Borderline

“Oh no one ever left alive in 1985, will ever do” Paul McCartney Borderline (def.): também chamada de Transtorno de Personalidade Limítrofe, a síndrome de […]

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Borderline

“Oh no one ever left alive in 1985, will ever do”
Paul McCartney

Borderline (def.): também chamada de Transtorno de Personalidade Limítrofe, a síndrome de Borderline é um transtorno mental grave caracterizado por um padrão de instabilidade contínua no humor, no comportamento, autoimagem e funcionamento.

Os sintomas mais comuns da síndrome de Borderline englobam instabilidade emocional, sensação de inutilidade, insegurança, impulsividade e relações sociais prejudicadas, além de intenso medo de abandono e alta sensibilidade à rejeição.

Essas experiências geralmente resultam em ações impulsivas e relacionamentos instáveis. Uma pessoa com síndrome de Borderline pode experimentar episódios intensos de raiva, depressão e ansiedade que podem durar de apenas algumas horas a dias.

O Brasil morreu em 2014. Depois ressuscitou. Não foi ao terceiro dia, porque há limites até para os superpoderes metafóricos. Precisamos de uns dois anos para reviver o defunto.

Com o impeachment da ex-presidente Dilma, resgatamos o país das trevas. Passamos a ter a esperança de alguma razoabilidade. Retomamos a gestão macroeconômica responsável, a inflação caiu, os juros também, o PIB voltou a crescer, ainda que modicamente, as contas externas se ajustaram e a dívida pública parou de acelerar em direção à explosão.

Mas não nos enganemos. Ninguém sai incólume de uma dinâmica dessas. O camarada morre, renasce e fica tudo bem, sem nem uma sequela? Opa, nada disso. Se intercedemos nas leis da natureza e suprimimos nossos instintos mais primitivos, surgem as neuroses. E com elas temos de conviver por um bom tempo.

O Brasil enfrenta o transtorno da personalidade limítrofe. Há algo curioso no borderline. Embora alguns de seus sintomas lembrem a depressão, ele carrega uma característica muito particular: nutre uma espécie de distância ótima das coisas e das pessoas. Se alguém se afasta muito, emerge um completo pavor de perda e abandono. Se há uma grande aproximação, desperta-se a repulsa e a sensação de ser invadido.

Diferentemente da depressão, em que o sujeito não tem forças para lutar e se joga na cama, aqui o cara quer fazer alguma coisa. Ele se digladia de um lado para o outro – ao se afastar demais de um polo na direção oposta, fica com medo da perda e retorna.

Há algo tanático no processo, como num redemoinho em direção ao fundo do poço, numa trajetória sem fim, batendo de um lado a outro, cujo caminhar representa o próprio inferno psíquico, incapaz de quebrar o ciclo vicioso.

Do que estou falando exatamente?

O Brasil parece carregar uma distância ótima dos cenários positivos e negativos. Quando o Cristo Redentor decola na capa da “Economist”, surge a repulsa às condições favoráveis e é como se retomasse a trajetória inadequada. E quando aparenta também ir na direção da Venezuela, ele volta ao prumo.

Em outras palavras, ele não é tão bom quanto pensam os superotimistas, nem tão ruim quanto acham os cavaleiros do apocalipse. O Brasil é a estreia por 1 a 1 com a Suíça – esse é o encontro com a realidade, que não nos deixa desviar da complexa ideia de que as coisas difíceis são… difíceis.

Não somos o país do juro real de 2%. E também não somos aquele de 7%.

Não estamos eliminados da Copa ainda, como querem pintar os catastrofistas nos jornais desta manhã. E também não tínhamos levantado o caneco ainda, conforme previam até ontem os videntes da Globo.

É com o espírito da terminativa (e não da iniciativa) que deveríamos encarar a Copa do Mundo. E a verdadeira Copa deste ano se joga em outubro. Falo das eleições, claro. Esse é o grande evento do ano. Ele vai sair um pouco dos holofotes agora, porque estarão todos dedicados ao mundial de futebol. Mas continuará ali, à espreita, ciente de que é o grande evento para determinar nosso futuro pelos próximos anos.

Com a mesma ansiedade com que cravam o destino brasileiro na Rússia, parecem falar do embate presidencial. Já estão todos certos de um segundo turno Ciro x Bolsonaro.

Eu não iria por esse caminho. Para mim, ainda estamos jogando as eliminatórias. Temos uma fatia absurda de votos indecisos e com intenção de votar em branco. Além disso, as pesquisas eleitorais têm errado fragorosamente suas predições – pegue os exemplos (pequenos, eu sei, mas representativos) de Teresópolis e Tocantins.

Também me parece haver atualmente uma subestimação da capacidade competitiva de um candidato de centro, que venha a ser apoiado pelo governo – não no palanque, porque ninguém quer ser assombrado por vampiro em pleno comício, mas com a máquina pública e muito tempo de TV.

Em reforço, o atual Congresso quer Bolsonaro? Ciro? Esses caras vão na TV no dia seguinte à eleição falar que temos 300 picaretas no Parlamento – qualquer semelhança com as ideias de Lula, principalmente na economia, não é mera coincidência; sim, vale também para o esquerdista Bolsonaro (de novo, sim, você leu direito).

Com apoio do Centrão, se confirmado, Alckmin (ou qualquer outro que venha a aglutinar as forças de centro) ganha muita exposição na TV, além da força dos prefeitos no nível municipal – e sabemos ainda da diferença que isso pode fazer na hora de levar o cidadão das cidades pequenas e da zona rural a efetivamente sair de casa e votar. Conselho de papai: “Se você quer entender o Brasil, Felipe, pense em Senhora do Porto, não no Clube Paulistano”.

Para complementar, no meio de uma crise de mercados emergentes, com dólar acima de 4 reais, o brasileiro vai mesmo dispor-se a uma aventura do tipo Ciro ou Bolsonaro? As primeiras palavras ditas por Macunaíma, o retrato do caráter nacional, são “ai, que preguiça” – na língua indígena, “ai que” é preguiça, de tal modo que temos um herói duplamente preguiçoso. E gente preguiçosa não combina muito com aventura. Entre as características marcantes de Macunaíma também está o fato de que ele é medroso.

Em resumo, há muito risco, sim, no meio do caminho. Entre eles, também há o risco (positivo) de que as coisas caminhem muito melhor do que o consenso de mercado enxerga neste momento. Não nos esqueçamos: ausência de evidência não é evidência de ausência – não é porque não enxergamos ainda a subida de um candidato centrista que ela não ocorrerá quando a campanha efetivamente começar.

Segunda-feira começa tensa nos mercados mundiais com escalada da preocupação com guerra comercial entre EUA e China, que retaliou os americanos após as medidas de Trump na semana passada. Reunião da Opep também gera alguma aversão a risco, bem como expectativa sobre futuro das políticas monetárias em nível global.

Segmento de juros é exceção no Brasil, com taxas caindo nesta manhã, em meio a mais artilharia do Banco Central sobre o câmbio, leilões de compra e venda de títulos pelo Tesouro e interrupção na disparada do yield das Treasuries nos EUA, com investidor correndo para segurança.

Na agenda, saem IPC-S e relatório Focus. Nos EUA, temos apenas índice de confiança das construtoras.

Ibovespa Futuro recua 0,7%, dólar sobe 0,3% contra o real.