica, ruído institucional e maior risco fiscal,

Estudou finanças na University of Regina, no Canadá, tendo concluído lá parte de sua graduação em economia. Pós-graduado em finanças pelo Insper. Trabalhou em duas das maiores casas de análise de investimento do Brasil, além de ter feito parte da equipe de modelagem financeira de uma boutique voltada para fusões e aquisições. Trabalha hoje no time de analistas da Empiricus, sendo responsável, entre outras coisas, por análises macroeconômicas e políticas, além de cobrir estratégias de alocação. É analista com certificação CNPI.