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Investimentos

Recordes na Bolsa, rigidez nos juros: Ibovespa a 153 mil e Selic em 15%; o que é destaque nesta quinta (6)?

Em um ciclo de altas, investidores aguardam a abertura do Ibovespa. Índice pode iniciar a sessão de hoje sob maior pressão, após a decisão do Copom de manter a Selic em 15%.

Por Matheus Spiess

06 nov 2025, 09:42

Atualizado em 06 nov 2025, 09:43

ibovespa B3 3t24 terceiro trimestre

Imagem: Paralaxis

Depois de ultrapassar os 153 mil pontos, o Ibovespa pode iniciar a sessão de hoje sob maior pressão. A decisão do Copom manteve a Selic em 15%, como amplamente esperado pelo mercado, mas o comunicado reforçou um tom duro e pouco sinalizou sobre o início do ciclo de flexibilização, o que tende a esfriar parte do otimismo recente. No cenário externo, a Suprema Corte dos EUA indicou ceticismo em relação à legalidade das tarifas impostas por Donald Trump, elevando a probabilidade de revisão parcial da política comercial. Já na Europa, o Banco da Inglaterra deve manter a taxa básica inalterada em uma votação apertada (quando você estiver lendo estas linhas, a decisão já terá sido tomada), enquanto o Japão divulgou planos para ampliar, de forma permanente, os investimentos em semicondutores e inteligência artificial — uma estratégia para reduzir a dependência tecnológica externa. Nas bolsas asiáticas, investidores aproveitaram as quedas recentes em tecnologia para recompor posições.

Do lado europeu, os mercados abriram em queda, refletindo resultados corporativos mais fracos e uma correção concentrada no setor de tecnologia. Nos Estados Unidos, os futuros dos índices começam o dia próximos da estabilidade, com atenção dividida entre a nova rodada de balanços e os desdobramentos do julgamento sobre tarifas na Suprema Corte. No mercado de commodities, a Saudi Aramco reduziu o preço do petróleo para a Ásia diante da demanda mais fraca, enquanto estoques elevados nos EUA mantêm pressão sobre o curto prazo — o petróleo sobe na manhã de hoje. 

· 00:56 — Entre euforia e freio monetário: Ibovespa acima de 153 mil, Selic presa nos 15%

Por aqui, o índice Ibovespa encerrou o pregão de ontem em forte alta de 1,72%, renovando o recorde histórico e superando a marca de 153 mil pontos, em um movimento impulsionado pela expectativa em torno da decisão do Copom. Após o fechamento do mercado, porém, o Banco Central manteve a taxa Selic em 15% ao ano, como amplamente esperado, mas reforçou um discurso mais duro do que parte dos investidores imaginava. Em vez de sinalizar o início de um ciclo de flexibilização, o comunicado reiterou que a taxa permanecerá em patamar “significativamente” contracionista por um “período bastante prolongado”. Além disso, a frase padrão de que o Copom “não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso julgue apropriado” foi mantida, sinalizando que novos aumentos não estão fora da mesa caso o cenário volte a piorar.

O comunicado reconheceu avanços recentes na inflação corrente e melhora nas projeções, como venho destacando, mas ressaltou que as expectativas seguem desancoradas, as projeções de inflação continuam elevadas, apesar de mais baixas, a atividade doméstica ainda demonstra resiliência (a desaceleração está muito gradual) e o mercado de trabalho permanece apertado. Nesse contexto, hoje os juros futuros tendem a abrir em alta, e a Bolsa pode finalmente passar por uma realização de lucros depois de mais de dez pregões consecutivos de ganhos. Já no câmbio, a manutenção dos juros por mais tempo aumenta o diferencial de retorno e reforça o apetite pelo real, abrindo espaço para uma valorização no curto prazo. Na prática, o BC enterrou a já improvável chance de corte em dezembro e reduziu a probabilidade de uma redução em janeiro, que segue possível, mas agora menos plausível. Se havia investidores posicionados com base nesse cenário mais benigno, parte deles pode usar o comunicado como gatilho para ajuste de posição e realização parcial.

No paralelo fiscal, sobre o tema que vem desancorando as expectativas, o Senado aprovou por unanimidade o projeto que isenta do Imposto de Renda quem recebe até R$ 5 mil mensais, com desconto parcial até R$ 7.350 — medida que segue para sanção presidencial e deve se tornar um dos principais trunfos eleitorais do governo. Para compensar a renúncia, o texto cria um imposto mínimo sobre altas rendas, com alíquota que chega a 10% para quem recebe acima de R$ 1,2 milhão por ano, e passa a tributar dividendos acima de R$ 50 mil mensais, além de qualquer dividendo remetido ao exterior. Simultaneamente, o senador Renan Calheiros apresentou outro projeto para cobrir um déficit estimado em R$ 4 bilhões anuais, elevando a tributação sobre bets, bancos e fintechs — proposta que será votada na semana que vem. Em síntese, apesar da movimentação, nada estrutural foi proposto para enfrentar o problema fiscal de longo prazo, que deve permanecer em banho-maria até 2027, dependendo do resultado das eleições e da disposição política para uma reforma mais profunda.

Além disso, na agenda desta quinta-feira, os investidores seguem atentos à divulgação da balança comercial de outubro, aos resultados de Petrobras, Renner e Magazine Luiza após o fechamento, e ao início da rodada de encontros entre líderes globais na COP30.

· 01:43 — Se recuperando

As bolsas americanas fecharam em alta após a Suprema Corte sinalizar ceticismo quanto à legalidade das tarifas impostas por Donald Trump. O Nasdaq avançou 0,7%, o S&P 500 subiu 0,4% e o Dow Jones ganhou 0,5%. A leitura predominante no mercado foi de que uma eventual derrubada das tarifas poderia destravar estímulos para a atividade econômica e favorecer as ações — especialmente aquelas que se beneficiariam de um alívio comercial. E durante o mesmo pregão de ontem, o relatório privado de emprego da ADP mostrou a criação de 42 mil vagas no setor privado em outubro, superando as expectativas e interrompendo dois meses consecutivos de queda. O dado ganhou peso adicional porque o shutdown do governo americano paralisa a divulgação dos indicadores oficiais, deixando poucas fontes para mensurar a saúde do mercado de trabalho. Embora o número não aponte aceleração da economia, ajuda a reduzir o temor de um desaquecimento mais abrupto e pode influenciar a avaliação do Federal Reserve sobre novos cortes de juros nas próximas reuniões.

· 02:37 — Explorando melhor o ceticismo

A audiência realizada ontem na Suprema Corte dos EUA trouxe um sinal inesperado de ceticismo em relação às tarifas impostas durante o governo Trump. Mesmo ministros da ala conservadora — maioria na Corte — fizeram perguntas duras sobre a legalidade da medida, questionando se o Executivo extrapolou seus poderes ao utilizar uma lei de emergência nacional para aplicar tarifas amplas sobre produtos de dezenas de países. O presidente da Suprema Corte, John Roberts, chegou a sugerir que essas tarifas funcionam, na prática, como um imposto — instrumento cuja criação é prerrogativa exclusiva do Congresso segundo a Constituição americana. Caso o tribunal entenda que houve abuso de autoridade, empresas afetadas poderão receber reembolsos bilionários, configurando um impulso fiscal imediato à economia dos EUA.

Isso, porém, não encerra a disputa comercial. Mesmo que as tarifas atuais sejam derrubadas, Trump — ou qualquer futuro presidente — poderia recorrer a outros dispositivos legais para restabelecer barreiras, possivelmente alterando apenas sua estrutura e abrangência. Nesse cenário, algumas tarifas subiriam, outras cairiam, e o impacto líquido poderia continuar a pressionar levemente a inflação ao longo do tempo. Por ora, investidores reagiram bem à simples possibilidade de reembolso e alívio tarifário parcial, embora a decisão final da Suprema Corte só seja conhecida em junho. 

· 03:22 — Pacotão

A assembleia anual da Tesla pode resultar hoje na aprovação de um dos maiores pacotes de remuneração já oferecidos a um executivo. A proposta permite que Elon Musk receba até US$ 1 trilhão em ações ao longo dos próximos dez anos, desde que a companhia atinja metas bastante desafiadoras: multiplicar seu valor de mercado, entregar milhões de veículos e ampliar sua lucratividade em mais de 30 vezes. O plano conta com forte apoio de fundos de pensão de estados republicanos, de gestoras como a Baron Capital e do próprio conselho da Tesla. Musk, que detém cerca de 15% dos votos, já sinalizou que poderia deixar o comando da empresa caso a proposta fosse rejeitada — movimento que, na visão de muitos investidores, faria as ações desabarem.

A oposição, porém, é ruidosa. O fundo soberano da Noruega — o maior do mundo — e fundos de pensão de estados democratas, como o CalPERS, votaram contra o pacote, argumentando que ele concentra poder demais nas mãos de Musk e expõe a Tesla a uma dependência excessiva ao CEO. As consultorias ISS e Glass Lewis também recomendaram voto contrário. E, mesmo que a remuneração seja aprovada, o tema pode voltar aos tribunais, como ocorreu com o pacote anterior de US$ 56 bilhões, suspenso por decisão judicial em 2018. Por outro lado, se Musk realmente levar o valor de mercado da companhia aos US$ 8,5 trilhões — muito além dos atuais US$ 1,45 trilhão — o feito, de fato, mereceria um reconhecimento extraordinário.

· 04:11 — Expandindo

A MSCI ampliou o peso da China em seus índices globais pela primeira vez desde o início de 2024, incluindo 26 novas empresas e retirando outras 20 em sua revisão trimestral. A maior parte das companhias adicionadas atua em setores estratégicos apoiados por Pequim — como robótica, semicondutores e inteligência artificial — movimento que sinaliza o esforço do governo chinês em impulsionar áreas essenciais para a próxima fase de crescimento tecnológico e industrial do país.

A mudança ocorre após um rali de quase 30% do MSCI China ao longo do ano, apesar da desaceleração de fluxos estrangeiros causada por incertezas econômicas internas e pelo clima de tensão com os Estados Unidos. Analistas avaliam que a inclusão de novas empresas pode estimular entradas adicionais de capital, especialmente de fundos passivos que replicam o índice, trazendo algum alívio para um mercado que atravessou um período de volatilidade elevada e perda de confiança internacional.

· 05:09 — Um susto e um closing

A Medida Provisória 1.304 foi aprovada na Câmara e no Senado com a promessa de atacar distorções relevantes do setor elétrico, mas acabou gerando — quase na mesma intensidade — um susto inicial e uma sensação de frustração. O susto veio de um trecho incluído pelo relator Eduardo Braga que determinava que os incentivos fiscais da Sudam e Sudene fossem revertidos diretamente em redução tarifária. Na prática, isso significaria menor rentabilidade e menor capacidade de investimento para as distribuidoras do Norte e Nordeste, como a Equatorial. A simples inclusão desse ponto derrubou as ações em cerca de 3% no dia. Apesar do apelo populista, a medida foi retirada antes da votação final, o que trouxe alívio ao mercado, embora o próprio relator tenha indicado que o tema pode voltar à pauta no futuro.

A frustração veio da principal expectativa do setor…

Estudou finanças na University of Regina, no Canadá, tendo concluído lá parte de sua graduação em economia. Pós-graduado em finanças pelo Insper. Trabalhou em duas das maiores casas de análise de investimento do Brasil, além de ter feito parte da equipe de modelagem financeira de uma boutique voltada para fusões e aquisições. Trabalha hoje no time de analistas da Empiricus, sendo responsável, entre outras coisas, por análises macroeconômicas e políticas, além de cobrir estratégias de alocação. É analista com certificação CNPI.