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Investimentos

Ibovespa hoje: digestão dos resultados da Vale (VALE3), dados do varejo, tensões geopolíticas e mais destaques

Ibovespa flertou com 190 mil pontos ontem (12). O que esperar da bolsa de valores brasileira hoje?

Por Matheus Spiess

13 fev 2026, 09:59

Atualizado em 13 fev 2026, 09:59

ibovespa bolsa mercado bull bear

Imagem: iStock/ @asbe

As bolsas globais passaram a operar em modo mais defensivo, com as ações americanas registrando perdas disseminadas, puxadas por empresas de logística e tecnologia — agora também atingidas pelo chamado “medo da IA”. A aversão ao risco se propagou com rapidez: ouro e prata caíram de forma abrupta ontem, enquanto parte dos investidores buscou refúgio nos Treasuries, em um ambiente de nervosismo crescente às vésperas da divulgação do CPI de janeiro nos Estados Unidos. Esse movimento vem na esteira de dados fortes do mercado de trabalho, que reduziram as apostas em cortes antecipados de juros pelo Federal Reserve. Nesse contexto, mesas de juros pelo mercado alertaram para um grau excessivo de complacência do mercado em relação à inflação, justamente quando a temporada de resultados recoloca a sustentabilidade dos lucros e os múltiplos de avaliação no centro das discussões.

Na Ásia, o contágio de Wall Street pressionou as bolsas, com recuos mais relevantes no Japão, na Coreia do Sul e na China continental, enquanto Hong Kong também cedeu, apesar de sinais pontuais de alívio nas tensões sino-americanas. O receio de que novas ferramentas de inteligência artificial sejam disruptivas a ponto de ameaçar modelos de negócio tradicionais ampliou o movimento de venda para setores além da tecnologia — como imobiliário comercial, crédito privado, seguros e logística — reforçando a leitura de um mercado mais sensível e sujeito a episódios de instabilidade. Com o feriado prolongado nos EUA, o Ano Novo Lunar na China e Carnaval no Brasil, o pano de fundo tende a seguir marcado por liquidez mais baixa e maior reatividade a dados e manchetes, mantendo elevado o nível de cautela.

· 00:58 — Acompanhando o humor gringo

No Brasil, após flertar com a marca dos 190 mil pontos, o Ibovespa passou por uma realização em linha com o movimento observado em Nova York e com a correção do petróleo — um ajuste que considero saudável após a forte alta recente. O volume financeiro seguiu elevado, próximo de R$ 40 bilhões no pregão, ainda sustentado pelo fluxo estrangeiro: em janeiro, o giro médio diário avançou 43,5% na comparação anual, evidenciando um aumento relevante do apetite por ativos brasileiros, especialmente por parte dos investidores internacionais.

A queda de quase 3% do petróleo contribuiu para o ajuste em Petrobras, pressionada pela perspectiva de excesso de oferta e por comentários de Donald Trump sobre um possível acordo entre EUA e Irã; hoje, porém, surgem notícias de um novo movimento militar americano na região, com o envio adicional de um porta-aviões ao Oriente Médio, o que pode reacender prêmios geopolíticos e sustentar o preço do barril — assim como outros ativos sensíveis a esse tipo de risco (como ouro).

Vale recuou na véspera em compasso de espera pelo balanço divulgado à noite: os números vieram robustos do ponto de vista operacional, embora mais “poluídos” na linha financeira. Na agenda doméstica, o foco se volta agora para os dados de vendas no varejo, após leituras fracas de serviços ao longo da semana; apesar de se referirem ao mês do Natal, as projeções indicam desempenho inferior ao de novembro. Como temos destacado, uma leitura mais fraca reforçaria a probabilidade de um corte de juros mais intenso já na reunião de março.

· 01:47 — Na expectativa pela inflação

Os mercados acionários dos Estados Unidos encerraram ontem o pregão em forte queda, com Dow Jones Industrial Average, S&P 500 e Nasdaq Composite recuando, em mais um episódio de reversão intradiária que vem se tornando recorrente. O movimento refletiu uma combinação de fatores: a decisão da Câmara dos EUA de entrar em recesso sem votar o orçamento do Department of Homeland Security, o que reabriu o risco de uma nova paralisação parcial do órgão (sim, mais uma vez), e dados mais fracos do mercado imobiliário, com queda expressiva de 8,4% nas vendas de casas usadas em janeiro. À frente, a atenção dos investidores se volta para a divulgação do CPI do mês, que deve apontar desaceleração da inflação na comparação anual, embora ainda traga alguma pressão na leitura mensal por conta de ajustes sazonais. Ainda assim, a leitura predominante é que o impacto sobre a condução da política monetária do Federal Reserve tende a ser limitado, já que o foco segue concentrado na dinâmica do mercado de trabalho, com apostas majoritárias na manutenção dos juros no curto prazo e eventuais cortes sendo precificados, de forma mais consistente, apenas a partir de junho.

· 02:34 — Os efeitos da IA

Depois de software, seguros e serviços financeiros receio em torno dos efeitos da inteligência artificial avançou para setores tradicionalmente classificados como “velha economia”, atingindo de forma abrupta empresas de logística e transporte. O Russell 3000 Trucking recuou quase 8% após a Algorhythm Holdings — antiga empresa de karaokê — divulgar ganhos expressivos de eficiência operacional com o uso de IA, reacendendo temores de disrupção profunda e potencial eliminação de postos de trabalho. A reação foi imediata: ações como CH Robinson Worldwide e Landstar System lideraram as quedas, em um movimento que acabou se espalhando também para distribuidores farmacêuticos, sinalizando um aumento generalizado da aversão ao risco nesses segmentos.

O episódio reforça a percepção de que a ansiedade associada à IA não se limita ao setor de tecnologia e tampouco poupa modelos de negócio mais tradicionais. Além disso, chama atenção por ocorrer em paralelo a um raro e público coro de alertas vindos de dentro da própria indústria de inteligência artificial, com demissões, críticas e manifestações de preocupação em empresas como Anthropic e OpenAI. Soma-se a isso a intensificação do debate regulatório, com posições cada vez mais divergentes entre os principais players, indicando que a discussão sobre os impactos econômicos, sociais e trabalhistas da IA entrou em uma fase mais sensível, abrangente e potencialmente disruptiva para os mercados.

· 03:21 — Suporte para juros mais baixos?

Embora a inteligência artificial deva exercer um impacto profundo sobre a economia ao longo do tempo, ela não oferece base para cortes preventivos de juros neste momento. Em primeiro lugar, os ganhos de produtividade associados à IA ainda não são disseminados nem claramente estruturais, o que sugere que a recente resiliência econômica é mais cíclica do que fruto de uma transformação permanente. Em segundo, no curto e médio prazo, a própria expansão da IA tem gerado pressões inflacionárias, seja pelo aumento da demanda por energia, pelos elevados investimentos em data centers ou pelos efeitos de riqueza decorrentes da valorização dos ativos financeiros. Por fim, mesmo em um cenário em que a IA venha a contribuir para a desinflação no futuro, ela também tende a elevar a taxa neutra real de juros, o que tornaria a política monetária do Federal Reserve mais acomodatícia mesmo sem a necessidade de reduzir as taxas nominais.

· 04:16 — Ruptura ou não?

Às vésperas da Conferência de Segurança de Munique, o debate europeu se dá, em grande medida, sob a percepção de que Donald Trump estaria simplesmente desmontando a ordem internacional construída no pós-Guerra Fria. Na prática, porém, sua política externa tem se mostrado muito mais uma renegociação completa e profunda de arranjos já existentes do que uma ruptura estrutural (pelo menos por enquanto). O episódio recente envolvendo a Groenlândia é ilustrativo: o que parecia uma crise aguda acabou sendo resolvido por meio de ajustes marginais em acordos que, na realidade, já garantiam amplo acesso militar americano ao território.

Entre EUA e China, a Europa segue presa a uma retórica de autonomia estratégica que não encontra respaldo nem em meios materiais nem em coesão política suficiente para ser exercida. Ao insistir nessa narrativa, a Europa ignora uma lição recorrente em períodos de transição sistêmica: a necessidade de acomodação e adaptação a uma nova correlação de forças. Mesmo os apelos por um “despertar europeu”, como os feitos por Emmanuel Macron, esbarram em fragilidades políticas internas e em lideranças com capital político limitado, reforçando a leitura de que a dificuldade de combinar o legado do passado com as forças emergentes do presente.

· 05:05 — Um alívio alemão

A recente e expressiva alta dos pedidos industriais na Alemanha — próxima de 20% — tende a inflar a percepção do impulso de curto prazo da economia. Isso porque os ganhos estão fortemente concentrados em segmentos específicos, como o de defesa, que já operam próximos do limite de capacidade, o que dificulta uma resposta imediata da produção. Além disso, indicadores de alta frequência continuam apontando para uma retomada apenas gradual, em um ambiente ainda desafiador, marcado por comércio global enfraquecido, tarifas, perda de competitividade e uma demanda automotiva mais fraca na Europa. Nesse contexto, a recuperação industrial deve, de fato, ocorrer, mas…

Estudou finanças na University of Regina, no Canadá, tendo concluído lá parte de sua graduação em economia. Pós-graduado em finanças pelo Insper. Trabalhou em duas das maiores casas de análise de investimento do Brasil, além de ter feito parte da equipe de modelagem financeira de uma boutique voltada para fusões e aquisições. Trabalha hoje no time de analistas da Empiricus, sendo responsável, entre outras coisas, por análises macroeconômicas e políticas, além de cobrir estratégias de alocação. É analista com certificação CNPI.