A possibilidade de reedição do confronto de 2018 entre o bolsonarismo contra o PT – que dessa vez poderá ter o ex-presidente Lula como candidato – trouxe mais desafios ainda para o centro no que se refere à sucessão de 2022.
Há três aspectos que, neste momento, representam importantes obstáculos ao centro: 1) a pulverização de nomes e a falta de um consenso mínimo; 2) a ausência de um candidato natural para representar esse campo; e 3) a falta de uma narrativa.
Na atual conjuntura, há uma inflação de nomes ao centro. No PSDB aparecem os governadores João Doria (SP) e Eduardo Leite (RS). O DEM conta com o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta. O ex-ministro Sergio Moro, mesmo desgastado, permanece na bolsa de apostas, assim como o apresentador da TV Globo Luciano Huck.
Também não podemos descartar um movimento do ex-ministro Ciro Gomes (PDT) para o centro, sobretudo após Lula ocupar novamente o campo da esquerda. Vale lembrar que Ciro, além da estreita relação com o PSB, tem bom trânsito no DEM. Em diversos estados do Nordeste, por exemplo, PDT e DEM andam muito próximos.
De olho nesse cenário, na semana passada, através de uma nota assinada pelo presidente nacional do PSDB, Bruno Araújo, o partido confirmou que realizará, em outubro deste ano, as prévias para definir seu candidato à Presidência.
No entanto, uma reconfiguração desse cenário poderá ocorrer nos próximos meses. No sábado passado (13), o jornal O Estado de S. Paulo trouxe a informação de que João Doria passou a admitir a possibilidade de concorrer à reeleição, desistindo do projeto nacional.
Mesmo com prévias marcadas para outubro, em entrevista à Folha de S.Paulo o deputado Aécio Neves (PSDB-MG) cogita a hipótese de o PSDB não ter candidatura própria, em nome da construção de um projeto de centro ampliado. Aécio citou Ciro, Mandetta, Leite e o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), como atores dessa composição.
Além disso, o deputado Rodrigo Maia (RJ), ex-presidente da Câmara, confirmou nesse domingo (14) que se filiará ao MDB. O movimento de Maia pode sinalizar uma tentativa de reconfiguração do centro. Porém, por ora, a viabilidade de uma alternativa centrista enfrenta dificuldades. Porém, o jogo não deve ser considerado jogado, sobretudo numa conjuntura bastante imprevisível.
A realidade do centro hoje é difícil. Bolsonaro passa pelo momento mais crítico do seu governo e ainda assim mantém em torno de 30% de aprovação. Mesmo com uma crise sanitária sem precedentes, uma crise econômica constante e uma rotina recheada de polêmicas, o capital político do Presidente ainda o coloca em uma situação confortável para disputar o segundo turno.
Já o PT, desde 1989, é figurinha carimbada nas eleições presidenciais brasileiras. Contra Collor, em 1989, recebeu 17% dos votos válidos no primeiro turno e 46% no segundo. Em 1994 Lula perde de FHC no primeiro turno, mas consegue 27% dos votos válidos. Em 1998, nova derrota no primeiro turno, e novamente 1/3 do eleitorado com Lula: 31%. Em 2002, 2006, 2010 e 2014 vitórias do PT, com Lula e Dilma. Em 2018, Jair Bolsonaro é eleito e Haddad ocupa novamente 1/3 do eleitorado no primeiro turno: 29%. No segundo, é derrotado com 44% dos votos válidos.
Ou seja, o PT, desde 89, consegue manter de maneira sólida 1/3 ou mais do eleitorado brasileiro, nas vitórias e também nas derrotas. Já Bolsonaro, em um cenário absolutamente turbulento de seu mandato, também ocupa faixa parecida do eleitorado.
Caso Bolsonaro e o PT consigam manter seu fiel eleitorado engajado, sobra pouco espaço para uma candidatura de centro, que dependeria de uma candidatura avassaladora para beliscar uma vaga no segundo turno.