Imagem: Paralaxis
Depois de ultrapassar os 153 mil pontos, o Ibovespa pode iniciar a sessão de hoje sob maior pressão. A decisão do Copom manteve a Selic em 15%, como amplamente esperado pelo mercado, mas o comunicado reforçou um tom duro e pouco sinalizou sobre o início do ciclo de flexibilização, o que tende a esfriar parte do otimismo recente. No cenário externo, a Suprema Corte dos EUA indicou ceticismo em relação à legalidade das tarifas impostas por Donald Trump, elevando a probabilidade de revisão parcial da política comercial. Já na Europa, o Banco da Inglaterra deve manter a taxa básica inalterada em uma votação apertada (quando você estiver lendo estas linhas, a decisão já terá sido tomada), enquanto o Japão divulgou planos para ampliar, de forma permanente, os investimentos em semicondutores e inteligência artificial — uma estratégia para reduzir a dependência tecnológica externa. Nas bolsas asiáticas, investidores aproveitaram as quedas recentes em tecnologia para recompor posições.
Do lado europeu, os mercados abriram em queda, refletindo resultados corporativos mais fracos e uma correção concentrada no setor de tecnologia. Nos Estados Unidos, os futuros dos índices começam o dia próximos da estabilidade, com atenção dividida entre a nova rodada de balanços e os desdobramentos do julgamento sobre tarifas na Suprema Corte. No mercado de commodities, a Saudi Aramco reduziu o preço do petróleo para a Ásia diante da demanda mais fraca, enquanto estoques elevados nos EUA mantêm pressão sobre o curto prazo — o petróleo sobe na manhã de hoje.
· 00:56 — Entre euforia e freio monetário: Ibovespa acima de 153 mil, Selic presa nos 15%
Por aqui, o índice Ibovespa encerrou o pregão de ontem em forte alta de 1,72%, renovando o recorde histórico e superando a marca de 153 mil pontos, em um movimento impulsionado pela expectativa em torno da decisão do Copom. Após o fechamento do mercado, porém, o Banco Central manteve a taxa Selic em 15% ao ano, como amplamente esperado, mas reforçou um discurso mais duro do que parte dos investidores imaginava. Em vez de sinalizar o início de um ciclo de flexibilização, o comunicado reiterou que a taxa permanecerá em patamar “significativamente” contracionista por um “período bastante prolongado”. Além disso, a frase padrão de que o Copom “não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso julgue apropriado” foi mantida, sinalizando que novos aumentos não estão fora da mesa caso o cenário volte a piorar.
O comunicado reconheceu avanços recentes na inflação corrente e melhora nas projeções, como venho destacando, mas ressaltou que as expectativas seguem desancoradas, as projeções de inflação continuam elevadas, apesar de mais baixas, a atividade doméstica ainda demonstra resiliência (a desaceleração está muito gradual) e o mercado de trabalho permanece apertado. Nesse contexto, hoje os juros futuros tendem a abrir em alta, e a Bolsa pode finalmente passar por uma realização de lucros depois de mais de dez pregões consecutivos de ganhos. Já no câmbio, a manutenção dos juros por mais tempo aumenta o diferencial de retorno e reforça o apetite pelo real, abrindo espaço para uma valorização no curto prazo. Na prática, o BC enterrou a já improvável chance de corte em dezembro e reduziu a probabilidade de uma redução em janeiro, que segue possível, mas agora menos plausível. Se havia investidores posicionados com base nesse cenário mais benigno, parte deles pode usar o comunicado como gatilho para ajuste de posição e realização parcial.
No paralelo fiscal, sobre o tema que vem desancorando as expectativas, o Senado aprovou por unanimidade o projeto que isenta do Imposto de Renda quem recebe até R$ 5 mil mensais, com desconto parcial até R$ 7.350 — medida que segue para sanção presidencial e deve se tornar um dos principais trunfos eleitorais do governo. Para compensar a renúncia, o texto cria um imposto mínimo sobre altas rendas, com alíquota que chega a 10% para quem recebe acima de R$ 1,2 milhão por ano, e passa a tributar dividendos acima de R$ 50 mil mensais, além de qualquer dividendo remetido ao exterior. Simultaneamente, o senador Renan Calheiros apresentou outro projeto para cobrir um déficit estimado em R$ 4 bilhões anuais, elevando a tributação sobre bets, bancos e fintechs — proposta que será votada na semana que vem. Em síntese, apesar da movimentação, nada estrutural foi proposto para enfrentar o problema fiscal de longo prazo, que deve permanecer em banho-maria até 2027, dependendo do resultado das eleições e da disposição política para uma reforma mais profunda.
Além disso, na agenda desta quinta-feira, os investidores seguem atentos à divulgação da balança comercial de outubro, aos resultados de Petrobras, Renner e Magazine Luiza após o fechamento, e ao início da rodada de encontros entre líderes globais na COP30.
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· 01:43 — Se recuperando
As bolsas americanas fecharam em alta após a Suprema Corte sinalizar ceticismo quanto à legalidade das tarifas impostas por Donald Trump. O Nasdaq avançou 0,7%, o S&P 500 subiu 0,4% e o Dow Jones ganhou 0,5%. A leitura predominante no mercado foi de que uma eventual derrubada das tarifas poderia destravar estímulos para a atividade econômica e favorecer as ações — especialmente aquelas que se beneficiariam de um alívio comercial. E durante o mesmo pregão de ontem, o relatório privado de emprego da ADP mostrou a criação de 42 mil vagas no setor privado em outubro, superando as expectativas e interrompendo dois meses consecutivos de queda. O dado ganhou peso adicional porque o shutdown do governo americano paralisa a divulgação dos indicadores oficiais, deixando poucas fontes para mensurar a saúde do mercado de trabalho. Embora o número não aponte aceleração da economia, ajuda a reduzir o temor de um desaquecimento mais abrupto e pode influenciar a avaliação do Federal Reserve sobre novos cortes de juros nas próximas reuniões.
· 02:37 — Explorando melhor o ceticismo
A audiência realizada ontem na Suprema Corte dos EUA trouxe um sinal inesperado de ceticismo em relação às tarifas impostas durante o governo Trump. Mesmo ministros da ala conservadora — maioria na Corte — fizeram perguntas duras sobre a legalidade da medida, questionando se o Executivo extrapolou seus poderes ao utilizar uma lei de emergência nacional para aplicar tarifas amplas sobre produtos de dezenas de países. O presidente da Suprema Corte, John Roberts, chegou a sugerir que essas tarifas funcionam, na prática, como um imposto — instrumento cuja criação é prerrogativa exclusiva do Congresso segundo a Constituição americana. Caso o tribunal entenda que houve abuso de autoridade, empresas afetadas poderão receber reembolsos bilionários, configurando um impulso fiscal imediato à economia dos EUA.
Isso, porém, não encerra a disputa comercial. Mesmo que as tarifas atuais sejam derrubadas, Trump — ou qualquer futuro presidente — poderia recorrer a outros dispositivos legais para restabelecer barreiras, possivelmente alterando apenas sua estrutura e abrangência. Nesse cenário, algumas tarifas subiriam, outras cairiam, e o impacto líquido poderia continuar a pressionar levemente a inflação ao longo do tempo. Por ora, investidores reagiram bem à simples possibilidade de reembolso e alívio tarifário parcial, embora a decisão final da Suprema Corte só seja conhecida em junho.
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· 03:22 — Pacotão
A assembleia anual da Tesla pode resultar hoje na aprovação de um dos maiores pacotes de remuneração já oferecidos a um executivo. A proposta permite que Elon Musk receba até US$ 1 trilhão em ações ao longo dos próximos dez anos, desde que a companhia atinja metas bastante desafiadoras: multiplicar seu valor de mercado, entregar milhões de veículos e ampliar sua lucratividade em mais de 30 vezes. O plano conta com forte apoio de fundos de pensão de estados republicanos, de gestoras como a Baron Capital e do próprio conselho da Tesla. Musk, que detém cerca de 15% dos votos, já sinalizou que poderia deixar o comando da empresa caso a proposta fosse rejeitada — movimento que, na visão de muitos investidores, faria as ações desabarem.
A oposição, porém, é ruidosa. O fundo soberano da Noruega — o maior do mundo — e fundos de pensão de estados democratas, como o CalPERS, votaram contra o pacote, argumentando que ele concentra poder demais nas mãos de Musk e expõe a Tesla a uma dependência excessiva ao CEO. As consultorias ISS e Glass Lewis também recomendaram voto contrário. E, mesmo que a remuneração seja aprovada, o tema pode voltar aos tribunais, como ocorreu com o pacote anterior de US$ 56 bilhões, suspenso por decisão judicial em 2018. Por outro lado, se Musk realmente levar o valor de mercado da companhia aos US$ 8,5 trilhões — muito além dos atuais US$ 1,45 trilhão — o feito, de fato, mereceria um reconhecimento extraordinário.
· 04:11 — Expandindo
A MSCI ampliou o peso da China em seus índices globais pela primeira vez desde o início de 2024, incluindo 26 novas empresas e retirando outras 20 em sua revisão trimestral. A maior parte das companhias adicionadas atua em setores estratégicos apoiados por Pequim — como robótica, semicondutores e inteligência artificial — movimento que sinaliza o esforço do governo chinês em impulsionar áreas essenciais para a próxima fase de crescimento tecnológico e industrial do país.
A mudança ocorre após um rali de quase 30% do MSCI China ao longo do ano, apesar da desaceleração de fluxos estrangeiros causada por incertezas econômicas internas e pelo clima de tensão com os Estados Unidos. Analistas avaliam que a inclusão de novas empresas pode estimular entradas adicionais de capital, especialmente de fundos passivos que replicam o índice, trazendo algum alívio para um mercado que atravessou um período de volatilidade elevada e perda de confiança internacional.
· 05:09 — Um susto e um closing
A Medida Provisória 1.304 foi aprovada na Câmara e no Senado com a promessa de atacar distorções relevantes do setor elétrico, mas acabou gerando — quase na mesma intensidade — um susto inicial e uma sensação de frustração. O susto veio de um trecho incluído pelo relator Eduardo Braga que determinava que os incentivos fiscais da Sudam e Sudene fossem revertidos diretamente em redução tarifária. Na prática, isso significaria menor rentabilidade e menor capacidade de investimento para as distribuidoras do Norte e Nordeste, como a Equatorial. A simples inclusão desse ponto derrubou as ações em cerca de 3% no dia. Apesar do apelo populista, a medida foi retirada antes da votação final, o que trouxe alívio ao mercado, embora o próprio relator tenha indicado que o tema pode voltar à pauta no futuro.
A frustração veio da principal expectativa do setor…