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As bolsas globais avançaram pelo terceiro dia consecutivo, em um movimento que sugere uma tentativa dos investidores de reconstruir algum grau de estabilidade em meio a um cenário que permanece, no fundo, bastante incerto. Parte desse alívio foi favorecida pelo recuo dos preços do petróleo, após o Iraque firmar um acordo para retomar exportações via Turquia, criando uma rota alternativa ao Estreito de Ormuz, além do aumento recente dos estoques nos Estados Unidos. Esse movimento ajudou a reduzir, ainda que temporariamente, parte das preocupações com a inflação e deu sustentação aos ativos de risco em diferentes regiões, com altas observadas nos mercados americano, europeu e asiático. Ainda assim, seria precipitado interpretar esse comportamento como um retorno pleno do apetite por risco. O ambiente segue mais marcado pela cautela do que pelo otimismo, com os investidores, em grande medida, escolhendo relevar o ruído geopolítico no curtíssimo prazo enquanto aguardam sinais mais concretos por parte dos bancos centrais.
É justamente nesse contexto que a atenção se volta para a “Super Quarta”, com decisões de política monetária tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. No caso americano, a expectativa predominante é de manutenção dos juros pelo Federal Reserve, mas o foco real estará na comunicação de Jerome Powell, especialmente no que diz respeito aos efeitos da alta do petróleo sobre a inflação e à leitura do Fed sobre a atividade econômica. No Brasil, o Copom também se depara com um ambiente mais delicado, no qual a elevação dos preços de energia pressiona as expectativas inflacionárias e reduz o espaço para um ciclo mais agressivo de cortes na Selic.
· 00:56 — Uma decisão difícil
Por aqui, as atenções se concentram na decisão do Copom, a ser anunciada após o fechamento do mercado. O Banco Central enfrenta um equilíbrio delicado: de um lado, há a sinalização prévia de início do ciclo de cortes, já parcialmente incorporada aos preços; de outro, o cenário se tornou mais desafiador nas últimas semanas, com atividade econômica mais forte do que o esperado, inflação acima do projetado, pressão relevante nos preços do petróleo e a reemergência de riscos domésticos. Nesse contexto, a expectativa predominante segue sendo de um corte de 25 pontos-base, em linha com o que tenho destacado recentemente e já precificado pelo mercado. A principal incerteza, no entanto, reside no tom da comunicação, que será complementada pela ata na próxima semana. Um discurso excessivamente flexível pode pressionar o câmbio e, por consequência, as expectativas de inflação; por outro lado, uma sinalização mais dura tende a afetar negativamente os ativos e a atividade.
Apesar desse pano de fundo mais complexo, o fluxo estrangeiro continua sendo um vetor de sustentação importante, com entrada acumulada de R$ 45,1 bilhões no ano, mantendo o “carry trade” atrativo mesmo diante de eventuais cortes na Selic. Ainda assim, o cenário doméstico ganhou um elemento adicional de incerteza: em meio à escalada do diesel, caminhoneiros voltaram a sinalizar a possibilidade de uma paralisação nacional nos próximos dias, reacendendo memórias do episódio de 2018 e adicionando pressão ao ambiente econômico e político. A insatisfação da categoria persiste mesmo após mais de 300 dias sem reajustes, com a recente alta de 11,6% promovida pela Petrobras e a perspectiva de novos aumentos contribuindo para elevar a tensão. Embora movimentos semelhantes não tenham tido sucesso desde 2018, o risco, por si só, já é suficiente para incomodar os investidores, sobretudo pelo potencial de impacto inflacionário e pelas possíveis respostas fiscais do governo, que poderiam deteriorar ainda mais o equilíbrio das contas públicas.
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· 01:42 — Qual será o tom adotado?
Nos Estados Unidos, as ações voltaram a subir ontem, na véspera da conclusão da reunião do Federal Reserve, registrando uma sequência positiva mesmo em meio à guerra, ajudados principalmente pelo recuo do petróleo após máximas recentes, ainda que o barril siga acima de US$ 100. Com isso, o foco dos investidores se desloca para a decisão de política monetária do Fed, que deve manter os juros inalterados entre 3,5% e 3,75% (haverá votos dissidentes). Antes disso, dados de inflação ao produtor (PPI) também entram no radar: números mais fracos podem aliviar temores inflacionários, enquanto leituras mais fortes tendem a pressionar o Fed e os ativos de risco.
Mais do que a decisão em si, a atenção estará voltada para o tom do Fed e suas projeções econômicas, especialmente em um ambiente marcado por guerra, petróleo elevado e inflação ainda persistente. O mercado já espera revisões para cima na inflação e para baixo no crescimento, o que coloca o banco central em uma posição delicada entre atividade e preços. Nesse contexto, a expectativa é de que Jerome Powell adote um discurso cauteloso, reforçando a necessidade de paciência, enquanto monitora os impactos da guerra e das tarifas, elementos que podem manter a inflação pressionada e dificultar uma flexibilização mais rápida dos juros.
· 02:38 — O conflito avança
A guerra no Oriente Médio continua a se intensificar, com desdobramentos tanto militares quanto políticos. Israel neutralizou Ali Larijani, que era Secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, uma figura central do regime iraniano, o que representa mais um golpe significativo na liderança do país e pode fortalecer alas mais radicais, reduzindo as chances de negociação. Ao mesmo tempo, o conflito segue pressionando os preços do petróleo, embora sinais pontuais, como a liberação parcial de navios pelo Estreito de Ormuz, tragam algum alívio marginal aos mercados. Ainda assim, apenas 15 navios cruzaram o estreito nos últimos três dias, evidenciando a dificuldade de normalização do fluxo na região.
Nos Estados Unidos, a escalada também começa a gerar tensões internas e externas. A renúncia de um alto funcionário antiterrorismo em protesto contra a guerra evidencia divisões dentro do próprio governo, enquanto aliados tradicionais resistem aos pedidos de apoio militar de Donald Trump, criticando a condução do conflito (lembre-se que outra preocupação do presidente é com a eleição de meio de mandato). Com baixas crescentes e sem sinais claros de desescalada, o cenário permanece altamente incerto, tanto do ponto de vista geopolítico quanto para os mercados globais.
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· 03:24 — Crise hídrica
Além de pressionar o petróleo, o conflito com o Irã começa a expor uma vulnerabilidade ainda mais crítica no Oriente Médio: o abastecimento de água. Ataques recentes a usinas de dessalinização, essenciais para transformar água do mar em potável em países do Golfo, elevam o risco de uma crise hídrica em uma região já estruturalmente escassa em recursos. Com países como Arábia Saudita, Emirados Árabes e Qatar altamente dependentes dessa tecnologia, qualquer dano à infraestrutura pode afetar milhões de pessoas. Embora o direito internacional proíba esse tipo de alvo, há precedentes na região, e o risco de a água se tornar uma nova frente de conflito cresce à medida que a guerra se intensifica, adicionando uma camada adicional de instabilidade geopolítica.
· 04:17 — O próximo a cair
Cuba enfrenta uma crise econômica e energética severa, agravada por restrições às importações de petróleo impostas pelos Estados Unidos, o que levou a apagões generalizados e colapso de serviços básicos. Diante desse cenário, o governo cubano sinaliza uma possível abertura a investimentos estrangeiros, especialmente de cubano-americanos, e já iniciou medidas como a liberação de presos, em uma tentativa de aliviar pressões e viabilizar negociações com Washington. Ao mesmo tempo, cresce a especulação sobre mudanças políticas mais profundas, incluindo até a possível saída do presidente Miguel Díaz-Canel, como parte de um acordo mais amplo para normalizar relações econômicas com os EUA.
Do lado americano, a estratégia parece combinar pressão econômica intensa com abertura condicional, possivelmente visando uma transição de regime, aos moldes do que fez na Venezuela, ou maior influência sobre a ilha. No entanto, o desfecho ainda é incerto: qualquer acordo deve exigir concessões relevantes de Cuba, como reformas políticas e econômicas, enquanto o histórico recente de intervenções dos EUA sugere que os resultados podem não necessariamente levar a uma democratização plena. Em meio a esse cenário, a crise cubana se torna mais um capítulo da disputa geopolítica atual, com implicações difíceis de prever tanto para a política regional.
· 05:01 — Se protegendo da inflação
A escalada recente das tensões geopolíticas recolocou no centro do debate uma preocupação recorrente para os investidores: o impacto do petróleo sobre a inflação. Quando os preços da energia sobem, esse movimento tende a se propagar rapidamente por toda a economia, encarecendo transporte, elevando custos de produção e, ao fim, pressionando o custo de vida. Esse efeito em cadeia dificulta o processo de desinflação e leva bancos centrais, como o Banco Central brasileiro e o Federal Reserve, a adotarem uma postura mais cautelosa na condução da política monetária. Para o investidor, isso se traduz em um ambiente mais incerto, no qual tanto a trajetória da inflação quanto a dos juros tornam-se menos previsíveis.
Nesse contexto, ativos atrelados à inflação voltam a ganhar relevância como instrumentos de proteção. Um exemplo é o ETF Inflação ANBIMA Curta do BTG Pactual (PACC11), que investe em títulos públicos indexados ao IPCA (NTN-Bs) de prazos mais curtos. Esses papéis oferecem proteção direta contra a inflação, com menor volatilidade em comparação aos títulos de maior duration, além de potencial de geração de retorno real ao longo do tempo. O produto também apresenta uma estrutura eficiente do ponto de vista operacional, com isenção de IOF e come-cotas, alíquota única de imposto de renda de 15% (retida na fonte), liquidez em D+1 e baixo custo (taxa de administração de 0,19% ao ano). Na prática, trata-se de uma alternativa acessível e equilibrada para preservar o poder de compra, combinando proteção, previsibilidade e potencial de retorno.