Imagem: iStock.com/Saulo Angelo
O setor de tecnologia entrou em uma fase de questionamento mais profundo — e, em certa medida, inevitável — que expõe um dilema central para os investidores.
Se a inteligência artificial for, de fato, altamente disruptiva, ela pode pressionar modelos de negócios hoje consolidados, afetando margens e dinâmicas competitivas; se, por outro lado, a disrupção for mais lenta ou menos ampla do que o mercado precificou, parte do setor pode simplesmente estar cara demais para o retorno que entrega. Com isso, a incerteza permanece, e a volatilidade acabou se espalhando para outras praças e classes de ativos, mas também instrumentos tradicionalmente defensivos, como ouro.
Nesse ambiente, os balanços corporativos ajudam, mas já não são suficientes por si só: resultados robustos perdem força quando o mercado não enxerga, com clareza, como e quando os investimentos pesados em IA se convertem em geração de caixa e lucro. No pano de fundo, o cenário macro adiciona camadas relevantes de cautela. Bancos centrais como o BCE e o Banco da Inglaterra tendem a manter os juros no curto prazo, mas o mercado segue particularmente sensível a sinais de desaceleração.
· 00:58 — Sob pressão
No Brasil, depois de renovar máximas na região dos 185 mil pontos, o Ibovespa entrou em correção e devolveu quase 4 mil pontos no pregão de ontem, pressionado sobretudo pela reação negativa ao balanço do Santander, que serviu como gatilho para uma realização mais ampla no setor financeiro.
O movimento também foi amplificado pelo desconforto fiscal: as iniciativas recentes do Congresso — já comentadas neste espaço — voltaram a pressionar a ponta longa da curva de juros e reforçaram a percepção de que 2026 seguirá sem alívio relevante na ancoragem das expectativas.
Em tese, uma melhora mais consistente na leitura fiscal só tende a ganhar tração a partir de 2027, a depender do desfecho eleitoral; ainda assim, novidades que aumentam o custo da conta no curto prazo acabam piorando um quadro que já era frágil. Nesse contexto, vale acompanhar a entrevista de hoje do presidente Lula, que pode sinalizar se pretende ou não vetar parte do pacote de gastos, como recomenda a equipe técnica.
Para o pregão de hoje, a tendência é de que o mercado faça uma digestão mais construtiva dos números do Itaú, divulgados na noite de ontem e, em linhas gerais, bem recebidos. O pano de fundo externo, porém, começa a manhã menos favorável: o dólar opera mais forte e as commodities cedem, combinação que costuma reduzir apetite a risco e pode limitar o fôlego do mercado local, especialmente após uma sequência de altas e com a volatilidade ainda elevada.
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· 01:43 — Tecnologia sob os holofotes
O setor de tecnologia segue sob pressão, com mais uma rodada de quedas puxada por software e semicondutores, em um momento em que o mercado passa a tratar com crescente rigor a conta — e o retorno — dos investimentos em inteligência artificial.
Mesmo após entregar resultados operacionais sólidos, a Alphabet foi penalizada ao indicar um capex para 2026 muito acima do esperado, reacendendo dúvidas sobre a velocidade de monetização e o retorno sobre o capital empregado.
Na mesma linha, a forte correção da AMD, apesar de números robustos, reforçou a leitura de que, neste ciclo, “bons resultados” já não bastam quando o investidor enxerga risco de compressão de margens, competição crescente e uma régua mais exigente para justificar múltiplos.
Nesse contexto, o mercado agora volta as atenções para o balanço da Amazon, divulgado após o fechamento, que deve funcionar como teste importante: ele ajudará a calibrar se a aversão atual é apenas um ajuste tático — com espaço para estabilização caso venham sinais claros de rentabilidade e disciplina — ou se a penalização a gastos agressivos em tecnologia tende a se prolongar, exigindo evidências mais concretas de geração de valor.
· 02:35 — Depois do atraso
Após o shutdown relâmpago, a agenda econômica americana volta a ganhar ritmo com a divulgação do relatório JOLTS e dos pedidos semanais de auxílio-desemprego, enquanto os investidores seguem atentos aos próximos sinais vindos da política monetária.
Declarações de Donald Trump reforçando a expectativa de cortes de juros ampliaram a percepção de pressão política sobre o Federal Reserve, movimento que se refletiu na curva de juros, com queda das taxas de curto prazo e alta dos vencimentos mais longos. Sem dúvida, esse é um dos temas centrais do ano, especialmente a partir do momento em que Kevin Warsh assumir a liderança do Fed.
· 03:22 — Parceria estratégica
A União Europeia deve apresentar aos Estados Unidos uma proposta de parceria estratégica em minerais críticos para reduzir a dependência da China, com a intenção de firmar um memorando de entendimento em até três meses.
A iniciativa busca coordenar o acesso a insumos essenciais para tecnologias modernas, hoje amplamente dominados pela oferta chinesa, reforçando a resiliência das cadeias de suprimentos. Após pressões americanas por acordos bilaterais com países do bloco, a Comissão Europeia recebeu mandato para negociar em nome da UE, preservando a unidade do bloco; o texto também inclui compromisso mútuo com a integridade territorial, em um esforço de reaproximação após tensões recentes no Atlântico.
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· 04:19 — Desafiando o dólar
O presidente Xi Jinping manifestou publicamente o desejo de fortalecer o renminbi e, no longo prazo, reduzir a hegemonia do dólar como principal moeda de reserva global — um posicionamento particularmente oportuno diante da recente desvalorização da moeda americana desde o retorno de Donald Trump.
Apesar disso, o ponto de partida segue bastante assimétrico: o dólar ainda responde por cerca de 57% das reservas internacionais, enquanto o renminbi representa menos de 2%. Ainda assim, elementos como o aumento de tarifas, a maior polarização política nos Estados Unidos e o uso crescente de moedas locais em transações internacionais vêm alimentando o debate sobre uma ordem monetária mais multipolar.
A substituição do dólar permanece improvável no horizonte próximo, pois exigiria reformas profundas na China, incluindo a abertura da conta de capital e maior conversibilidade da moeda, medidas que Pequim tende a evitar. O cenário mais plausível, portanto, é o de um fortalecimento gradual do renminbi como moeda complementar no sistema financeiro internacional, sem que isso represente, ao menos por ora, uma ameaça direta à centralidade do dólar.
· 05:07 — Rotação
Os investidores passaram a olhar o setor de tecnologia com um grau de seletividade muito maior, deslocando o foco do discurso genérico de ganhos de produtividade para uma análise mais fina sobre quais modelos de negócio tendem, de fato, a ser beneficiados — ou pressionados — pela inteligência artificial.
Esse movimento ficou claro nas reações assimétricas aos balanços recentes de companhias como Meta Platforms, Microsoft e Alphabet: mesmo com resultados operacionais sólidos e crescimento de receitas, os anúncios de elevação relevante dos investimentos em IA foram penalizados quando não vieram acompanhados de evidências mais concretas de retorno econômico, catalisando uma rotação intensa dentro do próprio setor.
Ainda assim, o que se observa é…