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Day One

O Domingo de Ramos e o que vem depois dele

Neste espaço específico, fatigado e triste, discorro sobre potenciais impactos para seu dinheiro a partir da decisão do STF. O desgosto e o pragmatismo exigem essa abordagem.

Por Felipe Miranda

23 mar 2018, 11:00

“Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha…”
Nel mezzo del Camin…Olavo Bilac

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O Brasil é o país do futuro… do pretérito. Normalmente nos esquecem de falar o que vem depois das reticências. O problema vem justamente… nas reticências.

Lula seria preso na segunda-feira. O Brasil é um grande seria. No meio do caminho, havia um STF. Havia um STF no meio do caminho. Com o mesmo desprezo de Drummond pelo parnasianismo de Bilac, me afasto de comentar a questão em si. Não estou aqui para repetir clichês e fatos estilizados sobre o golpe branco.

Neste espaço específico, fatigado e triste, discorro sobre potenciais impactos para seu dinheiro a partir da decisão do STF. O desgosto e o pragmatismo exigem essa abordagem.

Antecipo a resposta: não acho que a medida, nem mesmo a posterior eventual manutenção da liberdade do ex-presidente Lula, possa interromper a tese do bull market (mercado em alta) secular.

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Antes, duas considerações de cunho regulatório bastante pertinentes. Coisa rápida, de fundamental importância para os bastiões da moral e dos bons costumes:

  • Como vamos permitir todo este exagero de Márcio Appel, projetando o Ibovespa a 160 mil pontos e além, sem alertas para risco, falando para investidores pessoas físicas de maneira tão irresponsável? Onde estariam a Anbima, a CVM, o Sergio Moro, a Liga da Justiça? (Sim, é uma ironia.)
  • A Apimec já mandou uma cartinha para o Armínio Fraga por ter contrariado os interesses do sistema financeiro em ótima matéria de Cláudia Safatle no “Valor”? Não sei, mas desconfio que, a esta altura, o Guilherme Benchimol já ligou para o chefe do Armínio para repreendê-lo por declarações tão truculentas e inverídicas. (Sim, também estou tentando descobrir quem é o chefe do Armínio.)

Corta para o Lula novamente.

Para quem carrega uma ética judaico-cristã, seria curioso vermos nosso salvador da Pátria, o filho do Brasil, sendo preso no dia seguinte ao Domingo de Ramos. Enquanto o verdadeiro Salvador seria aclamado em sua entrada triunfal em Jerusalém montado num jumento, o animal representante da paz, recebido por ramos de Palmeiras em demonstração de admiração, o falso salvador enfrentaria uma saída vergonhosa e perderia sua liberdade. Seria ótimo para mostrar-nos de que não há salvador algum. Não precisamos de heróis populistas, mas sim de alguém capaz de impetrar uma agenda liberal e reformista, com soluções descentralizadas, despersonificadas e bottom-up.

Embora seja uma falência ética, não acredito que a decisão de ontem do STF seja capaz de alterar o rumo dos mercados. Lula continua fora da disputa presidencial e a esquerda parece bastante desarticulada.

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Em paralelo, há fatores domésticos muito mais relevantes em curso para guiar os mercados, a saber: i) juros vão continuar mais baixos e por mais tempo do que todos imaginavam; ii) a alocação dos fundos de pensão em Bolsa está baixíssima e essa turma vai precisar começar a comprar Bolsa por conta da meta atuarial (o Brasil é “underowned”, de novo citando o Márcio Appel); iii) o PIB na margem apresenta uma das maiores acelerações entre todos os países relevantes (lembre-se como os ativos se mexem por conta de movimentos na margem, não no nível); iv) os lucros corporativos vão crescer exponencialmente depois da destruição recente.

Resumidamente, estamos diante de uma grande tristeza ética e moral, mas o touro continua animado.

No país do futuro do pretérito, lembro da personagem de Alvy Singer: “Eu sinto que a vida é dividida entre o horrível e o miserável. Essas são as duas categorias. O horrível são aqueles, hmmm, não sei direito…casos terminais, sabe, doenças graves, tragédias. E o miserável é todo o resto. Então, você deveria se sentir grato por pertencer ao grupo dos miseráveis, porque é uma sorte muito grande ser do grupo dos miseráveis”.

A única sorte do Brasil é que ele ressuscita depois de morrer. Demora um pouco mais de três dias, mas acontece.

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Corta agora para o outro fator miserável do dia, para a potencial guerra comercial entre EUA e China. Depois das tarifas de importação anunciadas nessa quinta por Trump, o gigante asiático retaliou. Começou devagar, com cerca de 3 bilhões de dólares, mas pode vir mais por aí. A ameaça de uma guerra comercial mais ampla tem ferido os mercados fortemente desde ontem.

Seria essa a catálise para o fim do longo bull market lá fora? Acho precipitada a conclusão.

Aproprio-me da ideia do brilhante historiador Niall Ferguson: para entender Trump, você precisa ler o “The Art of The Deal”, em que ele narra suas estratégias de negociação no mercado imobiliário. Se você quer comprar, desdenha, ameaça sair do negócio. Morda e assopre.

É rigorosamente com essa cabeça que Trump parece tratar as relações comerciais. Faz-se muito barulho e ameaça-se sair do negócio, para chegar a termos mais favoráveis e com alguma racionalidade.

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Não há espaço para uma guerra comercial ampla e abrangente. Isso vai além da vontade individual. A China e os EUA mantêm uma relação bastante intensa, rica e profícua. Não há como destrui-la a partir de 140 caracteres. É claro, porém, que até chegarmos a uma visão de consenso e mais clara encontraremos várias pedras no meio do caminho. Até lá, passaremos por uma espécie de Paixão de Cristo.

Mercados voltam a cair com algum vigor nesta sexta-feira, pressionados pelo recrudescimento da tensão entre EUA e China. Commodities caem fortemente, com exceção do petróleo, que sobe a partir da nomeação do belicista John Bolton como conselheiro de segurança nacional, duro crítico do Irã e da Coreia do Norte.

Internamente, além da repercussão da decisão de ontem do STF, destaque para IPCA-15, que apurou inflação de 0,10% em março, marginalmente abaixo das projeções e a menor marca desde 2000. Nota do setor externo e IPC-S completam agenda doméstica.

Nos EUA, saem encomendas de bens duráveis e vendas de moradias.

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Ibovespa Futuro registra queda de 0,7%, dólar sobe contra o real e juros futuros avançam.

CIO e estrategista-chefe da Empiricus, é ex-professor da FGV e autor da newsletter Day One, atualmente recebida por cerca de 1 milhão de leitores.