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Donald Trump será um dos principais protagonistas do Fórum Econômico Mundial em Davos, onde discursará na quarta-feira (21). Embora o tema central de sua fala deva ser a questão da crise do custo de vida, o pano de fundo é dominado pela crise envolvendo a Groenlândia. As ameaças do presidente de impor tarifas a oito países europeus elevaram significativamente a tensão geopolítica, pressionaram as bolsas, impulsionaram ativos de proteção como o ouro e enfraqueceram o dólar. Em paralelo, a Suprema Corte ganha ainda mais relevância ao analisar tanto a legalidade dessas tarifas quanto a tentativa de Trump de demitir uma diretora do Federal Reserve.
No campo macroeconômico, a China conseguiu cumprir a meta oficial de crescimento em 2025, mas os dados mais recentes indicam perda de fôlego, com consumo enfraquecido e agravamento da crise demográfica. A agenda global da semana é carregada: inclui divulgação de PIB e inflação nos Estados Unidos, decisão de política monetária do Banco do Japão, resultados de empresas como Intel e Netflix e, naturalmente, o Fórum de Davos.
Os mercados seguem operando em ambiente volátil: as bolsas europeias caem sob o peso das tarifas, a Ásia fechou mista após os dados chineses, o petróleo recua com a diminuição das tensões no Irã e os investidores seguem ajustando posições em meio a um cenário dominado por incertezas.
· 00:57 — Agenda fraca, mas a política ainda pode movimentar o humor dos investidores
No Brasil, a agenda econômica da semana é relativamente esvaziada, com poucos eventos capazes de mexer de forma mais relevante com os mercados. Entre os raros destaques estão os dados de arrecadação, mas, a princípio, sem potencial para gerar impacto significativo sobre os ativos de risco. Além disso, a semana começa com menor liquidez por conta do feriado nos Estados Unidos, o que tende a reduzir volumes e, em alguns momentos, amplificar movimentos pontuais de preço.
No front político-diplomático, os investidores repercutem a cerimônia de assinatura do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, realizada no sábado (17), no Paraguai, sem a presença do presidente Lula. A ausência foi interpretada como sinal de insatisfação do governo brasileiro por o acordo não ter sido fechado quando o Brasil presidia o bloco, no fim do ano passado, em Foz do Iguaçu. Ainda assim, do ponto de vista econômico, o acordo é positivo: o próprio governo estima um impacto de 0,34% sobre o PIB, algo em torno de R$ 37 bilhões. Vale lembrar, porém, que esse efeito não se materializa de forma imediata, mas de maneira gradual, ao longo de vários anos.
Em paralelo, o cenário político doméstico segue nos holofotes. No final de semana, voltaram a circular avaliações sobre a possibilidade de candidaturas mais competitivas estarem de fato no páreo, como a do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Por enquanto, trata-se mais de especulação do que de definição, mas, gradualmente, esse debate tende a ganhar peso na formação de preços dos ativos. Temos até março para essa definição Caso o mercado passe a enxergar uma chance real de vitória de um projeto com viés mais reformista, é natural esperar que isso se traduza em compressão de prêmios de risco e em melhor desempenho relativo dos ativos brasileiros.
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· 01:44 — Semana começa com feriado lá fora
Nos Estados Unidos, a semana é encurtada pelo feriado de Martin Luther King, nesta segunda-feira (19), depois de uma sexta-feira com desempenho fraco nos principais índices americanos. A exceção ficou por conta do Russell 2000, que avançou 2% e fechou em nível recorde, refletindo uma rotação dos investidores em direção às ações de menor capitalização — vistas como mais ligadas à economia doméstica e, portanto, mais sensíveis a um cenário que, até aqui, continua sem sinais claros de recessão. A temporada de resultados começou a ganhar tração, mas com leitura ainda mista.
O foco agora se volta para as próximas divulgações, com nomes como Netflix, Intel, Johnson & Johnson e, logo adiante, as grandes empresas de tecnologia. No campo macroeconômico, os destaques serão o índice de preços de despesas de consumo pessoal (PCE) e a revisão do PIB do terceiro trimestre. No plano político, cresce a incerteza sobre quem será o indicado por Trump para a presidência do Federal Reserve: Kevin Hassett perdeu força recentemente, enquanto o nome de Rick Rieder, da BlackRock, passou a ganhar espaço nas apostas de mercado. Sigo acreditando, entretanto, como venho dizendo há meses, que Kevin Warsh, ex-membro do Board do Fed, é hoje o melhor nome: consegue conciliar uma visão marginalmente mais dovish com uma postura ainda sóbria, disciplinada e ancorada em um framework técnico claro.
· 02:39 — Passeio por Davos
O Fórum Econômico Mundial dá início à sua 56ª reunião anual em Davos, reunindo cerca de 3 mil participantes de mais de 130 países, entre chefes de Estado, autoridades e líderes empresariais. O encontro ocorre em um momento de elevada complexidade global e tem como pano de fundo os principais desafios econômicos, tecnológicos e geopolíticos da atualidade. Um dos grandes focos de atenção será a presença do presidente Donald Trump, que participa presencialmente e tende a influenciar de forma relevante o tom das discussões, levando para Davos sua agenda centrada em comércio, tarifas e uma visão mais assertiva de interesse nacional — em contraste com a tradição do Fórum de estimular consensos e cooperação multilateral.
A programação inclui debates amplos sobre crescimento econômico, cadeias globais de valor, transição energética e, sobretudo, inteligência artificial, tema que atravessa praticamente todas as agendas setoriais. Questões ligadas à inovação responsável, ao impacto da tecnologia sobre o emprego e à necessidade de regras mais claras para o uso da IA estarão no centro das conversas. Ao mesmo tempo, os líderes discutirão como preservar algum grau de cooperação em um mundo cada vez mais fragmentado, marcado por disputas geopolíticas, tensões comerciais e mudanças rápidas na ordem internacional — um cenário que torna o diálogo mais difícil, mas sempre necessário.
· 03:22 — Eleições antecipadas
No Japão, Sanae Takaichi despontou como uma líder bem popular, com índices de aprovação ao redor de 70%. Esse desempenho tornava bastante atraente a estratégia de convocar uma eleição antecipada em fevereiro para tentar consolidar seu poder e ampliar a base do Partido Liberal Democrático (PLD), de centro-direita. No entanto, a fusão do Partido Democrático Constitucional (centro-esquerda) com o Komeito (centro) — antigo aliado do PLD e conhecido por sua forte capacidade de mobilização eleitoral — passou a ameaçar esse plano. O movimento do Komeito pode custar um número relevante de cadeiras ao partido de Takaichi, reduzindo sua margem de manobra.
Ao mesmo tempo, a política japonesa atravessa um processo de fragmentação, com o fortalecimento de siglas menores. O Sanseito, de direita, ganhou espaço com um discurso nacionalista, enquanto o Partido Democrático para o Povo (centro-direita) avança ao centrar sua mensagem no aumento da renda disponível das famílias. Diante desse ambiente mais competitivo, Takaichi busca construir uma imagem pessoal que transcenda as linhas partidárias, apostando em uma comunicação mais direta. O resultado é um cenário marcado por alianças instáveis e por uma política muito personalizada, o que torna o comportamento do eleitor mais difícil de prever e faz desta a eleição mais imprevisível dos últimos anos — desfechos vão desde a consolidação de Takaichi até a abertura de um período prolongado de incerteza na política japonesa.
· 04:16 — Escalada de tensão
A escalada de tensão em torno da Groenlândia — e o risco de uma fissura política dentro da OTAN — voltou a entrar no radar dos investidores em um momento delicado. Com o aumento da incerteza, vimos um movimento clássico de redução de risco: as bolsas europeias recuaram, os futuros do S&P 500 caíram, o dólar perdeu força frente a várias moedas e os metais preciosos funcionaram como refúgio, com ouro e prata renovando recordes. O quadro ganhou mais relevância após Donald Trump anunciar a intenção de impor tarifas a oito países europeus que se opõem à ideia de os EUA adquirirem a Groenlândia — incluindo França, Alemanha e Reino Unido —, provocando reações mais duras de lideranças europeias e reabrindo questionamentos sobre a continuidade e a aprovação do acordo comercial firmado no ano passado.
Pelo desenho apresentado, Trump pretende iniciar tarifas de 10% a partir de 1º de fevereiro, com possibilidade de elevação para 25% em junho caso não haja um entendimento ligado à questão da Groenlândia. A União Europeia, por sua vez, passou a estruturar um pacote de resposta que pode chegar a € 93 bilhões em tarifas sobre produtos americanos, além de considerar o uso de instrumentos adicionais de pressão comercial, como mecanismos anticorreção. Até aqui, os mercados vinham atravessando o segundo mandato de Trump com relativa resiliência, mas a combinação de risco geopolítico crescente e preços de ativos mais “esticados” coloca em teste a disposição dos investidores. E o debate europeu não se limita a tarifas: há também discussões sobre contramedidas financeiras, incluindo a possibilidade de reduzir participações em ativos americanos — um movimento que poderia dar suporte ao euro. Vale lembrar que a Europa é a maior credora dos Estados Unidos, com cerca de US$ 8 trilhões em títulos e ações americanas, o que torna esse vetor particularmente sensível.
· 05:03 — Reformulação
O Google anunciou uma reformulação profunda do Gmail ao integrar diretamente o Gemini, sua plataforma de inteligência artificial. A novidade inclui uma caixa de entrada opcional capaz de priorizar mensagens consideradas mais importantes…