Imagem: Divulgação Casa Branca | Edição do fundo em CanvaPro
A guerra entre Estados Unidos e Irã segue marcada por elevada incerteza e mudanças frequentes de direção, com o presidente Donald Trump alternando entre uma retórica mais agressiva, com ameaças de intensificação do conflito, e sinais de possível desengajamento, inclusive admitindo encerrar a campanha militar mesmo sem a reabertura completa do Estreito de Ormuz.
Esse vai-e-volta contribui para um ambiente de baixa visibilidade, no qual decisões estratégicas parecem ser constantemente revisadas, enquanto episódios pontuais, como ataques a embarcações na região, continuam adicionando tensão ao cenário. Ao mesmo tempo, o fluxo de petróleo permanece restrito, com acordos bilaterais garantindo o abastecimento de alguns países, o que mantém a oferta global pressionada e sensível a novos desdobramentos. O mercado segue, portanto, refém do fluxo de manchetes.
· 00:54 — Uma trajetória contida
No Brasil, iniciamos a semana com um comportamento não homogêneo dos ativos, marcado pela alta da bolsa e pela depreciação do real, em um ambiente no qual os investidores permanecem fortemente atentos ao noticiário externo e ainda assimilam as revisões altistas de inflação no Boletim Focus.
Esse conjunto de fatores tem pressionado, sobretudo, setores mais sensíveis ao ciclo doméstico, como aqueles ligados ao consumo e com maior alavancagem operacional, que tendem a sofrer mais em momentos de aversão a risco.
Além disso, a aceleração do IGP-M em março e a comunicação recente do Banco Central também contribuíram para o tom mais cauteloso dos mercados. Em evento realizado na segunda-feira, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, reconheceu a existência de espaço para cortes de juros, mas adotou uma postura mais conservadora do que a precificada anteriormente, quando o mercado chegou a projetar uma sequência de reduções de 50 pontos-base. Esse cenário não está descartado no médio prazo, mas, por ora, a leitura mais provável é de um ciclo mais gradual, com cortes de 25 pontos-base, ao menos até que o ambiente externo se estabilize e os dados domésticos apresentem maior acomodação.
No campo dos indicadores, a agenda segue relevante. Hoje, a divulgação do Caged deve apontar a criação líquida de aproximadamente 269 mil vagas formais em fevereiro, sugerindo retomada das contratações após os ajustes típicos de fim de ano.
Dados mais fortes tendem a reduzir o espaço para cortes adicionais de juros, enquanto números mais fracos reforçariam a continuidade do ciclo de afrouxamento. Em paralelo, os dados fiscais do setor público consolidado devem indicar um déficit próximo de R$ 22 bilhões no mês, com a dívida bruta atingindo cerca de 78,9% do PIB, numa trajetória que permanece preocupante e reforça a percepção de que um ajuste fiscal será inevitável a partir do próximo ciclo político, independentemente do resultado eleitoral.
No curto prazo, contudo, o governo também lida com os efeitos da guerra sobre sua popularidade, uma vez que o choque de energia tende a se traduzir em preços mais elevados ao consumidor. Esse impacto ocorre em um momento já delicado, em que o comprometimento da renda das famílias com dívidas voltou a níveis elevados, em cerca de 29,3% em janeiro, o maior patamar da série histórica, sinalizando um quadro mais desafiador para o consumo e, consequentemente, para a condução da política econômica em pleno ano eleitoral.
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· 01:49 — O peso dos dados
Como elucidei ontem, a semana, embora mais curta por conta do feriado, concentra uma agenda relevante nos Estados Unidos, com destaque para o relatório de emprego (payroll) na sexta-feira, além dos dados do setor privado (ADP) e de indicadores de atividade, como ISM e PMIs, ao longo dos próximos dias.
Esses números serão fundamentais para avaliar o ritmo da economia americana e, sobretudo, para calibrar as expectativas em relação à trajetória dos juros. Em um ambiente global mais incerto, cada divulgação passa a ter peso redobrado, já que pode alterar rapidamente a percepção dos investidores sobre o crescimento, a inflação e a política monetária.
Nesse contexto, a fala de Jerome Powell ontem ganhou importância adicional. O presidente do Federal Reserve sinalizou ao mercado que o cenário inflacionário segue, por ora, sob controle, ajudando a aliviar parte da tensão e afastando, neste momento, a necessidade de uma nova alta de juros. Ainda assim, o desafio permanece delicado: de um lado, a inflação segue pressionada, especialmente pela alta recente do petróleo; de outro, começam a surgir sinais de desaceleração da atividade. O medo de estagflação está presente.
Além disso, o próprio mercado já vem promovendo um aperto nas condições financeiras, com juros longos mais elevados, maior aversão a risco e aumento do prêmio exigido pelos investidores; o que, na prática, já produz um efeito contracionista relevante, mesmo sem novas ações do Fed. Por isso, a agenda desta semana segue como um dos principais guias para os mercados no curto prazo.
· 02:32 — Escalada e desescalada
A guerra entre Estados Unidos e Irã segue em trajetória de intensificação e passa a incorporar novas camadas de risco com a possível entrada mais ativa dos houthis, no Iêmen, como comentei ontem, ampliando a tensão para além do Golfo Pérsico e alcançando também rotas estratégicas no Mar Vermelho.
Ao mesmo tempo, o presidente Trump eleva o tom ao ameaçar atingir diretamente a infraestrutura energética iraniana caso não haja um acordo para a reabertura do Estreito de Ormuz. Esse conjunto de fatores aumenta de forma relevante o risco de interrupções na oferta global de energia, com impactos diretos sobre os preços e sobre a dinâmica da economia mundial, especialmente em um contexto em que o conflito já entra em seu segundo mês sem sinais claros de resolução.
Ainda assim, começam a surgir sinais de possível distensão. Donald Trump pode, em tese, declarar uma “vitória” de forma relativamente rápida e redirecionar sua atuação, priorizando a normalização das rotas comerciais. O ponto central, contudo, é que os mercados seguem, em grande medida, reféns do humor do presidente americano, que tem se mostrado volátil, o que naturalmente se traduz em um prêmio de risco mais elevado para os ativos. Ou seja, mesmo em um cenário de eventual normalização, a tendência é que a tranquilidade não seja plena, com a incerteza geopolítica permanecendo incorporada aos preços.
· 03:27 — Contradições
A chamada “Terceira Guerra do Golfo” pode ser interpretada como a continuidade de uma sequência de intervenções dos Estados Unidos na região, iniciada em 1991 e aprofundada em 2003, que ao longo do tempo evoluiu de uma atuação mais coordenada com aliados para posturas progressivamente mais unilaterais e, por vezes, menos ancoradas em consensos internacionais.
Cada um desses episódios acabou criando, direta ou indiretamente, as condições para o conflito seguinte, culminando no atual cenário envolvendo o Irã, num ambiente que amplia a instabilidade global, pressiona a credibilidade americana e não aponta, ao menos por ora, para vencedores claros. Esse encadeamento levanta questionamentos sobre os limites dessa estratégia e sobre a relação entre custos crescentes e retornos incertos.
Ao mesmo tempo, decisões recentes ajudam a ilustrar a complexidade — e, em certa medida, as inconsistências — da política externa americana. A autorização para a passagem de um petroleiro russo com destino a Cuba, por exemplo, mesmo após restrições impostas anteriormente a outras origens, sugere uma atuação mais pragmática e seletiva, possivelmente orientada por circunstâncias específicas.
Ainda assim, esse tipo de movimento reforça a percepção de um ambiente internacional mais fragmentado, no qual regras parecem menos previsíveis e decisões estratégicas passam a ser tomadas de forma mais reativa, contribuindo para um cenário global mais incerto e difícil de interpretar, inclusive para os mercados.
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· 04:11 — Ordenamento internacional
O avanço das negociações entre Canadá e Mercosul ilustra um movimento mais amplo de reorganização do comércio global, no qual países buscam reduzir dependências e ampliar suas alternativas em um ambiente fragmentado.
Após anos de paralisação, o acordo ganhou novo impulso diante das tensões comerciais com os Estados Unidos, refletindo uma estratégia de diversificação por parte de grandes blocos econômicos. Nesse contexto, iniciativas como essa deixam de ser apenas acordos regionais e passam a representar uma tentativa deliberada de reconfigurar fluxos comerciais, diluindo riscos geopolíticos e criando novas rotas de integração econômica.
Essa mesma lógica aparece no acordo do Japão com a australiana Lynas para fornecimento de terras raras, bem como nas discussões envolvendo a União Europeia sobre minerais críticos. O objetivo é claro: reduzir a dependência em cadeias estratégicas e garantir maior oferta, mesmo que isso implique maior coordenação entre governos e intervenção nos preços. Em conjunto, esses movimentos evidenciam uma nova fase do ordenamento internacional, na qual eficiência cede espaço à segurança: players globais passam a estruturar suas cadeias produtivas com foco em diversificação e autonomia, ainda que a um custo potencialmente mais elevado.
· 05:06 — Atualizando o programa
A recente atualização do programa Minha Casa Minha Vida (MCMV) trouxe mudanças relevantes que tendem a fortalecer o setor de construção civil, especialmente no segmento de habitação popular. O governo elevou os limites de renda em todas as faixas, ampliou o valor máximo dos imóveis, com destaque para as faixas intermediárias, e reforçou o volume de subsídios, além de abrir espaço, no futuro, para um uso mais amplo dos recursos do Fundo Social.
Na prática, essas medidas ampliam o universo de famílias elegíveis ao financiamento habitacional e aumentam seu poder de compra, o que contribui para sustentar (e potencialmente expandir) a demanda por imóveis. Para o setor, o impacto é direto: mais compradores potenciais e maior visibilidade para a manutenção, ou até aceleração, do ritmo de lançamentos.
Embora parte dessas mudanças já fosse antecipada pelo mercado, a revisão reforça uma leitura construtiva para as construtoras, especialmente aquelas com maior exposição aos segmentos de baixa e média renda, que tendem a capturar de forma mais imediata esse aumento de demanda.
Nesse contexto, empresas bem posicionadas nessas faixas devem se beneficiar tanto do crescimento das vendas quanto de uma dinâmica operacional mais favorável ao longo dos próximos trimestres. É justamente nesse ponto que a Direcional Engenharia se destaca: com forte presença no segmento e histórico consistente de execução, a companhia reúne atributos importantes para capturar esse novo ciclo de expansão, sustentando uma tese atrativa e com bom potencial de geração de valor para o investidor. Por isso, sigo gostando de DIRR3 como uma forma eficiente de complementar a exposição em ações no Brasil.