Imagem: iStock/ sankai
Donald Trump afirmou que os Estados Unidos farão “o que for preciso” contra o Irã e sinalizou que a operação militar pode se estender por semanas, à medida que os ataques aéreos continuam e o conflito ganha novas frentes na região. Paralelamente, intensifica-se a disputa de narrativas em torno do Estreito de Ormuz, corredor estratégico por onde transita cerca de 20% do petróleo mundial. Embora Washington sustente que a rota permanece aberta, as ameaças iranianas e as interrupções logísticas já elevam de forma significativa o risco geopolítico. O Brent negocia perto de US$ 85 por barril nesta manhã, com projeções que não descartam níveis acima de US$ 100 em um cenário mais adverso. Ao mesmo tempo, os preços do gás na Europa dispararam após a interrupção da produção na maior planta de GNL do Catar.
A reação dos mercados globais foi marcada por aversão a risco. Bolsas asiáticas registraram quedas relevantes, com destaque para o mercado sul-coreano, que recuou 7,2% depois de um bom começo de ano. Os futuros em Nova York operam em baixa, enquanto dólar e ouro se fortaleceram como ativos de proteção. Nos Estados Unidos, cresce a preocupação com os efeitos domésticos da alta da gasolina e com o possível aumento do custo fiscal da operação militar. Ao mesmo tempo, países do Golfo buscam articular saídas diplomáticas para evitar uma escalada mais ampla.
· 00:57 — Atividade econômica e dinâmica do mercado de trabalho
No Brasil, a agenda do dia concentra atenções na divulgação do Produto Interno Bruto (PIB) do quarto trimestre pelo IBGE e nos dados de emprego do Caged, do Ministério do Trabalho. Para o PIB, a expectativa é de crescimento de 0,1% na margem e de 1,7% na comparação anual, o que consolidaria uma alta próxima de 2,3% em 2025, sinalizando desaceleração em relação a 2024, em grande parte refletindo a perda de tração no segundo semestre, já sob os efeitos do aperto monetário. No Caged, o consenso aponta para um saldo positivo de 104 mil vagas formais. Caso os dados venham mais fortes do que o esperado, aumenta a chance de o mercado reforçar a leitura de um corte mais cauteloso da Selic em março, possivelmente de apenas 25 pontos-base, sobretudo após a surpresa altista do IPCA-15 na semana passada e em meio às tensões no Oriente Médio, que tendem a elevar a prudência do Banco Central.
Ontem, o pregão foi positivo para o Ibovespa, com destaque para a alta da Petrobras (PETR4), que deu suporte ao índice — movimento que pode ter continuidade hoje, considerando a manutenção da pressão altista do petróleo nesta manhã.
No campo político, investidores seguem atentos ao noticiário e, em particular, às pesquisas de opinião: a sondagem do Datafolha, esperada para esta semana (quinta-feira, 5), é vista como um dos principais eventos do curto prazo. Antes dela, o mercado acompanha hoje o levantamento do instituto Real Time Big Data, que deve ajudar a calibrar a leitura sobre o ambiente político e seus possíveis desdobramentos para os ativos domésticos.
- LEIA TAMBÉM: Os ‘gringos’ estão chegando na bolsa e carteira de renda extra quer surfar esse cenário; veja como liberar o acesso
· 01:49 — Comportamento contido
Apesar da escalada geopolítica no fim de semana, o mercado acionário americano reagiu com relativa serenidade. O comportamento reforça uma dinâmica recorrente: episódios como o que estamos assistindo neste momento tendem a provocar picos de volatilidade no curto prazo, mas, na ausência de efeitos econômicos mais persistentes, nem sempre alteram de forma estrutural o pano de fundo para as empresas. Em contrapartida, os ativos tradicionalmente associados à proteção responderam com mais intensidade, refletindo a busca por hedge em um ambiente incerto. Ao mesmo tempo, o setor de tecnologia mostrou resiliência, amparado por indicadores macro ainda relativamente robustos, enquanto os investidores seguem atentos à agenda de resultados corporativos e aos discursos de dirigentes do Fed para calibrar expectativas sobre crescimento, inflação e trajetória de juros.
· 02:34 — E o conflito continua
Os Estados Unidos e Israel deram continuidade aos bombardeios contra o Irã, aprofundando a ofensiva iniciada no fim de semana com a eliminação de integrantes centrais do regime, enquanto Teerã respondeu com ataques a aliados e bases americanas na região do Golfo, ampliando o risco de uma guerra regional mais prolongada. O conflito ganhou novas frentes, com confrontos envolvendo o Hezbollah no Líbano e ataques a instalações diplomáticas e energéticas. Ao mesmo tempo, Washington sinaliza que a campanha pode se estender por semanas e não descarta o envio de tropas terrestres, apesar de declarações ainda pouco claras sobre os objetivos finais da operação e as condições para encerrar as hostilidades.
Do ponto de vista econômico, os efeitos já começam a se espalhar por diferentes setores. O cancelamento de voos e a interrupção de rotas marítimas pressionam companhias aéreas e operadoras de cruzeiros, enquanto o gás natural liquefeito registra forte alta após paralisações no Catar. O petróleo também reage, impulsionado pelo aumento das tensões no Estreito de Ormuz, adicionando um prêmio de risco relevante aos preços. Em paralelo, ouro e ações do setor de defesa avançam como ativos de proteção. Investidores, contudo, vão além do movimento imediato e passam a avaliar riscos mais estruturais, como o impacto fiscal potencialmente maior para os Estados Unidos e os efeitos inflacionários decorrentes de energia mais cara, em um ambiente marcado por elevada incerteza quanto à duração e à intensidade do conflito.
- Onde investir neste mês? Veja 5 ações com bons dividendos para buscar lucros na bolsa de valores brasileira. Baixe o relatório gratuito aqui.
· 03:25 — Impacto na inflação
No curto prazo, a elevação dos preços do petróleo e do gás ainda não configura, por si só, uma ameaça econômica de maior magnitude — para que isso ocorra, seria necessário que os preços permanecessem elevados por um período mais prolongado. A produção do Irã corresponde a cerca de 3% da oferta global, algo próximo de 3,3 milhões de barris por dia, o que ajuda a contextualizar o choque atual. Além disso, embora a recente alta do Brent tenha sido relevante, ela figura apenas como a 38ª maior variação desde 1980, sugerindo uma reação típica a um evento geopolítico pontual. Isso não elimina o risco: caso o conflito provoque danos persistentes à infraestrutura de produção ou às rotas de transporte, com o Estreito de Ormuz inoperante por mais tempo, o impacto inflacionário pode se tornar mais significativo.
· 04:12 — Relação voltando ao normal
Após alguns anos de tensão diplomática provocada pelo assassinato do líder separatista sikh Hardeep Singh Nijjar no Canadá, episódio que levou o então premiê Justin Trudeau a citar “alegações críveis” de envolvimento de Nova Déli, Canadá e Índia dão sinais concretos de reaproximação. Em reunião na capital indiana, Narendra Modi e Mark Carney firmaram um acordo nuclear de dez anos para fornecimento de urânio canadense à Índia e assumiram o compromisso de concluir um acordo de livre comércio até o fim do ano, movimento que reflete um pragmatismo crescente em meio à reorganização da ordem global, na qual interesses estratégicos, energéticos e comerciais passam a se sobrepor aos atritos políticos recentes.
· 05:03 — O início de uma nova era
A transição para a era pós-Buffett teve início sob maior escrutínio do mercado. Com Warren Buffett deixando o cargo de CEO para assumir a presidência do conselho, Greg Abel assume o comando da Berkshire em um momento delicado: as ações Classe B recuaram cerca de 5% após a divulgação de um lucro operacional 30% menor no quarto trimestre. Parte da reação negativa refletiu a frustração com a manutenção da política de alocação de capital (não houve recompra de ações no período nem sinalização de pagamento de dividendos) além de questionamentos sobre a comunicação, já que não foi realizada teleconferência e determinados pontos do balanço, como uma baixa contábil relevante, não receberam detalhamento mais amplo. Para um mercado acostumado à figura icônica de Buffett e atento a qualquer sinal de mudança, a estreia de Abel naturalmente elevou as expectativas.
Apesar disso, o pano de fundo estrutural da companhia permanece sólido. A Berkshire mantém uma posição de caixa excepcional, próxima de US$ 127 bilhões na holding, o que lhe confere ampla flexibilidade para realizar aquisições oportunísticas, recomprar ações ou implementar outras estratégias de geração de valor quando as condições se mostrarem mais atrativas. A escolha por preservar a disciplina histórica na alocação de capital pode ter desapontado investidores mais focados no curto prazo, mas está alinhada à filosofia de longo prazo que construiu o histórico da empresa. Em um ambiente potencialmente mais volátil para os mercados globais, esse balanço robusto, aliado à cultura de prudência e visão estratégica, tende a se transformar em vantagem competitiva. Por essa razão, continuo vendo a Berkshire como uma peça relevante para complementar carteiras internacionais, especialmente para investidores que valorizam resiliência e consistência ao longo do ciclo.