Os mercados dão largada à semana em postura defensiva, pressionados por dois vetores centrais. De um lado, a nova tentativa do governo Trump de interferir no Federal Reserve — agora com a ameaça de uma investigação contra Jerome Powell — reacende dúvidas sobre a autonomia do banco central e eleva o chamado risco institucional nos Estados Unidos.
De outro, a deterioração do quadro no Irã, com protestos duramente reprimidos, aumenta a probabilidade de algum tipo de iniciativa militar americana. Esse ambiente estimula a busca por ativos de proteção.
Ao mesmo tempo, a semana traz uma agenda intensa. Começa a temporada de balanços nos EUA, enquanto os investidores acompanham de perto a divulgação da inflação de dezembro, além do PPI, das vendas no varejo e dos discursos de dirigentes do Fed.
Na Ásia, as bolsas avançam impulsionadas por forte volume de negócios na China, enquanto Europa e Estados Unidos operam com maior cautela. O petróleo recua levemente, mesmo diante dos sinais de instabilidade no Irã. No Brasil, entram no foco os dados de atividade e uma nova pesquisa eleitoral.
· 00:57 — Agenda carregada
No mercado doméstico, as atenções se voltam agora para os dados de atividade de novembro, que incluem serviços, varejo e o IBC-Br. Na sexta-feira, o Ibovespa acompanhou o movimento estrangeiro e chegou a flertar com os 164 mil pontos, mas perdeu tração no período da tarde, encerrando o pregão com alta modesta, pouco acima dos 163 mil pontos.
Ainda assim, acumulou valorização de 1,76% na semana, sustentado por dois vetores principais: a inflação doméstica dentro da banda da meta no ano e os sinais de enfraquecimento do mercado de trabalho nos EUA.
Sobre a inflação, em linha com o que já havíamos discutido, houve de fato um processo de convergência para patamares mais razoáveis, mas o quadro ainda inspira cautela. A pressão segue concentrada nos serviços mais ligados ao mercado de trabalho, enquanto os bens continuam relativamente comportados.
Apesar de o IPCA ter fechado 2025 dentro da banda da meta, ele permanece acima do centro, e a melhora mais consistente dos núcleos deve ficar concentrada apenas a partir de 2026. Já o índice cheio tende a mostrar alívio mais rápido no primeiro semestre deste ano, puxado por fatores pontuais. Mesmo assim, o início do ciclo de cortes de juros é esperado para março, ainda que conduzido de forma gradual e cuidadosa pelo Banco Central, dado que as expectativas seguem desancoradas, em grande parte por incertezas fiscais — tema que dificilmente será resolvido antes das eleições de 2026.
Nesse pano de fundo, a política volta a ganhar peso na formação de expectativas. A Quaest deverá divulgar a primeira pesquisa presidencial do ano na quarta-feira. O levantamento testou sete cenários de primeiro e segundo turno, com nomes como Lula, Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Ratinho Júnior, ajudando a calibrar o “trade eleitoral”, que tende a ganhar força nos próximos meses.
- Criptomoedas em ‘pré-venda’: O segredo dos grandes lucros do mercado digital pode estar em novas criptos de alto potencial; veja como aplicar estratégia
· 01:44 — Depois do relatório de emprego…
Nos EUA, os investidores receberam de forma construtiva o relatório de empregos mais recente, destacando sobretudo a queda da taxa de desemprego para 4,4%, ainda que a geração de vagas em novembro e dezembro tenha ficado aquém das expectativas.
A leitura foi suficiente para sustentar um movimento de alta nos principais índices: o Dow Jones avançou 0,5%, o S&P 500 subiu 0,6% e o Nasdaq ganhou 0,8%, configurando a melhor semana desde o fim de novembro. Parte relevante desse desempenho veio do segmento de tecnologia, impulsionados pela notícia de que a Meta firmou acordos para garantir fornecimento de energia nuclear a seus data centers, reforçando a narrativa de investimentos estruturais ligados à inteligência artificial.
Por trás do otimismo de curto prazo, contudo, o quadro estrutural inspira mais cautela. O ano de 2025 terminou como o pior para a criação de empregos fora de períodos de recessão desde 2003, com média mensal de apenas 49 mil novas vagas. A desaceleração foi disseminada: a indústria e os serviços profissionais perderam postos de trabalho, enquanto o crescimento ficou concentrado quase exclusivamente no setor de saúde.
Ainda assim, a combinação entre taxa de desemprego em queda e ausência de demissões em massa permite ao Federal Reserve manter, por ora, uma postura de juros estáveis, em um ambiente de crescimento mais lento, porém distante de um cenário de colapso econômico.
· 02:32 — Prejuízo à credibilidade do Banco Central
Procuradores federais iniciaram uma investigação contra o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, para apurar se ele teria prestado informações incorretas ao Congresso a respeito dos custos da reforma da sede do banco central. O próprio Powell confirmou que o Departamento de Justiça enviou intimações ao Fed e afirmou que enxerga a investigação como parte de um ambiente de pressão política crescente, especialmente por parte do governo Trump, que vem criticando reiteradamente o banco central por não reduzir os juros na velocidade desejada pela Casa Branca.
A repercussão foi imediata nos mercados. Os futuros das bolsas americanas recuaram, assim como o dólar, enquanto ativos considerados mais defensivos, como o ouro e o franco suíço, se valorizaram. O movimento reflete o receio dos investidores de que a autonomia do Federal Reserve esteja sendo colocada em xeque. Ao elevar a percepção de risco institucional nos Estados Unidos, o episódio reaviva a narrativa de “venda de ativos americanos” e traz preocupações adicionais sobre possíveis impactos no mercado de títulos e na condução da política monetária nos próximos meses.
· 03:25 — Haverá ou não o investimento?
Nos últimos dias, o presidente Donald Trump intensificou sua pressão sobre as grandes petrolíferas dos EUA para que considerem investir até US$ 100 bilhões na reconstrução do setor de petróleo venezuelano, como parte da estratégia americana após a queda de Nicolás Maduro e o controle parcial da produção do país. Durante uma reunião na Casa Branca com cerca de 20 executivos, Trump defendeu que empresas americanas aproveitem a oportunidade de revitalizar a infraestrutura local e gerar retornos significativos, sob a promessa de proteção e favorecimento do governo.
No entanto, a reação do setor tem sido cautelosa e conservadora. O CEO da ExxonMobil descreveu a Venezuela como “uninvestable” (inviável para investimentos) sem mudanças substanciais no quadro legal e de segurança, refletindo preocupações históricas como expropriações passadas e incertezas jurídicas. Até o momento, não foram anunciados compromissos financeiros robustos, e empresas de grande porte continuam reticentes diante dos elevados riscos e da necessidade de reformas profundas para tornar o país atrativo a aportes bilionários.
- Onde investir neste mês? Veja 10 ações em diferentes setores da economia para buscar lucros. Baixe o relatório gratuito aqui.
· 04:11 — Uma possível crise energética global
Os protestos contra o governo iraniano, iniciados no fim de dezembro a partir do agravamento da crise econômica, ganharam escala nacional e já atingem mais de uma centena de cidades. A resposta do regime tem sido dura: organizações de direitos humanos relatam centenas de mortes e milhares de prisões.
Diante da escalada, os Estados Unidos passaram a discutir alternativas de resposta mais firmes, que vão desde sanções adicionais e ações no campo cibernético até, em último caso, opções militares. Donald Trump declarou que acompanha a situação de perto e que já recebeu dos comandantes americanos diferentes cenários de atuação. O peso do Irã no tabuleiro global explica a atenção redobrada: o país controla o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo, possui grandes reservas de petróleo e gás e exerce influência regional relevante — fatores que transformam essa crise em um risco estrutural para a economia global.
A revolta popular, porém, não se resume à alta dos preços ou à desvalorização do Rial iraniano. Ela expressa um desgaste mais profundo com o regime teocrático instalado desde 1979, marcado por repressão política, isolamento internacional e fragilidades na gestão econômica. Nos últimos anos, a pressão aumentou com a combinação de sanções, crise hídrica e enfraquecimento de aliados regionais. Uma eventual transição de poder poderia, em tese, reduzir tensões geopolíticas, diminuir prêmios de risco no petróleo e trazer mais previsibilidade ao Oriente Médio. Mas o caminho até lá é incerto: o regime ainda controla as forças de segurança e pode optar por resistir com mais repressão, buscar uma saída negociada com alívio de sanções ou alternar entre essas estratégias. Por isso, o cenário permanece aberto — e com capacidade real de gerar impactos relevantes sobre mercados, energia e geopolítica nos próximos meses.
· 05:06 — Modo nuclear
A Meta anunciou acordos com a TerraPower, a Oklo e a Vistra para utilizar energia nuclear no abastecimento de seu data center de inteligência artificial Prometheus, em Ohio. Os contratos garantem acesso a até 6,6 gigawatts de energia nova e já existente até 2035 — volume equivalente ao consumo de aproximadamente 5 milhões de residências.
A decisão ilustra de forma clara a…