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A semana foi marcada por forte instabilidade nos mercados, com os investidores tentando encontrar algum ponto de equilíbrio enquanto aguardam os próximos desdobramentos da guerra ao longo do fim de semana. O petróleo seguiu em verdadeira montanha-russa: depois de quase tocar US$ 120 por barril na quinta-feira, o Brent recuou para a faixa de US$ 108 a US$ 109, apoiado por declarações de Benjamin Netanyahu de que Israel não pretende mais atacar a infraestrutura energética, de que ajudará os Estados Unidos na tentativa de reabrir o Estreito de Ormuz e de que a guerra pode terminar antes do que muitos imaginam.
Também contribuíram para esse alívio momentâneo as falas do secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, que mencionou a possibilidade de flexibilização das sanções sobre petróleo iraniano retido em navios-tanque, eventual liberação adicional de reservas estratégicas e, ainda, a licença americana para a venda de petróleo russo já embarcado. Ainda assim, esse alívio parece bastante frágil.
Ao mesmo tempo, o pano de fundo macroeconômico ficou ainda mais desafiador. Os principais bancos centrais do mundo entraram em modo de cautela máxima: Fed, BCE, Banco da Inglaterra, Banco do Japão, PBoC e outras autoridades monetárias mantiveram os juros inalterados, com o banco central chinês se tornando o oitavo a não alterar a taxa desde quarta-feira. Nos mercados, a reação foi de direção dispersa: Ásia mais fraca, Europa levemente positiva e futuros americanos mistos.
· 00:53 — Sem greve…
No Brasil, o noticiário trouxe algum alívio de curto prazo. Os caminhoneiros decidiram suspender por uma semana a ameaça de greve nacional enquanto negociam com o governo federal a aplicação da medida provisória que endurece a fiscalização do piso mínimo do frete e prevê multas elevadas para empresas que descumprirem a tabela. Ao mesmo tempo, a equipe econômica propôs aos estados uma redução do ICMS sobre o diesel importado, com compensação parcial da União, numa tentativa de suavizar a alta dos combustíveis, embora a medida ainda enfrente resistência política por parte dos governadores e dependa de discussão no Confaz. Em paralelo, ajudou também o alívio vindo do exterior, após as declarações de Benjamin Netanyahu de que Israel não pretende mais atacar infraestrutura energética. Com isso, o Ibovespa voltou a superar os 180 mil pontos e o dólar recuou para R$ 5,21. O movimento, no entanto, ajuda a ilustrar o quão frágil segue o equilíbrio atual: os ativos continuam bastante sensíveis, e mesmo sinalizações positivas ainda limitadas já são suficientes para produzir algum alívio tático como o que vimos ontem.
Ainda assim, o ambiente permanece longe de uma verdadeira tranquilidade. O mercado segue ansioso pela ata do Copom, na próxima semana, que poderá esclarecer melhor como o Banco Central está avaliando os próximos passos da política monetária em um contexto de petróleo elevado, incerteza externa e ruído doméstico. No campo político, Fernando Haddad foi lançado como pré-candidato ao governo de São Paulo, acrescentando uma nova camada de rearranjo a um ambiente já delicado. Com isso, ele deixaria o Ministério da Fazenda, abrindo espaço para a ascensão de Dario Durigan, hoje secretário-executivo da pasta. A eventual transição ocorre em um momento especialmente sensível, já que o principal desafio seguirá sendo conter a expansão dos gastos públicos e preservar alguma disciplina fiscal, tarefa que tende a se tornar ainda mais difícil à medida que o calendário eleitoral se aproxima.
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· 01:47 — Só no ano que vem
Nos EUA, o mercado viveu ontem mais um pregão dominado pelo petróleo e pela guerra com o Irã: Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq fecharam em queda pelo segundo dia consecutivo, embora tenham amenizado as perdas no fim da sessão após o Brent recuar de perto dos US$ 120 para abaixo dos US$ 110. Ainda assim, o pano de fundo segue bastante desconfortável. O conflito não apenas mantém elevada a pressão sobre os preços de energia, mas também começa a contaminar cadeias globais de suprimento muito além do petróleo, ampliando o risco de inflação mais persistente e de desaceleração econômica. Esse quadro encontra um Federal Reserve claramente mais duro: Powell praticamente afastou a possibilidade de cortes de juros enquanto durar a guerra e a desinflação não voltar a avançar de forma convincente. Como consequência, a curva de juros já postergou a retomada do ciclo de cortes para o ano que vem, reforçando a percepção de que o investidor americano agora enfrenta uma combinação indigesta de energia cara, juros altos por mais tempo e atividade sob pressão.
· 02:31 — Tom duro
Desde quarta-feira, o G4 dos bancos centrais (Federal Reserve, Banco do Japão, Banco da Inglaterra e Banco Central Europeu) concluiu suas decisões de política monetária e, embora nenhum deles tenha elevado os juros, o tom adotado foi claramente mais duro. A guerra no Irã e a alta da energia começam a contaminar as expectativas inflacionárias e tornam o ambiente global mais delicado para qualquer flexibilização monetária. Na Europa, isso ficou particularmente evidente: se o choque de energia continuar deteriorando a inflação e desancorando expectativas, uma alta de juros já no próximo mês pode entrar no radar do BCE, relembrando o precedente da inflação pós-invasão da Ucrânia em 2022. O BCE manteve a taxa de depósito em 2%, mas já admite cenários em que o conflito empurre a inflação muito acima da meta, inclusive com projeção de 6,3% no início de 2027, acompanhada de uma breve recessão na zona do euro. No Reino Unido, o Banco da Inglaterra também manteve os juros em 3,75%, mas com voto unânime e mensagem firme de que está pronto para agir caso o choque de energia se torne mais persistente, a ponto de o mercado já passar a embutir 75 pontos-base de alta à frente. Em outras palavras, mesmo sem subir juros agora, os grandes bancos centrais sinalizam que o choque geopolítico piorou o balanço de riscos. E isso, naturalmente, não é uma boa notícia para os ativos de risco.
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· 03:24 — Sem previsão para acabar
A guerra com o Irã se intensificou de forma relevante nos últimos dias: após Israel atacar um campo de gás iraniano, Teerã respondeu com um ataque ao complexo de Ras Laffan, no Catar, causando danos extensos à maior planta de GNL do mundo. Duas instalações responsáveis por cerca de 17% das exportações de GNL do país, ou algo como 13 milhões de toneladas por ano, foram afetadas e podem levar de três a cinco anos para serem reparadas. Ao mesmo tempo, surgiu uma aparente divergência entre Benjamin Netanyahu e Donald Trump sobre o grau de conhecimento prévio de Washington em relação aos ataques à infraestrutura energética, enquanto o Pentágono já busca cerca de US$ 200 bilhões adicionais para financiar a guerra, depois de um conflito que já consumia aproximadamente US$ 12 bilhões até o último domingo, perto de US$ 1 bilhão por dia — em meio a um Congresso inquieto com a dimensão da operação. Ainda estamos dentro do prazo dado pela Casa Branca de quatro a seis semanas para o fim do conflito, mas a falta de previsibilidade incomoda.
O problema é que a guerra segue longe de uma solução e já produz efeitos econômicos globais muito mais amplos do que apenas a alta do petróleo. Com o Estreito de Ormuz travado e sem plano para reabri-lo rapidamente, os EUA enfrentam um problema estratégico e político para Trump: os objetivos da guerra não estão claros, os custos aumentam, não há um culpado fácil a quem transferir o desgaste e Washington não parece ter capacidade de forçar uma normalização rápida sem uma escalada muito maior. Enquanto isso, o impacto já se espalha por cadeias globais de suprimento: além de petróleo e gás, ficam ameaçados fertilizantes, tecidos sintéticos, hélio para semicondutores, autopeças, embalagens e diversos outros insumos, o que remete a um choque em cascata semelhante, em lógica, aos primeiros momentos da pandemia. Em resumo, o cenário aponta para mais algumas semanas de conflito, efeitos inflacionários disseminados e danos econômicos que podem continuar se propagando por meses a depender da demora para o fim do conflito.
· 04:12 — Quem está ganhando com essa guerra?
As medidas emergenciais de EUA e AIE, como a autorização temporária para venda de petróleo russo já embarcado e a ampliação da liberação de reservas estratégicas para 426 milhões de barris, trouxeram apenas um alívio momentâneo a um mercado ainda extremamente volátil, já que o Estreito de Ormuz segue sem normalização efetiva. Nesse contexto, o grande vencedor geopolítico inesperado é a Rússia: com o Brent perto de US$ 100, o petróleo russo voltou a ganhar valor, o alívio parcial das sanções reduz a pressão sobre o Kremlin e melhora substancialmente a situação fiscal de Moscou, enfraquecendo o argumento de que a deterioração econômica forçaria concessões na guerra da Ucrânia.
Ao mesmo tempo, a guerra com o Irã desloca a atenção e os recursos do Ocidente, piorando a posição ucraniana no campo militar e diplomático. Sistemas de defesa aérea passam a ser redirecionados ao Golfo, a pressão por negociações com Moscou esfria, as sanções perdem força política e Putin ganha tempo, caixa e espaço para manter exigências máximas. Mesmo sem se envolver diretamente no conflito, a Rússia colhe os dividendos de uma guerra que desgasta os EUA, expõe fragilidades da coordenação ocidental e reforça a percepção, cara ao Kremlin, de que o poder americano tem limites práticos quando confrontado por choques assimétricos prolongados.
· 05:08 — Não tem reagido
Na conferência GTC desta semana, a Nvidia entregou praticamente tudo o que Wall Street queria ouvir: Jensen Huang reforçou a ideia de que a empresa é uma plataforma completa para IA — não apenas uma fabricante de GPUs, mas uma companhia verticalmente integrada e capaz de operar com qualquer infraestrutura tecnológica. O grande destaque foi a projeção de que as vendas ligadas aos chips de IA podem atingir pelo menos US$ 1 trilhão até 2027, número que, mesmo restrito às plataformas Blackwell, Rubin, redes e CPUs associadas, ainda assim veio acima do que o mercado embutia nas estimativas.
Ainda assim, a reação das ações mostrou um padrão curioso que vem se repetindo: mesmo diante de notícias muito fortes, o papel tem dificuldade de sustentar altas. As ações chegaram a subir durante a apresentação, mas devolveram os ganhos e encerraram abaixo do nível em que estavam no início do evento.
Em outras palavras, a Nvidia continua entregando fundamentos impressionantes, mas o mercado parece cada vez mais exigente, como se resultados excelentes já fossem tratados como obrigação, e não mais como surpresa positiva. Para o investidor, esse tipo de comportamento (perda momentânea de fôlego) pode abrir uma boa janela para construir ou reforçar posição nas BDRs NVDC34, como forma prática de se expor a uma das teses centrais da revolução de IA.