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Investimentos

Ibovespa hoje: caminhoneiros suspendem ameaça de greve, mas petróleo segue em montanha-russa; veja os destaques da sexta (20)

Os investidores estão tentando encontrar algum ponto de equilíbrio em vista dos desdobramentos da guerra. Leia mais.

Por Matheus Spiess

20 mar 2026, 10:00

BOLSA DE VALORES IBOVESPA mercado (1) europa

Imagem: iStock/ solarseven

A semana foi marcada por forte instabilidade nos mercados, com os investidores tentando encontrar algum ponto de equilíbrio enquanto aguardam os próximos desdobramentos da guerra ao longo do fim de semana. O petróleo seguiu em verdadeira montanha-russa: depois de quase tocar US$ 120 por barril na quinta-feira, o Brent recuou para a faixa de US$ 108 a US$ 109, apoiado por declarações de Benjamin Netanyahu de que Israel não pretende mais atacar a infraestrutura energética, de que ajudará os Estados Unidos na tentativa de reabrir o Estreito de Ormuz e de que a guerra pode terminar antes do que muitos imaginam.

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Também contribuíram para esse alívio momentâneo as falas do secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, que mencionou a possibilidade de flexibilização das sanções sobre petróleo iraniano retido em navios-tanque, eventual liberação adicional de reservas estratégicas e, ainda, a licença americana para a venda de petróleo russo já embarcado. Ainda assim, esse alívio parece bastante frágil.

Ao mesmo tempo, o pano de fundo macroeconômico ficou ainda mais desafiador. Os principais bancos centrais do mundo entraram em modo de cautela máxima: Fed, BCE, Banco da Inglaterra, Banco do Japão, PBoC e outras autoridades monetárias mantiveram os juros inalterados, com o banco central chinês se tornando o oitavo a não alterar a taxa desde quarta-feira. Nos mercados, a reação foi de direção dispersa: Ásia mais fraca, Europa levemente positiva e futuros americanos mistos.

· 00:53 — Sem greve…

No Brasil, o noticiário trouxe algum alívio de curto prazo. Os caminhoneiros decidiram suspender por uma semana a ameaça de greve nacional enquanto negociam com o governo federal a aplicação da medida provisória que endurece a fiscalização do piso mínimo do frete e prevê multas elevadas para empresas que descumprirem a tabela. Ao mesmo tempo, a equipe econômica propôs aos estados uma redução do ICMS sobre o diesel importado, com compensação parcial da União, numa tentativa de suavizar a alta dos combustíveis, embora a medida ainda enfrente resistência política por parte dos governadores e dependa de discussão no Confaz. Em paralelo, ajudou também o alívio vindo do exterior, após as declarações de Benjamin Netanyahu de que Israel não pretende mais atacar infraestrutura energética. Com isso, o Ibovespa voltou a superar os 180 mil pontos e o dólar recuou para R$ 5,21. O movimento, no entanto, ajuda a ilustrar o quão frágil segue o equilíbrio atual: os ativos continuam bastante sensíveis, e mesmo sinalizações positivas ainda limitadas já são suficientes para produzir algum alívio tático como o que vimos ontem.

Ainda assim, o ambiente permanece longe de uma verdadeira tranquilidade. O mercado segue ansioso pela ata do Copom, na próxima semana, que poderá esclarecer melhor como o Banco Central está avaliando os próximos passos da política monetária em um contexto de petróleo elevado, incerteza externa e ruído doméstico. No campo político, Fernando Haddad foi lançado como pré-candidato ao governo de São Paulo, acrescentando uma nova camada de rearranjo a um ambiente já delicado. Com isso, ele deixaria o Ministério da Fazenda, abrindo espaço para a ascensão de Dario Durigan, hoje secretário-executivo da pasta. A eventual transição ocorre em um momento especialmente sensível, já que o principal desafio seguirá sendo conter a expansão dos gastos públicos e preservar alguma disciplina fiscal, tarefa que tende a se tornar ainda mais difícil à medida que o calendário eleitoral se aproxima.

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· 01:47 — Só no ano que vem

Nos EUA, o mercado viveu ontem mais um pregão dominado pelo petróleo e pela guerra com o Irã: Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq fecharam em queda pelo segundo dia consecutivo, embora tenham amenizado as perdas no fim da sessão após o Brent recuar de perto dos US$ 120 para abaixo dos US$ 110. Ainda assim, o pano de fundo segue bastante desconfortável. O conflito não apenas mantém elevada a pressão sobre os preços de energia, mas também começa a contaminar cadeias globais de suprimento muito além do petróleo, ampliando o risco de inflação mais persistente e de desaceleração econômica. Esse quadro encontra um Federal Reserve claramente mais duro: Powell praticamente afastou a possibilidade de cortes de juros enquanto durar a guerra e a desinflação não voltar a avançar de forma convincente. Como consequência, a curva de juros já postergou a retomada do ciclo de cortes para o ano que vem, reforçando a percepção de que o investidor americano agora enfrenta uma combinação indigesta de energia cara, juros altos por mais tempo e atividade sob pressão.

· 02:31 — Tom duro

Desde quarta-feira, o G4 dos bancos centrais (Federal Reserve, Banco do Japão, Banco da Inglaterra e Banco Central Europeu) concluiu suas decisões de política monetária e, embora nenhum deles tenha elevado os juros, o tom adotado foi claramente mais duro. A guerra no Irã e a alta da energia começam a contaminar as expectativas inflacionárias e tornam o ambiente global mais delicado para qualquer flexibilização monetária. Na Europa, isso ficou particularmente evidente: se o choque de energia continuar deteriorando a inflação e desancorando expectativas, uma alta de juros já no próximo mês pode entrar no radar do BCE, relembrando o precedente da inflação pós-invasão da Ucrânia em 2022. O BCE manteve a taxa de depósito em 2%, mas já admite cenários em que o conflito empurre a inflação muito acima da meta, inclusive com projeção de 6,3% no início de 2027, acompanhada de uma breve recessão na zona do euro. No Reino Unido, o Banco da Inglaterra também manteve os juros em 3,75%, mas com voto unânime e mensagem firme de que está pronto para agir caso o choque de energia se torne mais persistente, a ponto de o mercado já passar a embutir 75 pontos-base de alta à frente. Em outras palavras, mesmo sem subir juros agora, os grandes bancos centrais sinalizam que o choque geopolítico piorou o balanço de riscos. E isso, naturalmente, não é uma boa notícia para os ativos de risco.

· 03:24 — Sem previsão para acabar

A guerra com o Irã se intensificou de forma relevante nos últimos dias: após Israel atacar um campo de gás iraniano, Teerã respondeu com um ataque ao complexo de Ras Laffan, no Catar, causando danos extensos à maior planta de GNL do mundo. Duas instalações responsáveis por cerca de 17% das exportações de GNL do país, ou algo como 13 milhões de toneladas por ano, foram afetadas e podem levar de três a cinco anos para serem reparadas. Ao mesmo tempo, surgiu uma aparente divergência entre Benjamin Netanyahu e Donald Trump sobre o grau de conhecimento prévio de Washington em relação aos ataques à infraestrutura energética, enquanto o Pentágono já busca cerca de US$ 200 bilhões adicionais para financiar a guerra, depois de um conflito que já consumia aproximadamente US$ 12 bilhões até o último domingo, perto de US$ 1 bilhão por dia — em meio a um Congresso inquieto com a dimensão da operação. Ainda estamos dentro do prazo dado pela Casa Branca de quatro a seis semanas para o fim do conflito, mas a falta de previsibilidade incomoda.

O problema é que a guerra segue longe de uma solução e já produz efeitos econômicos globais muito mais amplos do que apenas a alta do petróleo. Com o Estreito de Ormuz travado e sem plano para reabri-lo rapidamente, os EUA enfrentam um problema estratégico e político para Trump: os objetivos da guerra não estão claros, os custos aumentam, não há um culpado fácil a quem transferir o desgaste e Washington não parece ter capacidade de forçar uma normalização rápida sem uma escalada muito maior. Enquanto isso, o impacto já se espalha por cadeias globais de suprimento: além de petróleo e gás, ficam ameaçados fertilizantes, tecidos sintéticos, hélio para semicondutores, autopeças, embalagens e diversos outros insumos, o que remete a um choque em cascata semelhante, em lógica, aos primeiros momentos da pandemia. Em resumo, o cenário aponta para mais algumas semanas de conflito, efeitos inflacionários disseminados e danos econômicos que podem continuar se propagando por meses a depender da demora para o fim do conflito.

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· 04:12 — Quem está ganhando com essa guerra?

As medidas emergenciais de EUA e AIE, como a autorização temporária para venda de petróleo russo já embarcado e a ampliação da liberação de reservas estratégicas para 426 milhões de barris, trouxeram apenas um alívio momentâneo a um mercado ainda extremamente volátil, já que o Estreito de Ormuz segue sem normalização efetiva. Nesse contexto, o grande vencedor geopolítico inesperado é a Rússia: com o Brent perto de US$ 100, o petróleo russo voltou a ganhar valor, o alívio parcial das sanções reduz a pressão sobre o Kremlin e melhora substancialmente a situação fiscal de Moscou, enfraquecendo o argumento de que a deterioração econômica forçaria concessões na guerra da Ucrânia.

Ao mesmo tempo, a guerra com o Irã desloca a atenção e os recursos do Ocidente, piorando a posição ucraniana no campo militar e diplomático. Sistemas de defesa aérea passam a ser redirecionados ao Golfo, a pressão por negociações com Moscou esfria, as sanções perdem força política e Putin ganha tempo, caixa e espaço para manter exigências máximas. Mesmo sem se envolver diretamente no conflito, a Rússia colhe os dividendos de uma guerra que desgasta os EUA, expõe fragilidades da coordenação ocidental e reforça a percepção, cara ao Kremlin, de que o poder americano tem limites práticos quando confrontado por choques assimétricos prolongados.

· 05:08 — Não tem reagido

Na conferência GTC desta semana, a Nvidia entregou praticamente tudo o que Wall Street queria ouvir: Jensen Huang reforçou a ideia de que a empresa é uma plataforma completa para IA — não apenas uma fabricante de GPUs, mas uma companhia verticalmente integrada e capaz de operar com qualquer infraestrutura tecnológica. O grande destaque foi a projeção de que as vendas ligadas aos chips de IA podem atingir pelo menos US$ 1 trilhão até 2027, número que, mesmo restrito às plataformas Blackwell, Rubin, redes e CPUs associadas, ainda assim veio acima do que o mercado embutia nas estimativas.

Ainda assim, a reação das ações mostrou um padrão curioso que vem se repetindo: mesmo diante de notícias muito fortes, o papel tem dificuldade de sustentar altas. As ações chegaram a subir durante a apresentação, mas devolveram os ganhos e encerraram abaixo do nível em que estavam no início do evento.

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Em outras palavras, a Nvidia continua entregando fundamentos impressionantes, mas o mercado parece cada vez mais exigente, como se resultados excelentes já fossem tratados como obrigação, e não mais como surpresa positiva. Para o investidor, esse tipo de comportamento (perda momentânea de fôlego) pode abrir uma boa janela para construir ou reforçar posição nas BDRs NVDC34, como forma prática de se expor a uma das teses centrais da revolução de IA.

Estudou finanças na University of Regina, no Canadá, tendo concluído lá parte de sua graduação em economia. Pós-graduado em finanças pelo Insper. Trabalhou em duas das maiores casas de análise de investimento do Brasil, além de ter feito parte da equipe de modelagem financeira de uma boutique voltada para fusões e aquisições. Trabalha hoje no time de analistas da Empiricus, sendo responsável, entre outras coisas, por análises macroeconômicas e políticas, além de cobrir estratégias de alocação. É analista com certificação CNPI.