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Investimentos

Vale (VALE3) e Petrobras (PETR4) impulsionam Ibovespa em meio aos sinais ambíguos do cenário geopolítico; veja os destaques do dia

A agenda do dia é carregada: no Brasil, saem os dados de vendas no varejo; nos EUA, temos dados de atividade, além dos balanços de grandes nomes do setor financeiro.

Por Matheus Spiess

15 jan 2026, 09:42

Atualizado em 15 jan 2026, 09:42

brasil ibovespa mercado investimentos

Imagem: iStock/ Alex Sholom

O cenário geopolítico recente trouxe sinais ambíguos para os mercados. De um lado, o envio de tropas europeias à Groenlândia reforça a percepção de que os gastos com defesa devem ganhar mais espaço nos orçamentos.

De outro, declarações de Donald Trump indicando que cessaram as execuções de manifestantes no Irã diminuíram a probabilidade de uma intervenção direta dos Estados Unidos, o que levou a uma leve acomodação nos preços do petróleo.

No ambiente financeiro, os dados de inflação ao produtor nos EUA não alteraram a expectativa de que os cortes de juros fiquem mais para frente.

No Brasil, o Ibovespa encontrou algum suporte nas ações da Petrobras. A agenda do dia é carregada: no Brasil, saem os dados de vendas no varejo; nos EUA, temos dados de atividade, além dos balanços de grandes nomes do setor financeiro.

· 00:52 — Digerindo a pesquisa eleitoral

Por aqui, o Ibovespa renovou máxima histórica, descolando do ambiente mais tenso no exterior e refletindo, sobretudo, a leitura mais construtiva sobre o cenário eleitoral de 2026. O principal índice da bolsa avançou 1,95%, encerrando aos 165.145,98 pontos, novo recorde nominal.

O movimento foi impulsionado inicialmente pelo rali do petróleo, antes de Donald Trump suavizar o discurso sobre um possível ataque ao Irã. Nesse contexto, as ações da Petrobras subiram bem mais do que o próprio Brent, a Vale disparou, alcançando o maior nível desde 2007, e os bancos avançaram com força.

Em determinado momento do dia, houve nervosismo, após a notícia sobre a suspensão da emissão de vistos para brasileiros, que inicialmente soou como uma possível sanção ao país. Isso manteve dólar e juros pressionados ao longo do pregão. As ações, porém, conseguiram se desvencilhar dessa leitura mais negativa e sustentaram o movimento de alta.

Na agenda doméstica, hoje saem os dados de vendas no varejo e produção de veículos. Um retrato de atividade mais moderada pode reforçar a probabilidade de início dos cortes de juros em março. O tamanho e a duração desse ciclo, no entanto, seguem diretamente condicionados à trajetória fiscal.

Sobre esse tema, ontem Lula sancionou o PLOA de 2026 com veto a R$ 392,8 milhões em emendas parlamentares. O movimento já era esperado, já que o Orçamento previa cerca de R$ 62 bilhões para essas emendas — quase R$ 12 bilhões a mais do que em 2025.

As emendas estão entre os vetores que precisarão ser enfrentados em 2027, depois das eleições, até porque dificilmente haverá qualquer mudança fiscal relevante em 2026 além do que já está na mesa.

Nesse mesmo pano de fundo, Haddad confirmou que deixará o Ministério da Fazenda ainda neste mês, o que adiciona mais uma camada de incerteza à condução da política econômica no curto prazo.

No campo político, um dos grandes destaques foi a divulgação da pesquisa Quaest na manhã de ontem. A leitura inicial é clara: embora Lula siga favorito à reeleição, sua vantagem diminuiu. Os números mostram um presidente com rejeição elevada e relativamente rígida, ao mesmo tempo em que parte do eleitorado se mostra disposta a mover o pêndulo político, a depender de quem seja o adversário. O grande problema está justamente na definição da candidatura de oposição.

Embora Flávio Bolsonaro tenha evoluído nas pesquisas — algo esperado com maior exposição — ele ainda carrega rejeição alta e aparece como o nome com menor chance em um segundo turno contra Lula.

Não por acaso, os partidos ligados ao governo evitam atacá-lo. A verdade é que a pré-candidatura de alguém como Flávio, que reativa a rejeição associada ao pai, recria um antagonismo conveniente para Lula e ainda apresenta múltiplos pontos frágeis que serão explorados quando a campanha ganhar corpo — Marina Silva e os “alimentos sumindo da mesa” em 2014 tendem a parecer leves diante do que pode ser o maior uso da máquina de moer reputações do petismo. Nesse sentido, Flávio acaba sendo um presente para o PT.

A percepção mais difundida é que o candidato mais competitivo hoje é Tarcísio de Freitas. Ele empata tecnicamente com Lula em simulações de segundo turno sem sequer ter lançado candidatura. Caso entrasse formalmente na disputa, teria espaço significativo para crescer até a eleição.

O problema é que a ala mais radical do bolsonarismo resiste a essa alternativa. Talvez essa resistência diminua mais à frente — há até março para que Flávio eventualmente passe o bastão —, mas o caminho até lá tende a ser turbulento.

Para piorar, se o PT evita atacar, a própria direita se encarrega de fazê-lo, num processo de autossabotagem que novamente favorece o petismo. Lula sabe disso: se Flávio insistir na candidatura, suas chances de reeleição aumentam de forma relevante. Ele torce por esse cenário. E, nesse contexto, embora o mercado tenha se animado ontem, a tendência é conviver com elevada volatilidade até que a oposição defina seu nome.

Essa instabilidade tende a ser ainda maior se a direita continuar se fragmentando e se atacando. O bolsonarismo deveria perceber que a melhor chance da oposição passa por Tarcísio de Freitas — atacá-lo é problemático mesmo que, no fim, o candidato seja Flávio, que precisará inevitavelmente do apoio do governador de São Paulo, maior colégio eleitoral do país.

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· 01:44 — Cheiro de rotação setorial

Nos Estados Unidos, uma rodada mais intensa de realização de lucros nas ações de tecnologia acabou puxando Wall Street para o terreno negativo durante o pregão de ontem, mesmo com um desempenho relativamente equilibrado dos demais setores.

O principal peso veio das chamadas “Sete Magníficas”, que encerraram todas em queda no dia, com perdas mais fortes em nomes como Nvidia, Tesla, Microsoft, Amazon e Meta. Ao mesmo tempo, o mercado mostrou um movimento claro de rotação: cerca de 320 ações do S&P 500 fecharam em alta, favorecendo estratégias de peso igual, small caps, ações de valor, pagadoras de dividendos e papéis de menor volatilidade.

O Russell 2000, de small caps, avançou 0,7% e renovou mais um recorde, reforçando a leitura de que parte dos investidores vem reduzindo exposição a crescimento e risco elevado, buscando áreas mais defensivas ou que ficaram para trás nos últimos ciclos.

No pano de fundo, a economia americana segue em condição razoavelmente saudável, com inflação de 2,7% e taxa de desemprego de 4,4% ao final de 2025. Ainda assim, três fontes de risco continuam merecendo atenção.

A primeira é a incerteza em torno das tarifas: até agora, muitas empresas vêm absorvendo parte dos custos ou repassando lentamente, mas mudanças frequentes nas regras podem desorganizar esse ajuste.

A segunda é o risco geopolítico, com destaque para a possibilidade de uma ação dos Estados Unidos no Irã e para as tensões envolvendo OTAN, Groenlândia e Taiwan, que têm potencial para afetar os ativos de risco em geral.

A terceira é de natureza institucional: cresce a preocupação com a pressão política sobre o Federal Reserve, o que, para o mercado, pode enfraquecer a credibilidade da política monetária e, no médio prazo, acabar pressionando inflação e juros.

· 02:38 — Custos adicionais

A Microsoft anunciou que passará a assumir os custos adicionais de energia associados à construção de novos data centers, com o compromisso de não transferir esse encargo para as comunidades onde essas estruturas forem instaladas.

A decisão surge em resposta à crescente resistência local a projetos ligados à inteligência artificial, que têm pressionado as redes elétricas, elevado as contas de luz e despertado preocupações ambientais. Para endereçar essas críticas, a empresa apresentou um plano estruturado em cinco frentes: aceitar tarifas mais altas de energia, compensar integralmente o consumo de água, ampliar a base de arrecadação de impostos sobre a propriedade, não solicitar incentivos fiscais e colaborar com autoridades locais para mitigar os impactos.

A iniciativa dialoga com o discurso recente do presidente Trump, que defendeu que as grandes empresas de tecnologia devem “pagar a própria conta”, e acontece em um momento em que manifestações populares já resultaram no cancelamento de dezenas de projetos de data centers nos EUA.

De forma mais ampla, o setor de tecnologia busca conter o desgaste político e social provocado pelo uso intensivo de energia pela IA, enquanto concessionárias alertam para o risco de sobrecarga das redes e até de apagões durante ondas de calor ou frio extremo. Levantamentos indicam que regiões próximas a grandes data centers viram os custos de eletricidade quase triplicarem nos últimos anos, o que alimenta a resistência local.

Diante disso, governos estaduais — como o de Nova York — já passaram a exigir que grandes consumidores arquem integralmente com seus custos energéticos ou invistam em geração própria. A postura da Microsoft tende a se tornar referência para outras big techs, num cenário em que a demanda por eletricidade deve continuar crescendo de forma acelerada, impulsionada justamente pela expansão dos centros de computação e das aplicações de inteligência artificial que temos visto.

· 03:23 — O clima esquentou no Ártico

A disputa por influência no Ártico ganhou novo fôlego com o aumento da pressão do presidente Donald Trump sobre a Groenlândia, território semiautônomo que faz parte do Reino da Dinamarca.

Trump voltou a afirmar que os Estados Unidos “precisam da Groenlândia” por razões de segurança nacional, mencionando tanto a presença crescente de navios russos e chineses na região quanto o valor estratégico da ilha para o controle de rotas marítimas e para a defesa do Hemisfério Ocidental.

Dentro dessa lógica, a Groenlândia passa a ser vista também como peça relevante para projetos militares americanos, como o sistema de defesa antimíssil conhecido como “Domo Dourado”. O endurecimento do discurso em Washington elevou o nível de alerta na Europa.

O governo dinamarquês reiterou publicamente que a ilha não está à venda, enquanto líderes europeus advertiram que qualquer tentativa de anexação à força colocaria em risco a própria coesão da OTAN. Ao mesmo tempo, representantes americanos, da Dinamarca e da Groenlândia intensificaram encontros em busca de uma saída negociada, num ambiente em que crescem os receios de atritos comerciais e de um desgaste mais profundo das alianças que sustentam a ordem ocidental.

Além do seu peso geopolítico, a Groenlândia chama atenção pelo potencial econômico que carrega. A ilha é considerada uma das regiões com maior concentração ainda inexplorada de recursos minerais do mundo, incluindo terras raras, além de metais básicos e preciosos.

A exploração desses recursos poderia ajudar os países ocidentais a reduzir a dependência da China em cadeias estratégicas de suprimentos. Há também oportunidades em gás natural, na atividade pesqueira — beneficiada pela migração de estoques para latitudes mais ao norte — e em novas rotas de navegação que se abrem à medida que o gelo do Ártico recua. A Dinamarca tem sinalizado abertura para ampliar a presença militar americana no território e para conceder mais licenças a empresas do setor mineral, mas mantém uma posição firme contra qualquer hipótese de venda ou anexação.

Para os mercados, a avaliação predominante é que uma ação militar direta dos EUA é pouco provável. Ainda assim, uma escalada nessa questão teria custos políticos e financeiros relevantes, com potencial de provocar reações negativas no Congresso americano, na União Europeia e entre investidores globais, que tenderiam a reavaliar e reprecificar o risco geopolítico em diferentes classes de ativos.

· 04:15 — A possibilidade de colapso de outro regime

A repressão promovida pelo regime iraniano aos protestos ganhou contornos ainda mais graves. Estimativas apontam para mais de 2.500 mortos, número que pode ser significativamente maior, já que o bloqueio quase total da internet e das comunicações dificulta a verificação dos acontecimentos.

As manifestações tiveram início por razões econômicas — como a inflação superior a 70% ao ano e a forte desvalorização da moeda —, mas rapidamente se espalharam pelas 31 províncias do país e assumiram dimensão política, tornando-se o maior levante desde 2022. O movimento passou a reunir não apenas jovens e desempregados, mas também a classe média e trabalhadores mais velhos, ampliando sua base social.

Diante dessa escalada, Donald Trump adotou um discurso cada vez mais duro, passou a incentivar publicamente os manifestantes, recomendou a retirada de cidadãos americanos do Irã e sinalizou que pode tomar medidas contra Teerã.

A tensão geopolítica se refletiu nos mercados: o petróleo subiu para o maior nível desde outubro. Ao mesmo tempo, cresce a leitura de que o Irã hoje reúne quase todas as condições típicas de um colapso revolucionário — com uma economia em crise, elites isoladas e ampla mobilização popular —, faltando apenas o fator decisivo: a ruptura das forças de segurança com o regime.

No plano internacional, Trump promete “ajudar” os manifestantes e avalia uma combinação de sanções mais severas, ações cibernéticas e até ataques militares limitados. O dilema é evidente: ataques aéreos, por si só, não derrubam regimes e ainda podem reforçar a narrativa oficial iraniana de que os protestos seriam fruto de interferência estrangeira, o que tende a legitimar uma repressão ainda mais dura.

Em Washington, o cálculo predominante é que o risco de uma retaliação ampla por parte do Irã é baixo, mas também é pouco provável que os Estados Unidos se engajem em uma campanha longa e custosa para forçar a queda do regime. Com isso, o cenário mais plausível é o de um impasse prolongado: repressão interna violenta, eventuais ações externas de caráter mais simbólico e um governo que pode até sobreviver por mais algum tempo, mas cada vez mais frágil, isolado, ilegítimo e estruturalmente mais próximo do seu fim — ainda que esse desfecho não seja imediato.

· 05:01 — A decolagem do setor elétrico

A demanda global por eletricidade caminha para uma expansão de aproximadamente 50% entre o final de 2024 e 2040, impulsionada sobretudo por Estados Unidos, Índia e China. Em termos absolutos, isso representa um acréscimo estimado de 13.300 terawatts-hora (TWh) — um volume quase equivalente ao consumo atual combinado das economias americana e chinesa.

Trata-se de uma mudança estrutural, sustentada por vários vetores de longo prazo: a disseminação da inteligência artificial, que exige data centers cada vez mais intensivos em energia; a reorganização das cadeias produtivas globais, com parte da produção migrando para fora da China; transformações demográficas; eventos climáticos extremos; e o avanço da eletrificação no transporte e nos sistemas de aquecimento.

Apenas os data centers ilustram bem essa inflexão: o consumo global desse segmento pode saltar de cerca de 371 TWh em 2024 para algo próximo de 1.600 TWh em 2035, superando, em menos de uma década, o consumo atual de economias relevantes como Brasil, Japão e Rússia.

Nesse cenário, a China deve permanecer como o maior consumidor mundial de eletricidade, elevando sua demanda de aproximadamente 8.778 TWh em 2024 para quase 14.000 TWh em 2040. A Índia, por sua vez, tende a mais que dobrar seu consumo no período, enquanto os Estados Unidos devem registrar crescimento entre 35% e 50% ao longo dos próximos 15 anos — uma reversão expressiva após quase duas décadas de demanda praticamente estagnada.

Para dar conta desse salto, concessionárias e governos terão de ampliar de forma significativa tanto a capacidade de geração quanto a infraestrutura de transmissão e distribuição, o que pode exigir investimentos próximos de US$ 15 trilhões até 2035. A maior parte da nova capacidade deve vir de fontes renováveis: energia solar, eólica e sistemas de armazenamento em baterias devem responder por cerca de 92% das adições globais até 2040. Ainda assim, a energia nuclear também ganha relevância, sobretudo para atender à demanda estável e contínua de grandes data centers, como mostram os contratos de longo prazo já firmados entre empresas de tecnologia e usinas nucleares nos Estados Unidos.

Somando geração e redes elétricas, os investimentos globais podem se aproximar novamente de US$ 15 trilhões até 2035, enquanto a energia nuclear, sozinha, pode exigir montante semelhante até 2050. As necessidades de investimento em redes devem mais que dobrar, refletindo a complexidade crescente de integrar fontes renováveis intermitentes, sistemas de armazenamento, usinas nucleares e novas tecnologias, como soluções baseadas em hidrogênio.

Para o investidor, esse movimento configura uma das maiores transformações estruturais da economia global nas próximas décadas, abrindo oportunidades de longo prazo ao longo de toda a cadeia de valor da eletricidade — da geração à transmissão, do armazenamento às soluções voltadas para data centers, veículos elétricos e infraestrutura crítica.

Esse quadro é particularmente favorável ao setor de energia dos Estados Unidos, que vive uma verdadeira reconstrução de sua infraestrutura elétrica. Por isso, sigo construtivo em relação ao ETF…

Estudou finanças na University of Regina, no Canadá, tendo concluído lá parte de sua graduação em economia. Pós-graduado em finanças pelo Insper. Trabalhou em duas das maiores casas de análise de investimento do Brasil, além de ter feito parte da equipe de modelagem financeira de uma boutique voltada para fusões e aquisições. Trabalha hoje no time de analistas da Empiricus, sendo responsável, entre outras coisas, por análises macroeconômicas e políticas, além de cobrir estratégias de alocação. É analista com certificação CNPI.