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Investimentos

Ibovespa hoje: entre ‘apocalipse’ da IA e guerra comercial de Trump, o mercado procura um norte; veja destaques do dia

No último pregão, o Ibovespa passou por uma realização parcial de lucros, em linha com o mau humor observado no exterior

Por Matheus Spiess

24 fev 2026, 10:09

Atualizado em 24 fev 2026, 10:13

Inteligência artificial ia mercado ibovespa

O receio em torno do impacto da inteligência artificial voltou a ganhar tração após um relatório da Citrini Research delinear um cenário hipotético de disrupção econômica até 2028, combinando desemprego mais elevado entre trabalhadores de escritório, desaceleração do consumo e tensões no crédito — especialmente em segmentos ligados ao ecossistema de software.

Embora o próprio texto enfatize tratar-se de um exercício de estresse, e não de uma previsão, a reação do mercado foi significativa: ações de empresas de pagamentos, tecnologia e serviços sofreram quedas expressivas, com a IBM registrando sua pior sessão em 25 anos.

Ao mesmo tempo, o ambiente externo segue carregado por ruído comercial após a decisão da Suprema Corte sobre as tarifas de Donald Trump. A União Europeia reagiu congelando a ratificação do acordo com os EUA, enquanto a nova tarifa global de 15% entra em vigor e mantém o tema no centro do noticiário.

Somam-se a isso riscos geopolíticos envolvendo o Irã, dúvidas sobre o ritmo de cortes de juros pelo Fed e a agenda intensa da semana — com o discurso do Estado da União e balanços corporativos relevantes no radar. Apesar da realização recente, os futuros em Nova York ensaiam leve recuperação, enquanto as bolsas asiáticas exibem desempenho misto na volta do feriado. O petróleo negocia próximo de US$ 72 e o Bitcoin recua.

· 00:54 — O Brasil precisa de emprego formal, não de mais custo

No Brasil, após a renovação de máximas no fim da semana passada, o Ibovespa passou por uma realização parcial de lucros na segunda-feira, em linha com o mau humor observado no exterior. O movimento, no entanto, não foi uniforme. O dólar voltou a perder força globalmente e também frente ao real, encerrando o dia em R$ 5,16 — o menor nível desde maio de 2024 —, o que ajudou a manter o ambiente doméstico relativamente mais equilibrado.

Na agenda econômica, a atenção se volta para a temporada de resultados corporativos e, sobretudo, para os dados de inflação e emprego previstos para sexta-feira, que podem influenciar as expectativas para a política monetária. Indicadores como arrecadação federal e dados externos também estão no radar, ainda que com menor potencial de impacto imediato.

Em Brasília, ganha tração a discussão da PEC que propõe o fim da escala 6×1, cujo relator na CCJ deve ser o deputado Paulo Azi (União-BA). O tema se insere em um ambiente político sensível: é visto como uma das bandeiras do governo para 2026, mas enfrenta resistências no Congresso.

Em paralelo, parlamentares articulam uma possível nova desoneração da folha como forma de compensar o aumento de custos às empresas — proposta que, embora busque mitigar impactos sobre o setor produtivo, traz questionamentos relevantes do ponto de vista fiscal.

O ponto central da discussão, contudo, vai além da escala 6×1 em si. O desafio estrutural do Brasil não deveria ser o de reduzir a jornada formal, mas ampliar o mercado de trabalho formal. No fim do ano passado, a população ocupada estava distribuída aproximadamente da seguinte forma: 40,8 milhões de trabalhadores com carteira assinada (CLT); 10,5 milhões entre conta própria e empregadores; cerca de 38,7 milhões na informalidade; e aproximadamente 13 milhões no setor público. Ou seja, o contingente informal é praticamente do mesmo tamanho do universo formal privado. Essa é a verdadeira distorção.

O trabalhador formal é quem sustenta a arrecadação que financia o Estado — inclusive políticas que alcançam quem está fora da formalidade. O esforço estrutural deveria, portanto, concentrar-se em ampliar a base formal, reduzindo encargos, simplificando regras e incentivando a transição do informal para o formal.

Reformas nessa direção — como a modernização trabalhista realizada no governo Temer e, em escala mais radical, o programa atual promovido por Javier Milei na Argentina — apontam para um caminho de redução de distorções, enxugamento da máquina pública e fortalecimento da iniciativa privada como motor de geração de emprego. O efeito fiscal tende a ser positivo: mais formalização amplia a arrecadação sem elevar alíquotas, o que, no limite, abre espaço até para redução da carga tributária.

A direção atual do debate, entretanto, parece caminhar no sentido oposto. A ampliação do Estado via contratação de servidores e a defesa de medidas que elevam custos obrigatórios para o setor produtivo — como o fim da escala 6×1 — podem gerar efeitos fiscais adversos e pressionar ainda mais a estrutura de custos das empresas.

A experiência recente mostra que aumentos de rigidez no mercado de trabalho frequentemente produzem efeitos colaterais indesejados, inclusive incentivo à informalidade ou substituição por modelos alternativos, como a chamada gig economy (Uber, iFood e afins). O mercado de trabalho hoje está aquecido, em parte como maturação das reformas anteriores de Temer, em parte pela expansão de programas assistenciais (que distorcem a estatística) e também pelos modelos alternativos mencionados anteriormente.

O risco é comprometer esse equilíbrio ao atacar o sintoma — jornada formal — e não a causa estrutural — baixa produtividade, elevada informalidade e Estado inchado. Mais uma vez, o debate corre o risco de escolher o caminho mais fácil politicamente, mas menos sustentável economicamente.

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· 01:46 — Digerindo um cenário catastrófico

Ontem observamos uma realização quase generalizada nos mercados, com destaque para as ações de tecnologia, após a ampla repercussão do relatório da Citrini Research divulgado no fim de semana, intitulado “A Crise Global de Inteligência de 2028”.

O texto constrói um cenário duro: a inteligência artificial avançaria de forma acelerada, substituiria parcela relevante dos trabalhadores de escritório (“white collar”), pressionaria modelos de negócios de empresas de software e instituições financeiras, reduziria renda e consumo e, no limite, poderia culminar em uma crise sistêmica até o fim da década.

Como exercício de estresse e construção de cenário extremo, a narrativa é intelectualmente atraente, sem dúvida, e cumpre o papel de provocar reflexão. No entanto, o relatório trata diferentes etapas — adoção tecnológica, reorganização corporativa, adaptação de infraestrutura, impacto sobre lucros e reprecificação de ativos — como se ocorressem de maneira quase simultânea e automática.

Na prática, essas transições costumam ser graduais, permeadas por fricções, como custos de implementação, ajustes operacionais, testes, erros, exigências regulatórias e contratos que não podem simplesmente ser ignorados.

Ao transformar pressões reais — como a redução de custos em determinadas tarefas — em conclusões estruturais amplas, como colapso generalizado de empregos, de SaaS e do consumo, o texto deixa lacunas relevantes sobre como, concretamente, cada elo dessa cadeia se materializaria de forma rápida e inevitável. E aí está o pulo do gato.

Como já apontado em diversas análises em resposta ao relatório, a crítica central não é que o cenário seja impossível — ele é, sim, possível. O ponto é que ele pressupõe uma conexão quase automática entre capacidade técnica e impacto econômico.

Executar melhor uma tarefa não significa eliminar um emprego inteiro; desenvolver um protótipo não equivale a substituir um sistema crítico em ambiente corporativo; reduzir custo unitário não garante queda do gasto agregado; e automatizar decisões não implica, automaticamente, assumir responsabilidades jurídicas, regulatórias e financeiras em larga escala.

A economia real opera sob contratos, regras, auditorias, prazos de renovação, garantias e estruturas de governança que tendem a desacelerar — e frequentemente reformatar — o impacto das inovações. Como provocação de cenário de cauda, o relatório é útil e amplia o debate sobre IA e macroeconomia. O risco está em tratá-lo como previsão quase certa de uma crise iminente.

Para que tal cenário se concretize nos moldes descritos, seria necessário demonstrar, com maior profundidade empírica e institucional, como cada etapa dessa transformação ocorreria dentro do arcabouço regulatório e operacional em que as empresas efetivamente operam. Sem esse detalhamento, a tese permanece mais como um alerta teórico do que como um roteiro provável do que está prestes a acontecer.

· 02:38 — Mercado sob pressão

Para além da questão tecnológica comentada anteriormente, a disputa comercial voltou a ocupar o centro das atenções nos mercados globais. Depois do alívio inicial observado na sexta-feira, quando a Suprema Corte dos Estados Unidos considerou ilegais parte das tarifas impostas anteriormente, o sentimento mudou rapidamente.

Na segunda-feira, Wall Street reagiu negativamente à confirmação de uma nova tarifa global de 15%, movimento que reacendeu as incertezas sobre os próximos passos da política comercial americana.

Assim, nesse contexto, os investidores passaram a dividir a atenção entre diferentes frentes. De um lado, a temporada de resultados corporativos ganha peso — com destaque especial para os números da Nvidia, dada sua relevância para o setor de tecnologia e para o tema de inteligência artificial. De outro, indicadores econômicos como confiança do consumidor e preços de imóveis ajudam a calibrar a percepção sobre a força da economia americana.

Somam-se ainda os discursos de dirigentes do Federal Reserve, que podem oferecer pistas sobre os próximos passos da política monetária, e o pronunciamento de Trump ao Congresso na noite de hoje, potencialmente relevante para entender o grau de apoio político à sua estratégia comercial e os desdobramentos das tarifas nos próximos meses.

· 03:23 — Incerteza sobre os próximos passos

O mercado rapidamente transitou do alívio inicial para um ambiente de maior cautela após a Suprema Corte dos Estados Unidos invalidar parte das tarifas impostas pelo presidente Donald Trump com base em poderes de emergência, como comentamos ontem.

Embora o representante comercial Jamieson Greer da Casa Branca tenha afirmado que os acordos firmados permanecem válidos e que o governo dispõe de outros instrumentos para sustentar sua estratégia, a resposta foi imediata: Trump anunciou uma tarifa global “temporária”, elevando-a de 10% para 15%, e sinalizou a possibilidade de novas medidas, inclusive com fundamento em segurança nacional, por meio da Seção 232, além de revisar tarifas já existentes sobre aço e alumínio.

O resultado foi um aumento perceptível da imprevisibilidade. Como resultado, a União Europeia decidiu congelar a ratificação do acordo comercial com os Estados Unidos enquanto busca esclarecimentos, diante da percepção de que as novas tarifas podem contrariar entendimentos previamente firmados.

O Reino Unido também acompanha com atenção, temendo perder condições diferenciadas negociadas anteriormente. Paralelamente, intensifica-se o debate sobre o eventual reembolso de valores já arrecadados e sobre a extensão das novas tarifas, que têm validade limitada a 150 dias sem aprovação do Congresso (se caírem daqui cinco meses, haverá novo reembolso?) — cenário no qual democratas já indicam que tentarão barrar qualquer prorrogação. Nesse contexto, as bolsas americanas voltaram a oscilar com mais força, e o comércio exterior reassumiu papel central como fonte de volatilidade para os mercados globais.

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· 04:17 — Saída antecipada e dúvida sobre os próximos passos

Na Europa, uma possível saída antecipada de Christine Lagarde da presidência do Banco Central Europeu antes do fim de seu mandato, em outubro de 2027, pode alterar o tabuleiro da sucessão no BCE. Além de reduzir o leque de potenciais candidatos e favorecer nomes já considerados fortes — como Klaas Knot, Pablo Hernández de Cos, Joachim Nagel e Isabel Schnabel —, uma transição antecipada daria espaço para que Emmanuel Macron tenha influência no processo antes das próximas eleições francesas.

E esse ponto importa: a depender do resultado eleitoral, o equilíbrio político na França pode mudar de forma relevante, o que tende a afetar o ambiente e as preferências em torno do perfil desejado para a liderança da autoridade monetária europeia (por isso o interesse na antecipação da escolha).

Já no Japão, dúvidas sobre o ritmo de novos aumentos de juros ganharam força após relatos de que a primeira-ministra Sanae Takaichi teria expressado preocupação com um aperto monetário adicional em conversa recente com o presidente do Banco do Japão, Kazuo Ueda. A reação foi imediata: o iene se desvalorizou cerca de 1%, sinalizando a surpresa do mercado diante de uma postura percebida como menos pró-normalização monetária — e, portanto, menos “pró-mercado” — do que se imaginava até aqui.

· 05:09 — Repensando a segurança europeia e o papel dos ativos de proteção

Pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, capitais europeias voltaram a discutir, de forma mais explícita, a necessidade de desenvolver capacidades próprias de dissuasão nuclear. O ponto de inflexão ocorreu em março, quando os Estados Unidos interromperam temporariamente o compartilhamento de informações de inteligência com a Ucrânia, levando aliados a confrontar uma hipótese antes impensável: a de que Washington possa não ser um parceiro militar tão previsível quanto no passado.

Essa inquietação permeia fóruns como a Conferência de Segurança de Munique e se soma ao receio, manifestado por analistas e pelo escritor ucraniano Andrey Kurkov, de que Kiev possa ser pressionada a aceitar uma “capitulação disfarçada” em nome da paz. A consequência para os mercados é conhecida: em ambientes marcados por incerteza geopolítica e questionamentos institucionais, cresce a busca por ativos mais seguros.

Nesse contexto, os metais preciosos têm…

Estudou finanças na University of Regina, no Canadá, tendo concluído lá parte de sua graduação em economia. Pós-graduado em finanças pelo Insper. Trabalhou em duas das maiores casas de análise de investimento do Brasil, além de ter feito parte da equipe de modelagem financeira de uma boutique voltada para fusões e aquisições. Trabalha hoje no time de analistas da Empiricus, sendo responsável, entre outras coisas, por análises macroeconômicas e políticas, além de cobrir estratégias de alocação. É analista com certificação CNPI.