O episódio da “demissão” de Roberto Castello Branco da presidência da Petrobras coloca um ponto de interrogação em torno da presença de Paulo Guedes no governo. O ministro da Economia vem sendo, aliás, enfraquecido seguidamente por atitudes do presidente Jair Bolsonaro.
Basta lembrar a demissão de Joaquim Levy do BNDES; a não arbitragem dos conflitos entre Guedes e Rogério Marinho, titular do Ministério do Desenvolvimento Regional; a ameaça de demissão do presidente do Banco do Brasil, André Brandão; e, mais recentemente, a questão da Petrobras.
Outros tópicos podem ser incluídos no balaio: o pouco empenho palaciano quanto ao andamento da Reforma Administrativa e do processo de privatização da Eletrobras e dos Correios. Fica claro que o presidente Bolsonaro pensa de forma diferente de Paulo Guedes, em especial no que tange ao próprio poder de interferir em empresas estatais.
Bolsonaro nunca foi liberal. Guedes é um ultraliberal, discípulo da velha escola de Chicago. O Brasil está mais para Bolsonaro do que para Guedes. Mesmo que Guedes permaneça no governo, as diferenças de visões vão continuar a aparecer. Vamos fazer algumas considerações.
Bolsonaro vai substituir Guedes? Achamos que não. Não há, no momento, substituto para ele. Roberto Campos Neto, que seria o nome natural para o posto, já disse e reafirmou que não aceitaria substituir Paulo Guedes. Na falta de uma sucessão tranquila, Bolsonaro não deve querer abalar ainda mais as expectativas do mercado. A saída de Guedes poderia deflagrar uma grave crise de confiança no mercado e na economia.
Paulo Guedes vai pedir demissão? Também achamos que não. Ainda que ele não saiba operar o mundo político de Brasília, com o deputado Arthur Lira (PP-AL) e o senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG) à frente do Congresso Nacional sua vida ficará mais fácil. Na prática, Guedes conta com o apoio dos parlamentares para avançar com parte da sua agenda. Sair agora seria desperdiçar a chance de aprovar reformas em que acredita.
Bolsonaro e Guedes vão se entender? Ambos se relacionam muito bem no âmbito pessoal. Porém, dada a confusão com a saída de Castello Branco, a solidez desse relacionamento será testada no limite. Até mesmo porque Bolsonaro já anunciou que vai interferir na política de energia elétrica.