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O dia começa sob a influência de dois grandes vetores. De um lado, a balança comercial da China veio mais forte do que o mercado esperava, reforçando a leitura de que o comércio do país segue encontrando rotas alternativas em meio às tensões tarifárias — o superávit comercial chinês atingiu US$ 1,2 trilhão em 2025, com uma dependência cada vez menor do mercado americano.
De outro, a atenção se volta para a agenda intensa dos Estados Unidos, que inclui a divulgação do índice de preços ao produtor, das vendas no varejo e do Livro Bege do Federal Reserve, além dos resultados corporativos que seguem a todo vapor.
Embora a inflação americana de dezembro tenha vindo relativamente comportada, ela ainda não foi suficiente para abrir caminho a cortes imediatos de juros. O mercado segue trabalhando com a hipótese de que a retomada de cortes aconteça apenas por volta de junho.
Ao mesmo tempo, persistem incertezas relevantes: questionamentos sobre a independência do Fed, a expectativa de uma decisão da Suprema Corte sobre as tarifas de Trump e o aumento das tensões geopolíticas, com o agravamento da situação política e social no Irã.
· 00:51 — As benditas pesquisas
No mercado doméstico, o Ibovespa voltou a encerrar o pregão em queda, refletindo o ambiente global mais cauteloso e carregado de incertezas. No campo fiscal, o governo Lula informou que fechou 2025 com déficit primário de 0,48% do PIB — ou cerca de 0,17% quando se retiram itens excepcionais, como precatórios — cumprindo a meta pelo terceiro ano consecutivo.
Ainda assim, é importante olhar além do número supostamente “oficial”: o resultado primário vem sendo fortemente influenciado por excepcionalidades criadas pela equipe econômica, o tornando artificial, enquanto o déficit nominal segue rodando próximo de 8% do PIB.
Isso enfraquece a credibilidade do arcabouço fiscal e tende a impor limites ao ciclo de corte de juros que deve se iniciar em breve. O problema é que essa discussão mais profunda só deve ganhar contornos claros em 2027, após as eleições, o que mantém o tema envolto em incerteza.
Nesse contexto, o radar político ganha peso adicional. Hoje pela manhã deve ser divulgada a aguardada pesquisa Quaest — provavelmente já conhecida por você ao ler este texto. A expectativa é de que ela confirme o desenho apontado pela pesquisa Idea, divulgada ontem, na qual Tarcísio de Freitas aparece como o nome mais competitivo da oposição, com melhor desempenho em segundo turno (talvez empate técnico com Lula) e menor rejeição.
Movimentos recentes, como atritos dentro da família Bolsonaro e o fato de Michelle ter compartilhado vídeos de Tarcísio em vez de conteúdos ligados a Flávio, além da manutenção de um discurso presidencial por parte do governador, mantêm-no como opção viável caso Flávio desista até o fim de março, transferindo-lhe o bastão.
Até lá, porém, o mercado seguirá convivendo com incerteza e com a percepção de que uma candidatura menos competitiva pode insistir, de forma teimosa, em um projeto que acaba favorecendo a situação. Isso importa porque o grau de confiança dos investidores na inevitável reforma fiscal de 2027 dependerá muito de quem sair fortalecido desse processo eleitoral. Além da política, a agenda do dia inclui dados regionais da produção industrial de novembro e a fala de uma autoridade monetária brasileira no segundo dia das reuniões bimestrais do BIS.
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· 01:43 — Sinais de desaceleração inflacionária
Nos Estados Unidos, mesmo com uma leitura de inflação mais branda do que o esperado, os mercados americanos fecharam em queda, pressionados sobretudo por um início decepcionante da temporada de balanços.
O gatilho veio do JPMorgan, que reportou um lucro 7% menor que o do ano anterior — impacto explicado, em parte, por um acordo com a Apple que reduziu o lucro por ação e por um trimestre mais fraco nas áreas de banco de investimento.
A Delta Air Lines também contribuiu para o mau humor: embora tenha superado as expectativas no resultado, frustrou o mercado ao divulgar uma projeção mais fraca para 2026. Em um ambiente de múltiplos elevados, os investidores passaram a exigir mais do que simples “batidas” de consenso: agora, é necessário também melhorar projeções para sustentar os preços das ações. Nesse contexto, o setor financeiro segue ainda mais pressionado pela proposta de Donald Trump de impor um teto temporário de 10% aos juros de cartões de crédito.
Do lado macro, o índice de preços ao consumidor de dezembro mostrou inflação cheia de 2,7% em 12 meses e núcleo de 2,6%, ambos abaixo do esperado, mas ainda acima da meta de 2% do Federal Reserve. A autoridade monetária tende a manter uma postura cautelosa, parando temporariamente o ciclo de cortes agora em janeiro, especialmente porque ainda há distorções estatísticas ligadas ao período de paralisação do governo e riscos adicionais vindos de repasses tarifários e reajustes de aluguéis. Para hoje, a agenda segue carregada: saem preços ao produtor, vendas no varejo, vendas de casas usadas ao meio-dia, estoques de petróleo e Livro Bege.
· 02:37 — E a temporada foi iniciada: as expectativas estão elevadas!
As grandes empresas de tecnologia mais expostas à inteligência artificial entram nesta temporada de balanços com expectativas bastante elevadas. O consenso de mercado aponta para um crescimento próximo de 20% nos lucros do grupo no quarto trimestre de 2025, um ritmo muito superior à média das demais companhias do S&P 500.
A Alphabet é um bom exemplo desse movimento: a empresa atingiu recentemente a marca de US$ 4 trilhões em valor de mercado, como comentamos na edição de ontem, impulsionada tanto pelos avanços de suas plataformas de IA quanto pelo acordo para fornecer sua tecnologia à nova geração da assistente Siri, da Apple.
Ao mesmo tempo, surge um novo vetor de risco vindo da política. Embora Donald Trump tenha adotado, até aqui, um discurso favorável ao desenvolvimento da inteligência artificial, ele passou a sinalizar que as grandes empresas de tecnologia deverão assumir parte relevante do custo do forte aumento da demanda por energia.
Estimativas indicam que o consumo elétrico nos Estados Unidos pode crescer cerca de 25% até 2030, em grande medida por causa da expansão dos data centers. Caso as big techs sejam chamadas a financiar uma fatia significativa dos investimentos em infraestrutura elétrica — dentro de um plano que pode alcançar algo próximo de US$ 1 trilhão entre 2025 e 2029 —, haverá pressão direta sobre margens e retorno sobre capital. Esse movimento pode reduzir a vantagem relativa das líderes em IA e abrir espaço para uma rotação gradual do mercado em direção a outros setores.
· 03:22 — Ataques
Donald Trump voltou a atacar Jerome Powell e deixou claro que gostaria de substituí-lo por alguém mais disposto a reduzir os juros, o que reacendeu os temores em torno da independência do Federal Reserve.
A reação foi imediata e veio de várias frentes: líderes financeiros globais, presidentes de bancos centrais e economistas de peso, como Jamie Dimon e Paul Krugman, alertaram que a interferência política na autoridade monetária costuma produzir exatamente o efeito oposto ao desejado — mais inflação e juros mais altos no médio prazo, à medida que os investidores passam a exigir maior prêmio de risco diante da perda de credibilidade institucional.
Na avaliação de algumas casas, o maior risco estrutural para o chamado “excepcionalismo americano” seria justamente a deterioração do Estado de Direito. Ainda assim, os freios e contrapesos seguem funcionando. Apesar do volume elevado e da velocidade dos decretos de Trump, o Congresso e a Suprema Corte têm reagido, limitando excessos e preservando o arcabouço institucional.
O próprio comportamento dos mercados reforça essa leitura: quando o Estado de Direito realmente entra em colapso, ações, títulos e moeda costumam cair juntos — o que ainda não ocorreu. Pelo contrário, após um período curto de saída de capital, os fluxos estrangeiros voltaram, e as bolsas americanas chegaram, inclusive, a renovar máximas históricas, sinalizando que, por ora, os investidores ainda confiam na resiliência das instituições do país.
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· 04:18 — Problema demográfico
O Japão registrou, em 2025, o menor número de nascimentos desde o início das estatísticas oficiais, há mais de um século. Demógrafos estimam que o país teve menos de 670 mil recém-nascidos no ano, um patamar inferior até mesmo às projeções mais pessimistas do próprio governo. Essa dinâmica impõe um desafio central à primeira-ministra Sanae Takaichi, que precisa conciliar crescimento econômico, envelhecimento acelerado da população e uma política historicamente restritiva à imigração. A queda da natalidade, porém, não é um fenômeno isolado: trata-se de uma tendência estrutural no Leste Asiático.
Na Coreia do Sul, as projeções indicam que a população pode encolher cerca de dois terços ao longo do próximo século, enquanto, na China, a expectativa é de redução próxima à metade no mesmo horizonte de tempo.
Em Hong Kong, por exemplo, o quadro segue na mesma direção. A cidade enfrenta dificuldades crescentes para reverter o declínio no número de nascimentos justamente no momento em que sua população envelhece de forma acelerada. No ano passado, foram registrados apenas 31.714 nascimentos no território, uma queda de 14% em relação a 2024. O número ficou, inclusive, cerca de 3% abaixo do piso observado durante a pandemia, em 2022. Esse resultado interrompe a sequência de dois anos de recuperação e representa um revés para as políticas voltadas a estimular a natalidade, reforçando o desafio demográfico que se impõe às principais economias da Ásia.
· 05:04 — Risco institucional
Três ex-presidentes do Federal Reserve — Janet Yellen, Ben Bernanke e Alan Greenspan —, ao lado de quatro ex-secretários do Tesouro de diferentes partidos, vieram a público criticar de forma contundente a investigação criminal conduzida pelo governo Trump contra Jerome Powell.
A iniciativa representa uma ameaça direta à independência do banco central e aproxima os EUA de práticas mais comuns em países com instituições frágeis. O desconforto se espalhou também pelo Congresso.
A reação inicial dos mercados foi de cautela. O dólar recuou, os juros de longo prazo subiram e o ouro avançou. As bolsas chegaram a cair rapidamente, mas conseguiram se recuperar ao longo do dia. Powell declarou que a investigação seria apenas um “pretexto” para pressioná-lo a promover cortes mais agressivos nos juros. Isso reacendeu o receio de que interferências políticas possam, no médio prazo, elevar a inflação, já que a experiência internacional mostra que bancos centrais independentes são peça-chave para garantir estabilidade de preços e previsibilidade econômica.
Esse ambiente de tensão ajudou a levar o…