1 2019-12-09T13:32:41-03:00 xmp.iid:217a1f9b-69a9-426f-a7e6-7b9802d22521 xmp.did:217a1f9b-69a9-426f-a7e6-7b9802d22521 xmp.did:217a1f9b-69a9-426f-a7e6-7b9802d22521 saved xmp.iid:217a1f9b-69a9-426f-a7e6-7b9802d22521 2019-12-09T13:32:41-03:00 Adobe Bridge 2020 (Macintosh) /metadata
Day One

Borderline

Borderline (def.): também chamada de Transtorno de Personalidade Limítrofe, a síndrome de Borderline é um transtorno mental grave caracterizado por um padrão de instabilidade contínua no humor, no comportamento, autoimagem e funcionamento.

Por Felipe Miranda

18 jun 2018, 12:37

“Oh no one ever left alive in 1985, will ever do”
Paul McCartney

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Borderline (def.): também chamada de Transtorno de Personalidade Limítrofe, a síndrome de Borderline é um transtorno mental grave caracterizado por um padrão de instabilidade contínua no humor, no comportamento, autoimagem e funcionamento.

Os sintomas mais comuns da síndrome de Borderline englobam instabilidade emocional, sensação de inutilidade, insegurança, impulsividade e relações sociais prejudicadas, além de intenso medo de abandono e alta sensibilidade à rejeição.

Essas experiências geralmente resultam em ações impulsivas e relacionamentos instáveis. Uma pessoa com síndrome de Borderline pode experimentar episódios intensos de raiva, depressão e ansiedade que podem durar de apenas algumas horas a dias.

O Brasil morreu em 2014. Depois ressuscitou. Não foi ao terceiro dia, porque há limites até para os superpoderes metafóricos. Precisamos de uns dois anos para reviver o defunto.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Com o impeachment da ex-presidente Dilma, resgatamos o país das trevas. Passamos a ter a esperança de alguma razoabilidade. Retomamos a gestão macroeconômica responsável, a inflação caiu, os juros também, o PIB voltou a crescer, ainda que modicamente, as contas externas se ajustaram e a dívida pública parou de acelerar em direção à explosão.

Mas não nos enganemos. Ninguém sai incólume de uma dinâmica dessas. O camarada morre, renasce e fica tudo bem, sem nem uma sequela? Opa, nada disso. Se intercedemos nas leis da natureza e suprimimos nossos instintos mais primitivos, surgem as neuroses. E com elas temos de conviver por um bom tempo.

O Brasil enfrenta o transtorno da personalidade limítrofe. Há algo curioso no borderline. Embora alguns de seus sintomas lembrem a depressão, ele carrega uma característica muito particular: nutre uma espécie de distância ótima das coisas e das pessoas. Se alguém se afasta muito, emerge um completo pavor de perda e abandono. Se há uma grande aproximação, desperta-se a repulsa e a sensação de ser invadido.

Diferentemente da depressão, em que o sujeito não tem forças para lutar e se joga na cama, aqui o cara quer fazer alguma coisa. Ele se digladia de um lado para o outro – ao se afastar demais de um polo na direção oposta, fica com medo da perda e retorna.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Há algo tanático no processo, como num redemoinho em direção ao fundo do poço, numa trajetória sem fim, batendo de um lado a outro, cujo caminhar representa o próprio inferno psíquico, incapaz de quebrar o ciclo vicioso.

Do que estou falando exatamente?

O Brasil parece carregar uma distância ótima dos cenários positivos e negativos. Quando o Cristo Redentor decola na capa da “Economist”, surge a repulsa às condições favoráveis e é como se retomasse a trajetória inadequada. E quando aparenta também ir na direção da Venezuela, ele volta ao prumo.

Em outras palavras, ele não é tão bom quanto pensam os superotimistas, nem tão ruim quanto acham os cavaleiros do apocalipse. O Brasil é a estreia por 1 a 1 com a Suíça – esse é o encontro com a realidade, que não nos deixa desviar da complexa ideia de que as coisas difíceis são… difíceis.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Não somos o país do juro real de 2%. E também não somos aquele de 7%.

Não estamos eliminados da Copa ainda, como querem pintar os catastrofistas nos jornais desta manhã. E também não tínhamos levantado o caneco ainda, conforme previam até ontem os videntes da Globo.

É com o espírito da terminativa (e não da iniciativa) que deveríamos encarar a Copa do Mundo. E a verdadeira Copa deste ano se joga em outubro. Falo das eleições, claro. Esse é o grande evento do ano. Ele vai sair um pouco dos holofotes agora, porque estarão todos dedicados ao mundial de futebol. Mas continuará ali, à espreita, ciente de que é o grande evento para determinar nosso futuro pelos próximos anos.

Com a mesma ansiedade com que cravam o destino brasileiro na Rússia, parecem falar do embate presidencial. Já estão todos certos de um segundo turno Ciro x Bolsonaro.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Eu não iria por esse caminho. Para mim, ainda estamos jogando as eliminatórias. Temos uma fatia absurda de votos indecisos e com intenção de votar em branco. Além disso, as pesquisas eleitorais têm errado fragorosamente suas predições – pegue os exemplos (pequenos, eu sei, mas representativos) de Teresópolis e Tocantins.

Também me parece haver atualmente uma subestimação da capacidade competitiva de um candidato de centro, que venha a ser apoiado pelo governo – não no palanque, porque ninguém quer ser assombrado por vampiro em pleno comício, mas com a máquina pública e muito tempo de TV.

Em reforço, o atual Congresso quer Bolsonaro? Ciro? Esses caras vão na TV no dia seguinte à eleição falar que temos 300 picaretas no Parlamento – qualquer semelhança com as ideias de Lula, principalmente na economia, não é mera coincidência; sim, vale também para o esquerdista Bolsonaro (de novo, sim, você leu direito).

Com apoio do Centrão, se confirmado, Alckmin (ou qualquer outro que venha a aglutinar as forças de centro) ganha muita exposição na TV, além da força dos prefeitos no nível municipal – e sabemos ainda da diferença que isso pode fazer na hora de levar o cidadão das cidades pequenas e da zona rural a efetivamente sair de casa e votar. Conselho de papai: “Se você quer entender o Brasil, Felipe, pense em Senhora do Porto, não no Clube Paulistano”.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Para complementar, no meio de uma crise de mercados emergentes, com dólar acima de 4 reais, o brasileiro vai mesmo dispor-se a uma aventura do tipo Ciro ou Bolsonaro? As primeiras palavras ditas por Macunaíma, o retrato do caráter nacional, são “ai, que preguiça” – na língua indígena, “ai que” é preguiça, de tal modo que temos um herói duplamente preguiçoso. E gente preguiçosa não combina muito com aventura. Entre as características marcantes de Macunaíma também está o fato de que ele é medroso.

Em resumo, há muito risco, sim, no meio do caminho. Entre eles, também há o risco (positivo) de que as coisas caminhem muito melhor do que o consenso de mercado enxerga neste momento. Não nos esqueçamos: ausência de evidência não é evidência de ausência – não é porque não enxergamos ainda a subida de um candidato centrista que ela não ocorrerá quando a campanha efetivamente começar.

Segunda-feira começa tensa nos mercados mundiais com escalada da preocupação com guerra comercial entre EUA e China, que retaliou os americanos após as medidas de Trump na semana passada. Reunião da Opep também gera alguma aversão a risco, bem como expectativa sobre futuro das políticas monetárias em nível global.

Segmento de juros é exceção no Brasil, com taxas caindo nesta manhã, em meio a mais artilharia do Banco Central sobre o câmbio, leilões de compra e venda de títulos pelo Tesouro e interrupção na disparada do yield das Treasuries nos EUA, com investidor correndo para segurança.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Na agenda, saem IPC-S e relatório Focus. Nos EUA, temos apenas índice de confiança das construtoras.

Ibovespa Futuro recua 0,7%, dólar sobe 0,3% contra o real.

CIO e estrategista-chefe da Empiricus, é ex-professor da FGV e autor da newsletter Day One, atualmente recebida por cerca de 1 milhão de leitores.