A inclusão do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) como presidenciável por parte do presidente nacional do PSDB, Bruno Araújo (PE), voltou a tensionar o clima no partido. Embora o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), também cotado como presidenciável, tenha enaltecido a entrada de Tasso na disputa interna, aliados do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), reagiram negativamente.
Tasso Jereissati, que resistia em disputar prévias internamente, já admite tal possibilidade. Em entrevista ao Estadão nesse final de semana, ele disse que: “Ser candidato à Presidência não está ainda nos meus planos. Eu falo “ainda”. Eu defendo a ideia de uma união do centro.” As prévias do PSDB estão marcadas para outubro, mas Tasso acha melhor adiá-las para 2022.
A entrada de Tasso Jereissati no jogo tem o potencial de inviabilizar o projeto nacional de Doria. O nome de Tasso, assim como o de Eduardo Leite, são opções anti-Doria no ninho tucano. Mesmo comandando a grande vitrine política do PSDB no país – o estado de São Paulo – e tendo à sua disposição a bandeira da Coronavac, Doria está com sua imagem desgastada.
Segundo pesquisa da Exame/Ideia Big Data, divulgada na última sexta-feira (23), Doria é o candidato mais rejeitado do PSDB, com 29%. Tasso aparece com 16% e Leite com 11%. Pesquisa Ipespe realizada no estado de São Paulo com exclusividade para o jornal Valor (5 e 7 de abril) mostrou que o governo Doria é avaliado como “ruim” ou “péssimo” por 48% dos paulistas.
Uma das avaliações é que, embora a vacina tenha tornado Doria mais conhecido nacionalmente, o governador exagerou no marqueting da Coronavac e se expôs em demasia, politizando em excesso a agenda da imunização.
Além da impopularidade das medidas que restringem as atividades econômicas em São Paulo, Doria ficou isolado no PSDB após ter liderado, meses atrás, uma movimentação para tentar retirar Bruno Araújo da presidência nacional da legenda. O movimento de Doria gerou uma reação interna em favor de Araújo, enfraquecendo internamente o governador paulista.
Diante desse cenário, Doria ensaia um novo reposicionamento. Em artigo publicado no Estadão na quarta-feira passada (21) intitulado “O Brasil da esperança”, o governador, além de sinalizar com a bandeira da esperança, adota uma narrativa de oposição ao governo Bolsonaro.
Com o ex-presidente Lula (PT) no jogo, a possibilidade de Doria ser o anti-Bolsonaro se tornou remota. Para ser protagonista, Doria precisaria que Bolsonaro desmanchasse a ponto de ficar fora do segundo turno. Porém, hoje, essa hipótese também é remota. Como o PSDB nacional deseja ser uma opção de centro à polarização bolsonarismo x lulismo, há grandes obstáculos para as pretensões de Doria.
Na pesquisa Exame/Ideia Big Data, Doria obteve apenas 4% das intenções de voto. Esse é o mesmo índice registrado por Tasso Jereissati, tendo apenas um ponto percentual acima do índice contabilizado por Eduardo Leite (3%).
Ou seja, João Doria vem perdendo cada vez mais a posição de candidato natural do PSDB. Com a mesma densidade eleitoral de Tasso e Leite, os tucanos ficam também com a posição de protagonista do centro enfraquecida, já que o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) registrou 9% das intenções de voto na pesquisa. E o apresentador da TV Globo Luciano Huck (Sem partido) apareceu com 6%.
Conforme podemos observar, o PSDB continua sem rumo. Além da dificuldade de construir um nome que una o partido nacionalmente, recuperar o espaço perdido para Bolsonaro na polarização contra o PT é um desafio que depende cada vez mais de uma significativa mudança na conjuntura política.
O posicionamento pretendido pelo PSDB de ser o protagonista de uma opção de centro também não será uma tarefa fácil. Sem nome que empolgue, os tucanos têm outros concorrentes nesse campo.
Ciro Gomes, por exemplo, após perder espaço na esquerda com a volta de Lula para o jogo, faz sinais em direção ao centro. Ciro tem se aproximado do DEM, aliado histórico do PSDB desde 1994. Na semana passada, anunciou a contratação do marqueteiro João Santana, que comandou as campanhas vitoriosas de Lula (2006) e Dilma (2010 e 2014), para liderar a comunicação no PDT.
Huck também está no jogo e se movimenta. Após ter jantado recentemente com Eduardo Leite, em Porto Alegre, o apresentador teria conservado na semana passada, segundo informação trazida pelo Poder 360, com Tasso Jereissati.
Nesse cenário, dada a baixa densidade eleitoral dos nomes do PSDB, uma opção que não deve ser descartada, principalmente se Bolsonaro continuar a se manter na faixa dos 30% de avaliação positiva, é os tucanos abrirem mão de candidatura própria em 2022.