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Os mercados começaram a semana absorvendo os desdobramentos da Venezuela com relativa serenidade. Após um rali inicial das ações de petrolíferas, os preços de energia entraram em um movimento de acomodação: o gás natural registrou forte queda, enquanto o petróleo se recuperou depois da volatilidade observada nos primeiros momentos. O pano de fundo global permaneceu favorável aos ativos de risco, com bolsas avançando, o dólar perdendo força ao longo do dia e sinais de redução da aversão ao risco no curto prazo. A crise venezuelana segue no radar dos investidores, mas, ao menos por ora, tem sido tratada como um evento em “stand by”, sem indícios de escalada militar ou de impactos mais disruptivos sobre os mercados.
No cenário internacional, a Ásia voltou a se destacar, com ações — em especial dos setores de tecnologia e defesa — renovando recordes, enquanto a China alcançou máximas de vários anos, sustentada pelo otimismo em torno da inteligência artificial e por sinais ainda iniciais de melhora do ciclo econômico. Na Europa, os mercados operaram de forma mista, equilibrando as incertezas geopolíticas com a leitura de dados de inflação e atividade. Já nos Estados Unidos, a atenção dos investidores se concentra nos principais indicadores da semana, sobretudo o relatório de empregos (payroll), que será fundamental para calibrar as expectativas em relação à política monetária do Fed e, consequentemente, ao ritmo dos mercados nos próximos dias.
· 00:51 — Começando bem a semana
No Brasil, o Ibovespa avançou 0,83% na segunda-feira (5), encerrando o pregão próximo dos 162 mil pontos, em linha com a recuperação americana após a reação inicial aos ataques dos EUA à Venezuela, enquanto o dólar recuou para a faixa de R$ 5,40. Chamou atenção, contudo, o desempenho negativo das ações da Petrobras e de outras produtoras locais, que destoaram da alta do petróleo e do rali das petroleiras americanas. O movimento reflete a leitura de mercado de que, no longo prazo, uma eventual retomada da produção venezuelana sob influência dos EUA pode intensificar a competição global por investimentos, pressionar a cadeia de óleo e gás e tornar o ambiente mais desafiador para projetos no Brasil (competitividade para atrair capital).
No front doméstico, enquanto Brasília ainda não retoma sua agenda, o mercado voltou a acompanhar com apreensão os desdobramentos do caso do Banco Master, após um ministro do Tribunal de Contas da União autorizar inspeções no Banco Central para apurar o processo de liquidação da instituição — uma iniciativa considerada incomum por diversos agentes. O setor financeiro reagiu, divulgando nota conjunta em defesa da atuação técnica e da independência da autoridade monetária, alertando que movimentos dessa natureza podem ampliar a insegurança jurídica e fragilizar o arcabouço de supervisão bancária. O tema tende a seguir no radar e pode gerar sensibilidade adicional nos ativos do setor financeiro listado nos próximos pregões.
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· 01:48 — Ainda forte
Nos Estados Unidos, o início da primeira semana completa de 2026 revelou um mercado acionário ainda forte e amplamente alinhado à dinâmica observada ao longo de 2025. O Dow Jones Industrial Average avançou 1,2% e chegou a tocar, ainda que brevemente, a marca inédita de 49 mil pontos, enquanto o S&P 500 subiu 0,6% e o Nasdaq Composite registrou alta de 0,7%. Apesar do aumento das tensões geopolíticas envolvendo a Venezuela, o impacto sobre os ativos foi limitado, com destaque positivo para a Chevron, que se beneficiou da leitura de maior previsibilidade no setor de energia. Os setores de tecnologia e financeiro também contribuíram para o bom desempenho, com o impulso adicional vindo do JPMorgan Chase, enquanto os investidores seguem atentos à capacidade das empresas de tecnologia retomarem tração após o fim de ano e ao debate recorrente sobre se a inteligência artificial configura uma bolha especulativa ou uma transformação estrutural capaz de sustentar múltiplos mais elevados por meio de crescimento consistente de lucros.
No plano macroeconômico, os dados a serem divulgados nos próximos dias ganham papel central na definição do ritmo dos mercados e das expectativas para a política monetária. O relatório americano de empregos de dezembro tende a confirmar uma desaceleração gradual do mercado de trabalho, o que pode, mais adiante, abrir espaço para novos cortes de juros pelo Federal Reserve, ainda que sem qualquer senso de urgência no momento. Em paralelo, a atividade econômica segue apresentando sinais mistos: o setor manufatureiro, medido pelo índice do Institute for Supply Management, permaneceu em território de contração pelo décimo mês consecutivo, com leitura de 47,9 em dezembro, refletindo demanda fraca e redução de estoques. Por outro lado, a moderação no crescimento dos salários sugere menor pressão inflacionária à frente, compondo um pano de fundo que, se confirmado ao longo dos próximos meses, pode continuar oferecendo sustentação aos mercados ao longo de 2026.
· 02:35 — Sai ou não sai?
O acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul, negociado ao longo de mais de duas décadas, parece caminhar finalmente para sua conclusão, após indicações de que a Itália deve rever sua posição anterior e votar favoravelmente na próxima reunião de embaixadores do bloco europeu. Caso essa mudança se confirme, o apoio italiano tende a remover o último grande entrave político ao avanço do tratado, abrindo espaço para que a União Europeia formalize o acordo já em 12 de janeiro com Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.
O desfecho ocorre após meses de postergação, motivados principalmente por pressões políticas lideradas por França e Itália, que buscavam garantias adicionais para a proteção dos agricultores europeus, e representa um avanço relevante na integração comercial entre Europa e América do Sul, com potenciais implicações econômicas de médio e longo prazo para ambos os lados.
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· 03:22 — Insegurança
A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, adotou um tom firme ao reagir às novas declarações de Donald Trump sobre uma eventual anexação da Groenlândia, enfatizando que os EUA não possuem qualquer direito sobre o território e alertando que uma ação militar contra um país-membro da OTAN colocaria em risco a própria aliança e a arquitetura de segurança construída no pós-Segunda Guerra Mundial. Em resposta, líderes do Reino Unido, da França, da Alemanha e da União Europeia manifestaram apoio explícito à posição dinamarquesa, enquanto Trump reiterou que considera a Groenlândia um ativo estratégico para a segurança nacional americana.
O episódio amplia o grau de tensão geopolítica global, especialmente por ocorrer logo após a deposição de Nicolás Maduro, que já responde a acusações em um tribunal federal de Nova York, reforçando a percepção de uma política externa americana mais assertiva e potencialmente desestabilizadora para o equilíbrio internacional conhecido.
· 04:17 — A questão do petróleo
Dois dias após ser retirado do poder por forças especiais dos Estados Unidos (tema que comentei em detalhe na newsletter de ontem), Nicolás Maduro e sua esposa declararam-se inocentes em um tribunal federal de Nova York. O ex-presidente insiste que ainda é o líder legítimo da Venezuela e contesta a legalidade de sua prisão — que, caso resulte em condenação, pode levá-lo à prisão perpétua (ele deverá ser condenado). Em paralelo, os mercados reagiram de forma pragmática: ações de companhias petrolíferas e do setor de defesa registraram fortes altas, refletindo tanto a expectativa de maior acesso às reservas venezuelanas quanto a percepção de um novo ciclo global de elevação dos gastos militares. Ao mesmo tempo, começa a ganhar tração a leitura de oportunidades em setores como energia, construção e turismo, ainda que claramente condicionadas à possibilidade de estabilidade política sob o governo de Delcy Rodríguez e à qualidade da relação institucional com Washington.
Do ponto de vista energético, o impacto potencial pode ser ainda mais relevante. Relatórios indicam que uma mudança de regime pode elevar a produção venezuelana dos atuais cerca de 0,8–1,0 milhão de barris por dia para algo próximo de 1,3–1,4 milhão em até dois anos, com possibilidade de alcançar cerca de 2,5 milhões ao longo da próxima década, especialmente com maior participação de empresas americanas. Ainda assim, esse patamar continuaria abaixo dos quase 3 milhões de barris diários produzidos no início dos anos 2000, antes de o chavismo corroer a indústria com anos de subinvestimento e má gestão — mas já representaria uma recuperação relevante.
Com reservas estimadas em 303 bilhões de barris, avaliadas em até US$ 17 trilhões aos preços atuais, a consolidação da influência americana sobre a Venezuela pode alterar estruturalmente o equilíbrio do mercado global de petróleo, ampliar o poder de barganha dos EUA frente à OPEP+ e contribuir para um ambiente de preços mais estáveis no médio e longo prazo. Trata-se, contudo, de um processo lento e complexo: o petróleo venezuelano é majoritariamente pesado, o que encarece sua extração, transporte e refino, e estima-se que seriam necessários cerca de US$ 100 bilhões ao longo da próxima década para revitalizar uma indústria profundamente sucateada pelo bolivarianismo chavista. Em um contexto ainda politicamente incerto, poucos agentes estariam dispostos a assumir investimentos dessa magnitude e duração — provavelmente apenas grandes companhias americanas (o mais provável). Mesmo em um cenário de sucesso, qualquer eventual sobreoferta vinda da Venezuela seria um fenômeno de longo prazo, e não algo capaz de alterar o mercado no curto prazo.
· 05:04 — Um mundo cada vez mais em busca de proteções
A escalada das tensões geopolíticas — catalisada pela captura de Nicolás Maduro pelos EUA — reforçou de forma clara o papel do ouro como ativo de proteção em um mundo mais instável. O metal precioso fechou em forte alta ontem, avançando 2,82% na Comex, a US$ 4.451,50 por onça, refletindo a busca por segurança em meio a um ambiente marcado por riscos geopolíticos crescentes, incertezas institucionais na Venezuela, sinais de maior assertividade internacional de Donald Trump e preocupações que já se estendem a outras regiões sensíveis, como a Groenlândia.
Esse movimento ganha ainda mais força quando…