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Acontece na Empiricus

Eduardo Gianetti conta sobre um ‘Brasil que vale a pena ser sonhado’ sem falar de utopia, em evento da Empiricus

Um país em que os homens podem desenvolver-se plenamente seria a utopia brasileira? O cientista político Eduardo Gianetti explicou sua tese no aniversário de 15 anos da Empiricus.

Camila Paim Figueiredo Jornalista

Por Camila Paim

29 nov 2024, 14:40

Atualizado em 29 nov 2024, 15:23

EDUARDO GIANETTI

Imagem: Equipe Empiricus

Eduardo Gianetti, sobre o momento político do Brasil hoje, afirma: “abstraiam a guerra ideológica burra que nós estamos vivendo”. Segundo o cientista político, formado em Economia e Ciências Sociais pela USP e com Ph.D. em Economia pela Universidade de Cambridge, as pessoas agora dividem muito os seus pensamentos. 

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“Se você gosta do governo, tudo que ele faz é bom e toda a crítica é em detrimento. Se você detesta o governo, tudo que ele faz é péssimo”, analisa o especialista em participação ao evento de 15 anos da Empiricus

Em sua interpretação, o seu viés de confirmação te faz ler o mundo de acordo com a sua preferência e as pessoas estão quase “perdendo o contato com a realidade”. 

A informação e conhecimento intransferível na formação do pensamento

Em seus estudos, Gianetti acredita que existem dois tipos fundamentais de informação que vêm de fora – do meio externo. São elas:

  • Informações formalizáveis e transferíveis, como o trabalho de pesquisa da Empiricus Research, que comunica os seus estudos e está fundamentada no experimento;
  • Informações tácitas e não formalizadas, também chamadas por alguns filósofos de informações idiossincráticas, do conhecimento e dos sentidos. 

Como exemplo, Gianetti menciona grandes jogadores de futebol que entendem muito bem suas jogadas e têm um talento tácito para o esporte. Por outro lado, físicos acadêmicos que podem nem saber chutar uma bola descrevem com perfeição matemática tudo que foi executado pelo atleta. 

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“São conhecimentos não formalizados, intransferíveis”, explica. 

O paradoxo da economia da informação 

Neste fio de raciocínio, o cientista político aborda o denominado “paradoxo da economia da informação”, baseado no conceito de um economista matemático do século XX, Kenneth Arrow. 

“O valor da informação para um comprador potencial não é conhecido até que ele a possua. Mas quando ele a possui, não há mais como cobrar por ela”, cita Gianetti. 

Ou seja, antes de conhecer o produto, não há como o comprador realmente saber o seu valor. Contudo, a partir do momento que o vendedor lhe passa o produto, ele também não pode mais exigir novos custos dele. 

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É sob essa lógica que o cientista explica o surgimento de produtos por assinatura, por exemplo, que garantem a fidelização e continuidade do consumo, assim como o paradoxo da patenteação, que envolve a exposição do conhecimento em busca de créditos. 

Paradoxo e confiança

Para terminar a linha de pensamento sobre o paradoxo da informação, Gianetti retoma que a presença do informacional na vida econômica força a importância da ética e da confiabilidade. 

“Existe um nível de exigência e confiança muito maior quando você está lidando com um bem informacional. Porque são transações que não dificilmente vão poder retroagir e vão poder ser refeito, caso haja algum tipo de apontamento ou frustração, porque não há como objetivamente determinar que falhou a expectativa”, explica. 

Por exemplo, ele toma o convite da Empiricus para a participação no evento. “Como eles sabem o que vou apresentar? Não sabem. Eu posso chegar aqui e falar grego. É confiança, que depende da característica muito cruel e de lenta formação da reputação”, explica. 

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Ele compara as relações pessoais e empresariais com os casos de desconfiança nas companhias observados recentemente, como o caso de fraude contábil na Americanas (AMER3). 

Como recebemos e digerimos notícias econômicas

Na visão de Gianetti, devemos sempre lembrar que não é possível fazer previsões econômicas da mesma forma que é visto em ciências exatas. “Como é que se recebe notícias econômicas? Como é que se digere propostas e soluções apresentadas? Enquanto nós não entendermos melhor o ser humano e o processo de formação de crenças, nós vamos continuar tateando no escuro”, afirma. 

Como um crítico das expectativas racionais, o cientista acredita que nem todas as expectativas são totalmente irracionais, mas uma combinação de busca de conhecimento objetivo com elementos de não racionalidade. 

“O processo econômico resulta dessa combinação. E cá entre nós não é de todo mal, porque o que nos salva no fundo é a não racionalidade”, conclui e finaliza sua fala citando o poeta Fernando Pessoa:

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Sem a loucura que é o homem

Mais que a besta sadia,

Cadáver adiado que procria?

Brasil que vale a pena ser sonhado

Em uma análise macro do Brasil, Eduardo Gianetti afirma que tem em sua intuição um conceito de “um Brasil que vale a pena ser sonhado”. Em sua definição, este seria um país que conquista um mínimo de civilização sem perder a força emotiva e afetuosa pré-moderna, que entram na nossa cultura graças ao consumo afro-indígena. 

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“Seria a civilização sem o mal-estar. A essa utopia, entretanto, corresponde uma distopia: o mal-estar sem a civilização. Nós não alcançamos um patamar elementar de civilização. Metade dos domicílios brasileiros não têm coleta de lixo e não temos tratamento de esgoto universal. Como é que nós chegamos ao século XXI sem ter feito o mais elementar da modernidade? Teve [governo de] direita, teve [governo de] esquerda, teve ditadura, teve democracia, teve o que vocês quiserem, mas chegamos no século 21 sem isso”, critica. 

Para o Brasil fazer justiça a essa possibilidade de utopia, segundo o cientista, ainda é preciso enfrentar os seus problemas mais elementares de segurança. “Começando por saúde, educação e condições mínimas de oportunidade para que cada brasileiro possa desenvolver o seu potencial humano”, defende.

Jornalista formada na Universidade de São Paulo (USP), com mobilidade acadêmica na Université Lumière Lyon 2 (França). Trabalhou com redação de jornalismo econômico e mercado financeiro, webdesign e redes sociais, além de escrever sobre gastronomia e literatura.