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Investimentos

Ibovespa hoje: PIB, disparada do petróleo e novos ataques no Irã em foco; o que esperar da bolsa nesta terça (3)?

A disputa de narrativas em torno do Estreito de Ormuz e a extensão dos ataques militares no Oriente Médio elevam a aversão a risco dos mercados. Leia amis.

Por Matheus Spiess

03 mar 2026, 09:20

Atualizado em 03 mar 2026, 09:20

petróleo investir em ações

Imagem: iStock/ sankai

Donald Trump afirmou que os Estados Unidos farão “o que for preciso” contra o Irã e sinalizou que a operação militar pode se estender por semanas, à medida que os ataques aéreos continuam e o conflito ganha novas frentes na região. Paralelamente, intensifica-se a disputa de narrativas em torno do Estreito de Ormuz, corredor estratégico por onde transita cerca de 20% do petróleo mundial. Embora Washington sustente que a rota permanece aberta, as ameaças iranianas e as interrupções logísticas já elevam de forma significativa o risco geopolítico. O Brent negocia perto de US$ 85 por barril nesta manhã, com projeções que não descartam níveis acima de US$ 100 em um cenário mais adverso. Ao mesmo tempo, os preços do gás na Europa dispararam após a interrupção da produção na maior planta de GNL do Catar.

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A reação dos mercados globais foi marcada por aversão a risco. Bolsas asiáticas registraram quedas relevantes, com destaque para o mercado sul-coreano, que recuou 7,2% depois de um bom começo de ano. Os futuros em Nova York operam em baixa, enquanto dólar e ouro se fortaleceram como ativos de proteção. Nos Estados Unidos, cresce a preocupação com os efeitos domésticos da alta da gasolina e com o possível aumento do custo fiscal da operação militar. Ao mesmo tempo, países do Golfo buscam articular saídas diplomáticas para evitar uma escalada mais ampla.

· 00:57 — Atividade econômica e dinâmica do mercado de trabalho

No Brasil, a agenda do dia concentra atenções na divulgação do Produto Interno Bruto (PIB) do quarto trimestre pelo IBGE e nos dados de emprego do Caged, do Ministério do Trabalho. Para o PIB, a expectativa é de crescimento de 0,1% na margem e de 1,7% na comparação anual, o que consolidaria uma alta próxima de 2,3% em 2025, sinalizando desaceleração em relação a 2024, em grande parte refletindo a perda de tração no segundo semestre, já sob os efeitos do aperto monetário. No Caged, o consenso aponta para um saldo positivo de 104 mil vagas formais. Caso os dados venham mais fortes do que o esperado, aumenta a chance de o mercado reforçar a leitura de um corte mais cauteloso da Selic em março, possivelmente de apenas 25 pontos-base, sobretudo após a surpresa altista do IPCA-15 na semana passada e em meio às tensões no Oriente Médio, que tendem a elevar a prudência do Banco Central.

Ontem, o pregão foi positivo para o Ibovespa, com destaque para a alta da Petrobras (PETR4), que deu suporte ao índice — movimento que pode ter continuidade hoje, considerando a manutenção da pressão altista do petróleo nesta manhã.

No campo político, investidores seguem atentos ao noticiário e, em particular, às pesquisas de opinião: a sondagem do Datafolha, esperada para esta semana (quinta-feira, 5), é vista como um dos principais eventos do curto prazo. Antes dela, o mercado acompanha hoje o levantamento do instituto Real Time Big Data, que deve ajudar a calibrar a leitura sobre o ambiente político e seus possíveis desdobramentos para os ativos domésticos.

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· 01:49 — Comportamento contido

Apesar da escalada geopolítica no fim de semana, o mercado acionário americano reagiu com relativa serenidade. O comportamento reforça uma dinâmica recorrente: episódios como o que estamos assistindo neste momento tendem a provocar picos de volatilidade no curto prazo, mas, na ausência de efeitos econômicos mais persistentes, nem sempre alteram de forma estrutural o pano de fundo para as empresas. Em contrapartida, os ativos tradicionalmente associados à proteção responderam com mais intensidade, refletindo a busca por hedge em um ambiente incerto. Ao mesmo tempo, o setor de tecnologia mostrou resiliência, amparado por indicadores macro ainda relativamente robustos, enquanto os investidores seguem atentos à agenda de resultados corporativos e aos discursos de dirigentes do Fed para calibrar expectativas sobre crescimento, inflação e trajetória de juros.

· 02:34 — E o conflito continua

Os Estados Unidos e Israel deram continuidade aos bombardeios contra o Irã, aprofundando a ofensiva iniciada no fim de semana com a eliminação de integrantes centrais do regime, enquanto Teerã respondeu com ataques a aliados e bases americanas na região do Golfo, ampliando o risco de uma guerra regional mais prolongada. O conflito ganhou novas frentes, com confrontos envolvendo o Hezbollah no Líbano e ataques a instalações diplomáticas e energéticas. Ao mesmo tempo, Washington sinaliza que a campanha pode se estender por semanas e não descarta o envio de tropas terrestres, apesar de declarações ainda pouco claras sobre os objetivos finais da operação e as condições para encerrar as hostilidades.

Do ponto de vista econômico, os efeitos já começam a se espalhar por diferentes setores. O cancelamento de voos e a interrupção de rotas marítimas pressionam companhias aéreas e operadoras de cruzeiros, enquanto o gás natural liquefeito registra forte alta após paralisações no Catar. O petróleo também reage, impulsionado pelo aumento das tensões no Estreito de Ormuz, adicionando um prêmio de risco relevante aos preços. Em paralelo, ouro e ações do setor de defesa avançam como ativos de proteção. Investidores, contudo, vão além do movimento imediato e passam a avaliar riscos mais estruturais, como o impacto fiscal potencialmente maior para os Estados Unidos e os efeitos inflacionários decorrentes de energia mais cara, em um ambiente marcado por elevada incerteza quanto à duração e à intensidade do conflito.

· 03:25 — Impacto na inflação

No curto prazo, a elevação dos preços do petróleo e do gás ainda não configura, por si só, uma ameaça econômica de maior magnitude — para que isso ocorra, seria necessário que os preços permanecessem elevados por um período mais prolongado. A produção do Irã corresponde a cerca de 3% da oferta global, algo próximo de 3,3 milhões de barris por dia, o que ajuda a contextualizar o choque atual. Além disso, embora a recente alta do Brent tenha sido relevante, ela figura apenas como a 38ª maior variação desde 1980, sugerindo uma reação típica a um evento geopolítico pontual. Isso não elimina o risco: caso o conflito provoque danos persistentes à infraestrutura de produção ou às rotas de transporte, com o Estreito de Ormuz inoperante por mais tempo, o impacto inflacionário pode se tornar mais significativo.

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· 04:12 — Relação voltando ao normal

Após alguns anos de tensão diplomática provocada pelo assassinato do líder separatista sikh Hardeep Singh Nijjar no Canadá, episódio que levou o então premiê Justin Trudeau a citar “alegações críveis” de envolvimento de Nova Déli, Canadá e Índia dão sinais concretos de reaproximação. Em reunião na capital indiana, Narendra Modi e Mark Carney firmaram um acordo nuclear de dez anos para fornecimento de urânio canadense à Índia e assumiram o compromisso de concluir um acordo de livre comércio até o fim do ano, movimento que reflete um pragmatismo crescente em meio à reorganização da ordem global, na qual interesses estratégicos, energéticos e comerciais passam a se sobrepor aos atritos políticos recentes.

· 05:03 — O início de uma nova era

A transição para a era pós-Buffett teve início sob maior escrutínio do mercado. Com Warren Buffett deixando o cargo de CEO para assumir a presidência do conselho, Greg Abel assume o comando da Berkshire em um momento delicado: as ações Classe B recuaram cerca de 5% após a divulgação de um lucro operacional 30% menor no quarto trimestre. Parte da reação negativa refletiu a frustração com a manutenção da política de alocação de capital (não houve recompra de ações no período nem sinalização de pagamento de dividendos) além de questionamentos sobre a comunicação, já que não foi realizada teleconferência e determinados pontos do balanço, como uma baixa contábil relevante, não receberam detalhamento mais amplo. Para um mercado acostumado à figura icônica de Buffett e atento a qualquer sinal de mudança, a estreia de Abel naturalmente elevou as expectativas.

Apesar disso, o pano de fundo estrutural da companhia permanece sólido. A Berkshire mantém uma posição de caixa excepcional, próxima de US$ 127 bilhões na holding, o que lhe confere ampla flexibilidade para realizar aquisições oportunísticas, recomprar ações ou implementar outras estratégias de geração de valor quando as condições se mostrarem mais atrativas. A escolha por preservar a disciplina histórica na alocação de capital pode ter desapontado investidores mais focados no curto prazo, mas está alinhada à filosofia de longo prazo que construiu o histórico da empresa. Em um ambiente potencialmente mais volátil para os mercados globais, esse balanço robusto, aliado à cultura de prudência e visão estratégica, tende a se transformar em vantagem competitiva. Por essa razão, continuo vendo a Berkshire como uma peça relevante para complementar carteiras internacionais, especialmente para investidores que valorizam resiliência e consistência ao longo do ciclo.

Estudou finanças na University of Regina, no Canadá, tendo concluído lá parte de sua graduação em economia. Pós-graduado em finanças pelo Insper. Trabalhou em duas das maiores casas de análise de investimento do Brasil, além de ter feito parte da equipe de modelagem financeira de uma boutique voltada para fusões e aquisições. Trabalha hoje no time de analistas da Empiricus, sendo responsável, entre outras coisas, por análises macroeconômicas e políticas, além de cobrir estratégias de alocação. É analista com certificação CNPI.