(Imagem: Montagem Canva Pro)
Os mercados globais seguem fortemente condicionados às incertezas no Oriente Médio, com o presidente Donald Trump optando por prorrogar novamente o prazo para um eventual ataque ao Irã, sob a justificativa de avanço nas negociações, ainda que Teerã continue negando a existência de um diálogo direto.
Esse desencontro de narrativas tem mantido os ativos em um regime de elevada volatilidade, com episódios pontuais de alívio sendo rapidamente revertidos. Ao mesmo tempo, o petróleo permanece em níveis elevados, pressionando as expectativas de inflação e contribuindo para um desempenho mais fraco tanto das bolsas quanto da renda fixa.
· 00:59 — Tom dovish demais…
No Brasil, o mercado segue influenciado pelo noticiário internacional, o que contribuiu para que o Ibovespa voltasse a perder o patamar dos 183 mil pontos na sessão de ontem. Para além do ambiente externo, a prévia da inflação de março trouxe um elemento adicional de cautela. O IPCA-15 avançou 0,44% na comparação mensal, acima da mediana de mercado (+0,29%), com surpresas concentradas em itens mais voláteis, como alimentos e passagens aéreas, enquanto as medidas de núcleo seguem em níveis desconfortáveis, indicando uma pressão inflacionária ainda relevante.
Embora o acumulado em 12 meses tenha recuado para abaixo de 4%, sinalizando desaceleração, o qualitativo do dado não é benigno. Vale destacar que o indicador capturou apenas o início do mês e, em alguns casos, incorpora preços já defasados; ou seja, ainda não reflete integralmente os efeitos do choque recente de energia. Em outras palavras, partimos de uma base já desafiadora para a condução da política monetária, justamente antes de uma potencial pressão adicional vinda do estrangeiro.
Nesse contexto, o Relatório de Política Monetária divulgado pelo Banco Central manteve a essência da comunicação recente, reforçando a percepção de maior transmissão dos juros para a atividade e preservando a porta aberta para ajustes no ritmo de cortes, ainda que com cautela.
Como ressaltado por Gabriel Galípolo na coletiva, a estratégia atual parece ser de ganhar tempo para entender melhor a natureza e a persistência do choque, sem alterar de forma abrupta o plano de voo, uma sinalização que o mercado interpreta como levemente dovish. A autoridade monetária projeta inflação de 3,3% no horizonte relevante (que passa a considerar o quarto trimestre de 2027 na próxima reunião de política monetária, em abril), número ainda inferior ao que parte do mercado julga apropriado diante do cenário atual.
A leitura implícita é de que o Banco Central encara o choque como predominantemente temporário, evitando interromper o ciclo de cortes. Ainda assim, a revisão altista das projeções, explicada sobretudo pelo petróleo e por um hiato do produto um pouco mais pressionado, sugere um espaço menor para flexibilização.
Assim, o cenário mais provável passa a ser de cortes mais moderados da Selic nas próximas reuniões, com possibilidade de pausa caso o conflito se prolongue. No campo da atividade, a divulgação da taxa de desemprego pela PNAD ganha relevância adicional: dado veio acima do esperado, o que dá uma folga para o Banco Central, que vem passando por estresse. Por fim, não se pode dissociar esse processo do quadro fiscal e eleitoral. Uma sinalização mais clara de compromisso com o ajuste das contas públicas poderia, mais adiante, ampliar o espaço para uma queda estrutural dos juros.
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· 01:45 — Risk on, risk off
O mercado americano voltou a operar sob pressão diante da proximidade do prazo para negociações entre Estados Unidos e Irã, movimento que levou o Nasdaq a entrar em território de correção (queda de 10% do último pico), enquanto o petróleo avançava diante do risco de escalada do conflito. O anúncio posterior de Donald Trump, prorrogando o prazo, trouxe algum alívio momentâneo, com recuo das cotações da commodity. Ainda assim, os principais índices encerraram a quinta-feira em queda, evidenciando o quanto os ativos seguem sensíveis ao fluxo de notícias geopolíticas.
· 02:32 — TACO?
O presidente Donald Trump optou por adiar em mais 10 dias o ultimato para um eventual ataque ao Irã, sinalizando que as negociações continuam em curso, ainda que cercadas de incerteza quanto ao seu desfecho. Ao mesmo tempo, o Pentágono avalia uma ampliação relevante da presença militar na região, mantendo no radar o risco de escalada, um movimento que, como já discutimos, poderia ter consequências particularmente adversas para os próprios Estados Unidos, sobretudo em um cenário de eventual envolvimento terrestre.
Ainda assim, o novo recuo de Donald Trump reforça a percepção de mais um episódio do já conhecido “TACO Trade”, no qual a retórica mais agressiva acaba cedendo espaço a ajustes táticos diante das pressões do próprio mercado. Os mercados reagiram inicialmente com algum alívio diante da postergação, mas a volatilidade persiste, refletindo a ausência de clareza sobre os próximos passos e sobre a efetiva possibilidade de uma solução negociada.
· 03:27 — A ponte diplomática e os efeitos no Sudeste Asiático
O Paquistão passa a emergir como um possível intermediário nas tratativas entre Estados Unidos e Irã, atuando na retransmissão de mensagens e, potencialmente, como sede de futuras negociações. Essa posição decorre de sua capacidade de diálogo com ambos os lados, o que lhe confere um papel singular em um ambiente marcado por elevada desconfiança e baixa coordenação diplomática. Ainda que não haja garantias de avanço concreto, o movimento sugere uma tentativa de abertura de canal em meio a um cenário que, até aqui, tem sido dominado pela escalada militar.
Ao mesmo tempo, os impactos do conflito já começam a se materializar de forma mais evidente na economia global, especialmente na Ásia, altamente dependente do petróleo que transita pelo Estreito de Ormuz. A disrupção desse fluxo tem pressionado os preços de energia e levado diversos países, como Filipinas, Vietnã e Tailândia, a adotarem medidas emergenciais para conter o consumo de combustível. Esse efeito reforça como choques geopolíticos rapidamente transbordam para a economia real, afetando cadeias de suprimento, custos e a atividade econômica.
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· 04:13 — Diferença de percepção
Nos Estados Unidos, a guerra com o Irã começa a produzir um desgaste político cada vez mais visível. Crescem as críticas à condução do conflito, a pressão por uma saída negociada e a preocupação dentro do Partido Republicano, sobretudo diante da proximidade das eleições de meio de mandato. Ao mesmo tempo, a resistência da opinião pública também se intensifica, refletindo não apenas o custo econômico da guerra, mas também a falta de clareza sobre seus objetivos finais e sobre o que, de fato, configuraria um desfecho satisfatório para Washington.
Em Israel, por outro lado, o quadro é bastante distinto. A ofensiva conduzida por Benjamin Netanyahu segue contando com apoio popular expressivo, em grande medida por ser percebida como parte de um esforço necessário para neutralizar uma ameaça de caráter existencial. Mesmo em meio a tensões internas e desafios políticos relevantes, a guerra acabou funcionando como um fator de coesão, unificando o país em torno de objetivos estratégicos mais claros. A percepção predominante é de que houve avanços concretos no enfraquecimento do Irã, ainda que sem qualquer expectativa realista de uma solução rápida ou sem custos prolongados.
Ou seja, curiosamente, tanto os Estados Unidos quanto Israel enfrentam ciclos eleitorais neste ano e o conflito tem implicações distintas em cada caso. Para a Casa Branca, quanto mais a guerra se prolonga, maior tende a ser o desgaste político, especialmente às vésperas das eleições de meio de mandato em novembro. Já em Jerusalém, o cenário é praticamente o inverso: a continuidade do conflito pode, ao menos no curto prazo, reforçar o capital político de Benjamin Netanyahu, aumentando suas chances de se manter no poder após as eleições gerais de outubro.
· 05:08 — Wahoo destrava valor
A Prio inicia um novo ciclo com a entrada em operação de Wahoo, finalmente destravando um projeto aguardado há anos e já surpreendendo positivamente: o primeiro poço entregou produção acima do esperado, e a companhia deve atingir cerca de 40 mil barris/dia nos próximos meses.
O timing não poderia ser melhor, com o petróleo em patamares elevados, ampliando o impacto sobre a geração de caixa e reforçando a tese operacional. Mesmo com a forte alta recente das ações, acompanhando o movimento da commodity, a empresa segue bem posicionada para capturar esse cenário, mantendo elevada capacidade de geração de valor mesmo em níveis de preço do petróleo mais baixos do que os atuais.
Além disso, a nova certificação de reservas trouxe uma leitura construtiva, com destaque para a extensão da vida útil de ativos relevantes, ganhos de eficiência e ajustes que refletem maior maturidade dos projetos. Apesar de pequenas revisões pontuais, o conjunto indica uma companhia mais sólida, com capacidade de extrair valor ao longo do tempo e potencial de entregar o melhor ano operacional de sua história. Negociando a múltiplos bastante atrativos e com elevada geração de caixa projetada, a tese segue robusta — e, para o investidor que busca exposição a energia com disciplina de execução e assimetria favorável, faz sentido olhar com atenção para PRIO3 neste momento.