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Investimentos

Como os mercados devem reagir à prisão de Nicolás Maduro? Veja os destaques desta segunda (5)

Estamos de volta com a nossa newsletter matinal — aproveito para renovar os votos de um Feliz Ano Novo a todos e, sem mais delongas, vamos ao que importa.

Por Matheus Spiess

05 jan 2026, 10:09

Atualizado em 05 jan 2026, 10:14

mercado eua usa bolsas dolar euro europa

Imagem: iStock.com/SlavkoSereda

O ano começou sob o impacto da ofensiva militar dos Estados Unidos na Venezuela e da prisão de Nicolás Maduro, um acontecimento de elevada relevância geopolítica que reforça a leitura de uma reconfiguração mais ampla da ordem internacional sob a liderança de Donald Trump.

Ainda assim, os mercados globais demonstraram capacidade de absorver o choque inicial e rapidamente direcionaram a atenção para outros vetores.

As bolsas asiáticas avançaram para novas máximas, impulsionadas sobretudo pelo setor de tecnologia e pelo tema da inteligência artificial; os futuros de ações nos Estados Unidos e na Europa operaram em alta; ouro e prata ganharam tração como ativos de proteção; enquanto o petróleo mostrou relativa estabilidade, em um contexto no qual a Opep+ optou por manter a produção inalterada e o Conselho de Segurança da ONU convocou uma reunião de emergência para tratar do tema.

· 00:59 — Quebra de paradigma regional

A captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos representou uma inflexão abrupta e inesperada na política externa do segundo mandato de Donald Trump, sinalizando uma abordagem mais assertiva, unilateral e ancorada no uso do poder militar e econômico.

Em um primeiro momento, Trump chegou a afirmar que Washington “governaria” a Venezuela durante o período de transição. Posteriormente, porém, o secretário de Estado Marco Rubio tratou de calibrar o discurso, deixando claro que a estratégia central dos EUA será exercer pressão econômica — sobretudo por meio de uma “quarentena do petróleo” — em vez de promover uma ocupação formal do país.

Agora, Maduro enfrenta acusações graves em um tribunal federal norte-americano, enquanto a Suprema Corte da Venezuela declarou Delcy Rodríguez como presidente interina, preservando figuras do chavismo no núcleo do poder, agora sob forte influência dos EUA. Ao mesmo tempo, cresce a pressão popular por eleições livres, a oposição reivindica legitimidade política e o posicionamento das Forças Armadas emerge como o principal fator de estabilidade — ou de risco — no curto prazo.

Sob a ótica geopolítica, a operação reforça a leitura de que os EUA buscam neutralizar a Venezuela como polo de influência de China, Rússia e Irã no Hemisfério Ocidental, alinhando mais a região com a lógica histórica da Doutrina Monroe. A reação chinesa, que incluiu pedidos formais pela libertação de Maduro e debates internos traçando paralelos com Taiwan, evidencia o risco de que a ação americana seja interpretada como precedente, elevando a volatilidade global e intensificando a rivalidade entre grandes potências ao longo de 2026, que deverá seguir marcado por tensões.

Nos mercados financeiros, a leitura inicial tende a ser construtiva no curto prazo. Os títulos venezuelanos já vinham apresentando recuperação desde 2023, e a expectativa de maior envolvimento dos EUA no setor de petróleo — combinada à possibilidade de flexibilização gradual de sanções e a um aumento da produção, que pode alcançar algo entre 1,3 e 1,4 milhão de barris por dia em até dois anos — sustenta um viés mais otimista. Ainda assim, o principal obstáculo segue sendo a reestruturação da dívida em um contexto de transição política frágil, o que limita ganhos mais consistentes.

No horizonte de médio e longo prazo, os desdobramentos podem ser relevantes tanto para o mercado de energia quanto para a dinâmica da América Latina. Um controle mais previsível da produção petrolífera venezuelana sob influência americana tende a reduzir prêmios geopolíticos, ampliar a oferta estrutural e exercer um efeito marginalmente desinflacionário sobre os preços globais do petróleo. Regionalmente, reforça-se a percepção de maior alinhamento institucional à órbita dos EUA, com mais abertura ao capital privado e menor espaço para modelos intervencionistas — um movimento que também tende a pressionar países como o Brasil a buscar soluções mais pragmáticas no campo político (as eleições de 2026 serão fundamentais).

· 01:45 — Que comecem os jogos

No mercado doméstico, depois de uma valorização expressiva de cerca de 34% em 2025, o Ibovespa iniciou 2026 com uma leve correção de 0,36%, ainda acima do patamar de 160 mil pontos, em um pregão marcado por liquidez reduzida.

No campo político, o investidor segue atento à dinâmica eleitoral, especialmente ao período entre janeiro e março, que tende a ser decisivo para confirmar ou não a permanência de Flávio Bolsonaro na corrida presidencial.

Até lá, o senador busca demonstrar viabilidade política, apesar da elevada rejeição associada ao sobrenome, e tenta se aproximar da Faria Lima com um discurso de responsabilidade fiscal, enquanto Lula aposta em medidas de forte apelo popular com vistas à reeleição, sustentado por um capital político ainda robusto nas pesquisas.

A fragmentação da oposição — em um contexto no qual o mercado claramente prefere um candidato mais competitivo e capaz de sustentar uma agenda reformista e fiscalmente responsável — adiciona uma camada relevante de incerteza ao cenário.

Em Brasília, o encerramento do ano foi marcado por vetos presidenciais à LDO, incluindo pontos sensíveis como o Fundo Partidário e emendas, além de ruídos institucionais recorrentes com o Congresso e do desgaste do Supremo Tribunal Federal, mantendo o radar dos investidores ligado às novidades políticas e fiscais logo no início de um ano eleitoral que promete ser particularmente desafiador, dada a frente populista de gastos aberta pelo governo.

Nesse contexto, a equipe econômica começa o ano enfraquecida: Marcos Pinto, peça-chave na formulação das políticas microeconômicas e em diversas reformas regulatórias desta gestão, deixou a Secretaria de Reformas Econômicas a pedido, na primeira baixa do Ministério Fazenda em 2026.

Além dele, até o fim de fevereiro, Fernando Haddad também deve deixar o Ministério, encerrando um ciclo de três anos marcado por críticas crescentes. Sua gestão, que inicialmente prometia levantar a bandeira da responsabilidade fiscal dentro das possibilidades lulopetistas, acabou ficando muito aquém das expectativas, em grande medida devido ao crescimento descontrolado das despesas públicas, à artificialização da regra fiscal e ao forte aumento da carga arrecadatória para financiar iniciativas de viés populista.

Ao final desse período, o país não recuperou o grau de investimento, em meio a uma trajetória de expansão contínua da dívida pública e a um presidente que demonstrou baixo compromisso com o equilíbrio das contas. Nesse quadro, o ajuste fiscal parece inevitável a partir de 2027, após as eleições; a principal incógnita passa a ser se ele virá acompanhado de convicção reformista ou apenas como resposta forçada às restrições impostas pela realidade fiscal. Dependerá do resultado eleitoral.

· 02:31 — Um bom começo de ano…

A temática da inteligência artificial voltou a ganhar tração logo no início de 2026, com a China ocupando papel central nesse movimento. A estreia da fabricante de chips Biren foi emblemática: as ações da companhia avançaram cerca de 76% no primeiro dia de negociação, sinalizando um apetite elevado do mercado por ativos ligados à IA.

Na mesma linha, a Baidu registrou alta próxima de 9% após o anúncio do pedido de IPO em Hong Kong de sua unidade de semicondutores, a Kunlunxin. Esse entusiasmo não ficou restrito ao mercado asiático. Ele se refletiu também no desempenho das bolsas americanas, sustentando um início de ano positivo para o S&P 500 e reforçando a expectativa de desempenho relativo superior do Nasdaq, o que indica que o apetite global por ativos associados à inteligência artificial permanece elevado.

· 03:28 — Um contexto importante

Ainda assim, é importante contextualizar esse movimento com uma leitura equilibrada dos riscos. A sucessão de IPOs ligados à IA na China — tanto os já realizados quanto os que estão no radar — tem alimentado discussões sobre possíveis excessos e até sobre a formação de uma bolha setorial. Além disso, o ambiente competitivo e regulatório segue sendo um fator relevante de atenção: nenhuma dessas empresas representa, hoje, uma ameaça técnica direta à liderança da Nvidia, e mudanças no cenário político ou nas restrições comerciais podem alterar rapidamente as condições do jogo. Seja como for, do ponto de vista de fluxo de capital, o começo de 2026 reforça uma mensagem para o investidor: ao menos por enquanto, posicionar-se frontalmente contra o “hype” da inteligência artificial continua sendo uma aposta de risco elevado.

· 04:14 — Os gigantes soberanos

Os fundos soberanos ao redor do mundo atingiram um patamar histórico de aproximadamente US$ 15 trilhões em ativos sob gestão, resultado tanto de um ambiente de mercados mais aquecido quanto de uma estratégia deliberada de aprofundamento dos investimentos em tecnologia. Apenas em 2025, cerca de US$ 66 bilhões foram direcionados a iniciativas ligadas à inteligência artificial e à digitalização, com clara liderança do Oriente Médio — onde se destacam aportes relevantes da Mubadala, da Kuwait Investment Authority e da Qatar Investment Authority.

No recorte geográfico, os Estados Unidos consolidaram-se como o principal destino do capital soberano global, atraindo US$ 131,8 bilhões no período, praticamente dobrando o volume do ano anterior, enquanto os investimentos direcionados à China sofreram uma retração expressiva, recuando para US$ 4,3 bilhões. O conjunto desses movimentos sinaliza uma mudança relevante na alocação global dos fundos soberanos, com maior concentração em tecnologia e uma realocação clara do capital em direção a mercados considerados mais previsíveis e estratégicos.

· 05:06 — A onda de investimentos em defesa continua em 2026

A recente operação militar dos EUA na Venezuela — que culminou na captura de Nicolás Maduro — provocou um aumento imediato da percepção de risco geopolítico em escala global, com reflexos claros nos mercados financeiros, em especial na valorização das ações das principais empresas europeias do setor de defesa.

Esse episódio, longe de ser isolado, reforça uma tendência estrutural que já vinha se consolidando. Os países da OTAN acordaram elevar gradualmente seus gastos com defesa de 2% para 5% do PIB até 2035, em um movimento de rearmamento de longo prazo que pode adicionar centenas de bilhões de dólares por ano aos orçamentos militares do bloco. O objetivo não é apenas recompor capacidades tradicionais — como tropas, armamentos e sistemas de defesa —, mas também acelerar investimentos em áreas críticas como cibersegurança, infraestrutura digital e integração tecnológica.

Para o investidor, a mensagem é direta. Em um ambiente global mais instável e marcado por orçamentos militares estruturalmente mais elevados, o setor de defesa deixa de ser um tema cíclico e passa a se consolidar como uma tese de longo prazo. ETFs temáticos focados em aeroespacial e defesa, como os já mencionados…

Estudou finanças na University of Regina, no Canadá, tendo concluído lá parte de sua graduação em economia. Pós-graduado em finanças pelo Insper. Trabalhou em duas das maiores casas de análise de investimento do Brasil, além de ter feito parte da equipe de modelagem financeira de uma boutique voltada para fusões e aquisições. Trabalha hoje no time de analistas da Empiricus, sendo responsável, entre outras coisas, por análises macroeconômicas e políticas, além de cobrir estratégias de alocação. É analista com certificação CNPI.