Os Estados Unidos e o Irã chegaram a um acordo de cessar-fogo de duas semanas, mediado pelo Paquistão, que prevê a interrupção das hostilidades em troca da reabertura do Estreito de Ormuz. O anúncio ocorreu praticamente no limite do prazo estabelecido pelo presidente Donald Trump, que, horas antes, ainda adotava uma retórica bastante agressiva, evidenciando o quão próximo o cenário esteve de uma escalada mais severa.
A reação dos mercados foi imediata: os preços do petróleo recuaram de forma expressiva, em um dos movimentos mais intensos dos últimos anos, enquanto as bolsas globais avançaram, refletindo o alívio dos investidores diante da redução do risco de uma crise energética mais profunda.
Apesar desse alívio inicial, o cenário ainda demanda cautela. O cessar-fogo tem caráter temporário e carrega incertezas relevantes quanto à sua implementação e sustentação. Persistem dúvidas operacionais importantes, especialmente relacionadas à segurança da navegação no Estreito de Ormuz e à normalização do fluxo de petróleo. O quadro ainda está longe de uma resolução definitiva, mantendo a volatilidade como elemento presente no ambiente global nos próximos meses. Ainda assim, o alívio pode fazer com que haja uma normalização gradual do mercado, o que pode ser benefício para ativos globais.
· 00:52 — Um cessar-fogo conturbado para os americanos
Nos últimos dias, o mundo se aproximou de forma preocupante de uma escalada significativamente mais grave no conflito entre os Estados Unidos e o Irã. O presidente Donald Trump chegou a adotar uma retórica extremamente dura, com declarações estre o Domingo de Páscoa e a manhã de ontem que foram interpretadas como referências a possíveis ações nucleares.
Esse tipo de comunicação elevou de forma relevante o nível de tensão global, uma vez que, em cenários dessa natureza, mesmo probabilidades reduzidas de escalada já são suficientes para impactar expectativas, mercados e a percepção de risco de investidores globais. Ainda assim, pouco antes do prazo final estabelecido pelos Estados Unidos, foi anunciado um cessar-fogo de duas semanas, mediado pelo Paquistão, o que evitou, ao menos por ora, uma intensificação imediata do conflito e trouxe algum alívio ao ambiente internacional.
Isso não significa, contudo, que o risco tenha sido dissipado. O acordo está longe de representar uma solução definitiva. Tanto EUA quanto Irã têm apresentado a trégua como uma vitória, mas permanecem divergências relevantes entre as partes, e a sustentação do cessar-fogo ainda é frágil.
Além disso, persistem incertezas práticas importantes, como a segurança da navegação no Estreito de Ormuz e os impactos sobre o fluxo de petróleo, com centenas de embarcações ainda aguardando maior clareza. Os mercados reagiram de forma inicialmente positiva, com recuo do petróleo e recuperação dos ativos de risco, mas esse movimento vem acompanhado de cautela.
Em síntese, evitou-se um agravamento imediato da crise, mas o cenário permanece sensível, com potencial para novos episódios de volatilidade à medida que os desdobramentos avancem. Vejo um processo gradual de desescalada ao longo dos próximos meses, ainda que intercalado por episódios pontuais de maior volatilidade, à medida que o cronograma do cessar-fogo evolui e é colocado à prova.
· 01:44 — A reação deverá ser boa por aqui
No Brasil, mesmo antes do cessar-fogo articulado com mediação do Paquistão, o mercado local já começava a dar alguns sinais de alívio. Ainda assim, a moderação desse movimento chamava atenção. Pelo terceiro pregão consecutivo, o Ibovespa praticamente não saía do lugar, refletindo um ambiente de cautela e espera.
Agora, com a abertura de uma possível via para a resolução do impasse no Estreito de Ormuz, podemos voltar a trabalhar com uma percepção mais civilizada para a trajetória do IPCA. O cessar-fogo surge, portanto, em um momento particularmente relevante para o mercado, que já começava a incorporar maior estresse diante da piora das expectativas inflacionárias. Com isso, parte desse ruído tende a se dissipar, ainda que de forma gradual, permitindo alguma recomposição de cenário.
Ainda assim, a leitura predominante segue sendo a de que o Copom deve continuar o ciclo de cortes da Selic em 25 pontos-base, a menos que ocorra uma deterioração das apostas para o IPCA, a ponto de obrigar o Banco Central a interromper a flexibilização.
Ao mesmo tempo, o governo continua lidando com o legado econômico do conflito. O pacote anunciado para mitigar os efeitos da alta do petróleo, especialmente sobre o diesel, foi recebido com cautela pelo mercado, em meio a dúvidas relevantes quanto à sua eficácia e à sua execução. Isso porque permanece a percepção de que a defasagem em relação à paridade internacional não foi integralmente eliminada.
Do ponto de vista macroeconômico, também persistem questionamentos sobre o impacto fiscal das medidas, sua real neutralidade nas contas públicas e o risco de que os subsídios não sejam plenamente repassados ao consumidor final. No limite, trata-se de uma resposta que pode aliviar parte da pressão de curto prazo, mas ao custo de elevar o peso do ajuste fiscal mais adiante, particularmente em 2027.
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· 02:35 — Quem tem medo da inflação?
Nos Estados Unidos, a condução do conflito com o Irã passou a ser cada vez mais condicionada por fatores domésticos. A elevação dos preços da gasolina, superando o patamar de US$ 4 por galão (com algumas regiões já alcançando os US$ 7 por galão), exerceu pressão direta sobre a percepção econômica da população, ao mesmo tempo em que o apoio interno à guerra permaneceu limitado, refletindo um custo político crescente para o governo.
Esse ambiente contribuiu para moldar a postura mais recente da Casa Branca, que passou a sinalizar maior disposição ao diálogo, sugerindo que a dinâmica interna pode desempenhar um papel relevante na construção de um eventual acordo mais duradouro. Em paralelo, os mercados americanos atravessam um período de maior volatilidade no curto prazo, com pressões sobre bolsas e commodities energéticas, ainda que já se observe algum ajuste de posições.
Ainda assim, o pano de fundo econômico permanece desafiador. A guerra adiciona pressão inflacionária, especialmente por meio dos preços de energia e alimentos, ao mesmo tempo em que limita o grau de liberdade do Federal Reserve, que se encontra diante de um equilíbrio delicado entre conter a inflação e evitar um enfraquecimento mais acentuado da atividade econômica.
Como já destacamos, choques de oferta dessa natureza são particularmente difíceis de serem endereçados por política monetária, o que eleva o risco de decisões subótimas. Paralelamente, observa-se uma mudança no desempenho relativo dos mercados globais: desde o início de 2025, os Estados Unidos vêm ficando para trás em relação a outras regiões, em um contexto marcado por dólar mais fraco, rotação internacional de fluxos e questionamentos sobre setores-chave, como tecnologia (desde a questão envolvendo o DeepSeek).
Em conjunto, esses fatores delineiam um ambiente mais complexo para a economia americana, com desafios que se estendem tanto ao curto quanto ao médio prazo.
· 03:28 — Desdobramento mais profundos do conflito
O Irã passou a sinalizar a intenção de cobrar pedágio pela passagem no Estreito de Ormuz. Em termos estritamente econômicos, o impacto direto dessa medida sobre o preço do petróleo tende a ser relativamente limitado. Ainda assim, a questão central vai muito além do custo imediato por barril: o ponto mais relevante está na destinação desses recursos e nas implicações geopolíticas que podem emergir a partir desse novo arranjo.
Parte importante desses fluxos pode ser direcionada à reconstrução e ao rearmamento da região do Golfo, possivelmente fora da órbita de influência dos Estados Unidos, o que sugere uma reconfiguração gradual, mas importante, na dinâmica dos petrodólares. Ao mesmo tempo, a guerra parece ter acelerado transformações de natureza mais estrutural.
Entre elas, destacam-se o impulso adicional às energias renováveis, o interesse crescente em rotas alternativas ao Estreito de Ormuz e uma possível revisão das prioridades em torno dos gastos com defesa, cada vez mais relevantes na nova realidade que vivemos. Em conjunto, esses movimentos apontam para um rearranjo mais amplo da ordem econômica e geopolítica, cujos efeitos podem se prolongar muito além do episódio atual.
Embora o cessar-fogo seja, sem dúvida, muito preferível à continuidade do conflito, ele está longe de representar uma solução definitiva. Permanecem dúvidas relevantes quanto à sua durabilidade, ao grau de concessão efetivamente feito por cada uma das partes e, sobretudo, a questões centrais como a segurança da navegação em Ormuz, a eventual cobrança de taxas e os termos de uma possível reintegração do Irã à economia global.
Também seguem em aberto perguntas sensíveis sobre garantias contra novos ataques, reconstrução da infraestrutura atingida e os limites do programa nuclear iraniano. Caso os Estados Unidos venham, de fato, a aceitar esse conjunto de condições, o paralelo com a crise de Suez, em 1956, ganha força como uma referência histórica pertinente. O episódio consolidou o declínio da influência britânica e que, sob essa ótica, poderia sugerir um marco semelhante de erosão do poder hegemônico.
Por ora, a maior disposição do regime iraniano em negociar pode ser interpretada como um sinal construtivo. Ainda assim, a estabilidade futura continuará dependendo, em grande medida, das decisões tomadas em Teerã e da capacidade de se sustentar um equilíbrio delicado entre interesses conflitantes. Para os mercados, isso significa que, embora haja espaço para algum alívio no curto prazo, o pano de fundo segue exigindo cautela: o otimismo é compreensível, mas ainda convive com a possibilidade concreta de novos sobressaltos em um ambiente geopolítico que permanece instável.
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· 04:16 — Eleição na Hungria
A presença incomum do vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, ao lado do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, em Budapeste, evidencia a relevância das eleições na Hungria no domingo não apenas para Washington, mas também para Vladimir Putin, dentro de um contexto geopolítico mais amplo.
Após 16 anos no poder, Orbán enfrenta sinais de desgaste doméstico, ao mesmo tempo em que sua postura nacionalista, anti-imigração e crítica à União Europeia, frequentemente associada ao movimento político liderado por Donald Trump, transformou o país em um foco recorrente de tensão dentro do bloco europeu.
Ao longo dos últimos anos, seu governo tem atuado de forma sistemática para bloquear decisões relevantes da União Europeia, especialmente aquelas relacionadas ao apoio à Ucrânia, incluindo pacotes financeiros de grande magnitude.
Paralelamente, a Hungria mantém relações próximas com a Rússia e segue dependente de sua matriz energética, o que adiciona uma camada adicional de complexidade à sua posição no cenário internacional. Mais do que uma eleição nacional, trata-se de um evento com potencial para redefinir o equilíbrio de forças dentro da União Europeia e influenciar diretamente os desdobramentos da guerra na Ucrânia, o que torna o seu resultado particularmente relevante para os mercados e para a dinâmica geopolítica global.
· 05:01 — Entre o porto seguro e a erosão: o dólar pós-crise e a oportunidade nos ativos locais
O dólar voltou a se valorizar ao longo de março em termos globais, mas esse movimento precisa ser corretamente interpretado: tratou-se, sobretudo, de uma resposta ao aumento da aversão ao risco. Em momentos de crise, como uma escalada no Oriente Médio, investidores ao redor do mundo tendem a migrar para ativos considerados mais seguros, e o dólar segue ocupando esse papel central. Foi exatamente isso que observamos: a moeda americana avançou durante o período de maior tensão, funcionando como um verdadeiro “porto seguro”. Ainda assim, quando ampliamos a análise, nota-se que, no acumulado do ano, essa valorização permanece relativamente modesta e não reverte a fraqueza observada anteriormente.
Com o anúncio do cessar-fogo e a perspectiva de avanço nas negociações, esse impulso tende a perder força. Isso porque o principal vetor por trás da valorização (o medo) começa a se dissipar. À medida que o risco diminui, os investidores deixam de concentrar recursos em proteção e passam a buscar retorno em ativos mais arriscados, como ações e mercados emergentes.
Esse movimento, por si só, já cria pressão para um dólar mais fraco. Em outras palavras, o mesmo fator que impulsionou a moeda pode agora atuar no sentido inverso. Mas há também um componente estrutural relevante que reforça essa leitura: o comportamento dos títulos da dívida soberana americana. Tradicionalmente, os Treasuries funcionavam como um importante mecanismo de proteção, valorizando-se em momentos de estresse nos mercados.
Esse padrão, no entanto, tem se mostrado menos consistente, com episódios recentes em que tanto ações quanto títulos sofreram simultaneamente. Essa mudança reduz a eficácia dos Treasuries como “porto seguro”, enfraquecendo, na margem, um dos pilares de sustentação do dólar. Trata-se de um movimento que dialoga com o que temos discutido como debasement trade, refletindo um processo gradual de questionamento, ainda que parcial, da centralidade da moeda americana.
Além disso, a condução do episódio recente, marcada por idas e vindas, retórica agressiva e mudanças de direção, contribuiu para um novo desgaste na percepção de credibilidade dos Estados Unidos. Isso não implica uma ruptura com o status do dólar como principal moeda global, mas sugere uma erosão incremental de confiança.
Soma-se a isso a possibilidade de um Federal Reserve mais pressionado politicamente e potencialmente mais inclinado a reduzir juros, o que tende a diminuir o diferencial de rendimentos da moeda americana ao longo do tempo.
Por fim, há um fator menos visível, mas igualmente relevante: o próprio funcionamento do chamado petrodólar. Historicamente, países exportadores de petróleo reciclam seus excedentes em ativos denominados em dólar, especialmente títulos do Tesouro americano. Durante o episódio recente, no entanto, parte desses agentes passou a vender reservas para sustentar suas economias e moedas, reduzindo uma fonte estrutural de demanda por ativos dos EUA. Assim, embora o dólar tenha se fortalecido pontualmente em meio à crise, o conjunto de fatores, tanto cíclicos quanto estruturais, sugere que, com a descompressão das tensões, a tendência pode voltar a ser de enfraquecimento.
Nesse contexto, um ambiente de dólar mais fraco tende, historicamente, a funcionar como um vetor positivo para os ativos globais de risco, dinâmica que já observamos ao longo de 2025 e, mais recentemente, no primeiro bimestre de 2026. Esse movimento favorece a rotação de capital para fora dos Estados Unidos, impulsionando a diversificação geográfica dos investidores globais e beneficiando, de forma particular, os mercados emergentes — entre eles, o Brasil, que já voltou a captar fluxos relevantes neste ano.
Quando combinamos esse pano de fundo externo mais construtivo com fatores domésticos, como a retomada, ainda que gradual, da discussão sobre cortes de juros e a perspectiva de um rali eleitoral, o cenário se torna ainda mais favorável para os ativos locais, especialmente aqueles mais sensíveis à liquidez e ao ciclo econômico. Nesse ambiente, as small caps se destacam: além de negociarem com desconto relevante em relação às blue chips, apresentam maior potencial de reprecificação em ciclos de melhora. O SMAL11 surge, portanto, como uma forma eficiente e diversificada de capturar esse movimento, reunindo, em um único instrumento, a tese de recuperação doméstica, a reentrada de fluxos globais e o desconto ainda presente nos ativos locais.