Imagem: iStock.com/Techa Tungateja
O dólar recuou para o menor patamar desde 2022, pressionado pela especulação de uma eventual ação dos Estados Unidos para sustentar o iene japonês, em um cenário já contaminado pelo risco de shutdown do governo americano e pela reintensificação de tensões comerciais.
Esse pano de fundo reforçou a busca por ativos de proteção — com o ouro rompendo a marca de US$ 5.000 pela primeira vez e a prata registrando sua maior alta desde 2008 — e, ao mesmo tempo, não impediu o avanço das bolsas globais: o S&P 500 prolongou o rali de janeiro, enquanto os investidores se posicionam para uma semana carregada, à espera das decisões de Fed e Copom e dos balanços das grandes empresas de tecnologia, que tendem a ditar o humor do mercado.
Na Ásia, o protagonismo ficou com a Coreia do Sul, que dissipou parte dos temores tarifários e liderou os ganhos regionais, ancorada pela forte demanda ligada à inteligência artificial: o mercado local quase dobrou de valor no último ano.
Na Europa, as bolsas operaram com viés mais construtivo após a conclusão de um acordo histórico entre União Europeia e Índia, o que ajudou a reduzir, ainda que parcialmente, o desconforto com a retórica comercial mais agressiva de Donald Trump.
· 00:57 — Pausa para respirar
No Brasil, o Ibovespa encerrou a sessão de ontem próximo da estabilidade, após a expressiva valorização de 8,5% registrada na semana passada, impulsionada por um dos maiores fluxos recentes de capital estrangeiro para mercados emergentes.
O principal fator de contenção de uma nova alta foi o desempenho da Vale (VALE3), cujas ações recuaram após a confirmação de um vazamento de água com sedimentos em Minas Gerais. O evento trouxe cautela pontual ao mercado, mas não alterou, por ora, o pano de fundo mais favorável observado para os ativos domésticos nas últimas semanas.
Na agenda econômica, os investidores acompanham a divulgação do IPCA-15 de janeiro, dado que, embora relevante, dificilmente altera o desfecho já amplamente esperado da reunião do Copom, iniciada hoje e com decisão a ser anunciada amanhã à noite.
A expectativa consensual aponta para uma alta de 0,23% no mês, inferior à registrada em dezembro, mas suficiente para elevar a inflação acumulada em 12 meses para acima de 4,5%, superando o teto da meta. Trata-se de um movimento amplamente antecipado pelo mercado e compatível com o processo gradual de desinflação em curso. Ainda assim, apesar da melhora, a inflação segue em patamar elevado e qualquer novo desvio pode reacender preocupações sobre sua trajetória.
Mais sensível do ponto de vista estrutural foi a divulgação do déficit em transações correntes, que alcançou US$ 68,8 bilhões em 2025, equivalente a 3,0% do PIB — o maior nível em 11 anos. O resultado reflete principalmente a redução no superávit comercial, além de remessas recordes de lucros ao exterior e maior gasto dos brasileiros com viagens internacionais, parcialmente compensados por um déficit menor na conta de serviços.
Apesar desse rombo expressivo, o país contou com ingresso de investimento direto de US$ 77,7 bilhões (3,4% do PIB), o que permitiu financiar o déficit de forma relativamente bem e reduziu riscos imediatos para o câmbio.
Ainda assim, o dado reacende um alerta importante: a maior dependência de capital externo e a necessidade de recompor o superávit comercial tornam-se cada vez mais centrais para sustentar o crescimento em um ambiente global mais restritivo.
A coexistência de déficits gêmeos — fiscal e em conta corrente — é um ponto de atenção que precisa ser endereçado com maior clareza ao longo do tempo, de modo a reduzir a vulnerabilidade da economia brasileira a choques externos e a eventuais mudanças abruptas no humor dos mercados internacionais.
- Onde investir neste mês? Veja 10 ações em diferentes setores da economia para buscar lucros. Baixe o relatório gratuito aqui.
· 01:43 — Querendo voltar ao topo
Nos Estados Unidos, as ações seguem demonstrando resiliência e operam novamente próximos de máximas históricas, com o S&P 500 voltando a se aproximar ao patamar dos 7.000 pontos após a quarta sessão consecutiva de alta.
Dow Jones e Nasdaq também avançaram, mesmo em meio a um ambiente carregado por ruídos políticos — que incluem discussões sobre tarifas, risco de shutdown do governo e tensões domésticas. Do ponto de vista técnico, o período recente de consolidação ajudou a aliviar sinais de sobrecompra, criando uma base mais saudável para uma eventual continuidade do movimento, cuja confirmação deve depender sobretudo da comunicação do FOMC e da divulgação dos resultados das gigantes de tecnologia, como Meta, Microsoft e Apple, elementos centrais para a dinâmica de volatilidade.
Em paralelo, o dólar permanece pressionado e rompeu um nível técnico relevante, reacendendo o debate sobre um processo de enfraquecimento estrutural gradual da moeda americana — ainda que distante de qualquer questionamento imediato sobre seu papel como principal moeda de reserva global.
Esse movimento reflete o dilema clássico da economia dos EUA: déficits elevados tendem a enfraquecer o dólar no curto prazo, mas, ao mesmo tempo, sustentam a demanda global por ativos e financiamento denominados na moeda americana, prolongando o ciclo de endividamento.
No radar, além do índice de confiança do consumidor do Conference Board, ganha destaque uma agenda carregada de resultados corporativos, que será determinante para calibrar as expectativas em torno do crescimento econômico, da trajetória dos lucros e dos próximos passos da política monetária.
· 02:39 — Risco de novo shutdown
A escalada de tensão em torno da política migratória nos EUA — intensificada após um episódio fatal em Minneapolis envolvendo agentes federais — reacendeu o confronto em Washington e elevou de forma abrupta o risco de shutdown já no fim do mês: líderes democratas sinalizaram que podem bloquear o pacote de financiamento caso recursos ligados ao Departamento de Segurança Interna e à agenda de imigração avancem sem mudanças, e as plataformas de apostas passaram a precificar probabilidade próxima de 80% para uma paralisação.
Na prática, como vimos no final do ano passado, um shutdown tende a afetar o funcionamento de agências federais (com férias forçadas, interrupções parciais de serviços e atrasos operacionais), ampliar a incerteza fiscal e adicionar um novo foco de volatilidade para os mercados.
· 03:26 — Tempestade de inverno
Uma forte tempestade de inverno, classificada como a mais intensa da temporada, já vem gerando impactos relevantes nos Estados Unidos. O evento provocou o cancelamento de mais de 2 mil voos, deixou quase 900 mil pessoas sem fornecimento de energia elétrica e resultou em registros de mortes associadas à hipotermia e a acidentes nas estradas.
Do ponto de vista econômico, o efeito mais sensível ocorre no setor de energia: a interrupção da produção de aproximadamente 2 milhões de barris de petróleo por dia — cerca de 15% do volume nacional — reflete as dificuldades operacionais impostas pelo clima extremo. Com neve intensa, formação de gelo e temperaturas muito abaixo da média se espalhando por uma faixa de quase 2.400 quilômetros do território americano, o episódio eleva, no curto prazo, os riscos logísticos, energéticos e econômicos, com potenciais repercussões sobre preços, cadeias de suprimento e atividade regional nos próximos dias.
· 04:11 — O interesse americano no apoio
A valorização abrupta do iene, somada aos recentes “rate checks” conduzidos pelo Federal Reserve, reforça a leitura de que cresce o risco — ou a necessidade — de uma intervenção coordenada entre Estados Unidos e Japão para evitar um desmonte desordenado do carry trade em iene, como já vimos acontecer no passado.
Um movimento dessa natureza teria implicações relevantes para a liquidez global e para a capacidade de financiamento da dívida americana. No curto prazo, esse processo tende a provocar episódios de aversão ao risco e maior volatilidade nos mercados.
No entanto, caso a coordenação se confirme, o efeito líquido costuma envolver injeção adicional de liquidez e enfraquecimento do dólar, um ambiente historicamente favorável a ativos globais de maneira geral, inclusive os brasileiros. É bom para ativos reais, como o ouro e a prata, que seguem em alta, apesar da correção na noite de ontem.
· 05:02 — Uma temporada importante
A temporada de resultados desta semana pode representar um ponto de inflexão relevante para as grandes empresas de tecnologia expostas à inteligência artificial, em especial os chamados hiperescaladores, em meio a uma rotação intensa dentro do próprio tema de IA. Com divulgações importantes de Meta Platforms e Microsoft, o mercado passa a exigir sinais mais concretos de crescimento futuro dos lucros e, sobretudo, maior clareza sobre o retorno econômico dos investimentos bilionários realizados nos últimos anos. Esse movimento ocorre após parte dos investidores ter migrado para segmentos considerados mais “quentes”, beneficiados por gargalos de oferta de hardware e por expectativas bastante elevadas, o que aumentou a sensibilidade a qualquer frustração de resultados.
Ao mesmo tempo, a própria temporada de balanços pode abrir espaço para…