1 2019-12-09T13:32:41-03:00 xmp.iid:217a1f9b-69a9-426f-a7e6-7b9802d22521 xmp.did:217a1f9b-69a9-426f-a7e6-7b9802d22521 xmp.did:217a1f9b-69a9-426f-a7e6-7b9802d22521 saved xmp.iid:217a1f9b-69a9-426f-a7e6-7b9802d22521 2019-12-09T13:32:41-03:00 Adobe Bridge 2020 (Macintosh) /metadata
Investimentos

É ‘só um pedaço de gelo’? Por que Trump quer a Groenlândia – e como isso afeta os mercados, segundo analista

Território da Dinamarca está na mira dos Estados Unidos desde o século 19, e importância ‘geoestratégica’ da região tornou-se um dos focos de Donald Trump; entenda o porquê

Por Anna Larissa Zeferino

26 jan 2026, 14:29

Atualizado em 26 jan 2026, 14:29

Groenlândia, Trump, Estados Unidos, EUA

(Imagem: iStock.com/dlerick)

Nestas primeiras semanas de 2025, o mundo assistiu a algumas disrupções geopolíticas relevantes. Dentre elas, o crescente interesse de Donald Trump em anexar a Groenlândia, território semiautônomo da Dinamarca, à jurisdição dos Estados Unidos.

O interesse é tanto que, enquanto a OTAN, a própria Dinamarca e a União Europeia se posicionaram contra a ideia, Trump endureceu o discurso, ameaçando mais um “tarifaço” sobre a UE e, até mesmo, usar sua força militar para tomar controle do território.

Ao mesmo tempo, durante seu discurso no Fórum Econômico Mundial em Davos (Suíça), na última quarta-feira (21), Trump referiu-se à Groenlândia por diversas vezes como “pedaço de gelo”.

“O que eu estou pedindo é por um pedaço de gelo, frio e mal localizado”, afirmou.

Mas afinal de contas, a Groenlândia é realmente apenas um “pedaço de gelo mal localizado”, como Trump descreveu? Neste caso, o que poderia mover o incessante interesse no território?

Matheus Spiess, analista de macroeconomia da Empiricus Research, discutiu o assunto na edição do Empiricus PodCa$t do último sábado (24).

Os motivos que fazem da Groenlândia um ponto ‘geoestratégico’ para os Estados Unidos, segundo analista

“A aquisição do território groenlandês não é nova no imaginário americano. Já tentam ‘pegar’ esse território desde o século 19”, afirma Spiess. A diferença entre esta e as demais tentativas históricas, segundo o analista, é o tom de agressividade no discurso de Trump.

O analista indica que o interesse é, principalmente, geoestratégico. Em um resgate da antiga Doutrina Monroe, os EUA propõem uma redistribuição da ordem global de forma a “blindar” o continente americano das influências vindas especialmente da China e Rússia.

E, justamente, a posição geográfica da Groenlândia está no centro desta narrativa, por motivos como:

‘Ponte para as Américas’: “Naturalmente, a Groenlândia é a ponte para as Américas. É um complemento daquela passagem que envolve Islândia e Reino Unido, que é o caminho reto e mais rápido da Rússia à costa leste dos Estados Unidos”, afirma.

Entrada para o Ártico: “O Ártico se tornará cada vez mais relevante para a economia e as estratégias militares globais. Com o degelo, se tornará uma rota comercial navegável e com bastante fluxo ao longo dos próximos anos. E cada vez mais, um caminho militar”.

Minerais raros: Com uma vasta expansão de terras raras e presença de minerais não-explorados, os EUA podem pedir por preferência nos direitos de “desbravar” a região;

‘Golden Dome’: Aos moldes do “domo de ferro” presente em Israel, Trump tem planos de construir um “domo de ouro” nos EUA – um complexo sistema de defesa de mísseis e outros ataques aéreos. Segundo Spiess, “Trump entende que a Groenlândia seja fundamental para esse plano”. É possível que o território seja visto como mais uma barreira de proteção.

Mercado reagiu mal às ameaças de Trump na última semana, mas se recuperou após recuo no discurso

As ameaças de Trump derrubaram as bolsas americanas, que fecharam a semana passada no negativo. Bolsas europeias também reagiram mal. Em contrapartida, o ouro, tradicional ativo de proteção, fechou em alta.

Uma das consequências dessa “mudança de ordenamento internacional”, segundo Spiess, é “a mudança de percepção dos investidores em relação a onde investir seus recursos”.

Em meio às incertezas globais, investidores começam a buscar “ativos reais”, no movimento chamado de debasement trade, “fugindo de moedas fiduciárias, buscando diversificação geográfica, em uma rotação de recursos”, afirma.

Trump eventualmente recuou de seu tom mais agressivo, afirmando que há o “conceito de um acordo” entre os EUA e a OTAN para o aumento da presença militar norte-americana na Groenlândia, sem recorrer ao uso da força militar ou do “tarifaço” sobre a UE. Isso fez com que os mercados respirassem.

“Resgatamos o bom e velho taco trade [Trump always chickens out]”, afirma Spiess. “Trump sempre recua porque, supostamente, faz parte de seu estilo de negociação. Sempre pede ‘tudo o que pode’ e depois fecha no meio-termo, que era seu interesse principal”.

Bolsa brasileira resiste como uma das grandes beneficiadas da rotação de capital estrangeiro

Enquanto os principais mercados globais passavam por alta volatilidade na semana passada, o Brasil resistiu, e “notadamente reagiu mais do que proporcionalmente bem” enquanto os demais recuperavam as perdas, afirma o analista.

Curiosamente, esta foi a semana em que o Ibovespa teve uma de suas melhores performances recentes, ultrapassando a casa dos 178 mil pontos no fechamento da sexta-feira (23). Na semana como um todo, a alta acumulada do índice foi de 8%.

Spiess explica que boa parte da alta é, de fato, consequência da saída de capital dos EUA em direção aos mercados emergentes, enquanto investidores seguem “desgastados pela volatilidade política associada a Trump”.

Mas o cenário doméstico brasileiro também é um vetor. Além do ciclo de cortes de juros que deve vir em breve, há também as eleições presidenciais: players estão atentos a qualquer sinal positivo em torno de um presidenciável “pró-mercado”, o que também sugere otimismo aos ativos de risco locais.

Jornalista no mercado financeiro desde 2022. Pós-graduanda em Economia, Investimentos e Banking pela Universidade de São Paulo (ESALQ-USP). Escreve para os portais Empiricus, Money Times e Seu Dinheiro, e já passou por casas como Itaú BBA e XP.