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Investimentos

Ibovespa hoje: cessar-fogo frágil no Oriente Médio e ata do Fed movimentam mercados nesta quinta (9)

No último pregão, o Ibovespa registrou forte alta de 2,09% e alcançou os inéditos 192 mil pontos no fechamento

Por Matheus Spiess

09 abr 2026, 10:16

Atualizado em 09 abr 2026, 10:28

Livro Bege Fed - Mercado cripto bitcoin

Os mercados globais seguem reagindo ao cessar-fogo temporário entre Estados Unidos e Irã com uma combinação de alívio e cautela. Embora o anúncio tenha, em um primeiro momento, impulsionado os ativos de risco e provocado uma queda relevante nos preços do petróleo, a trégua rapidamente passou a exibir sinais claros de fragilidade. Acusações mútuas de violações, a continuidade de ataques, especialmente no Líbano, e a manutenção, na prática, do bloqueio no Estreito de Ormuz reforçam a percepção de que o acordo está longe de ser robusto.

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À medida que os dias avançam, o otimismo inicial dá lugar a um ambiente mais volátil. O petróleo volta a subir, as bolsas começam a devolver parte dos ganhos recentes e cresce a leitura de que o cessar-fogo representa, sobretudo, uma pausa tática — e não uma solução definitiva. Ao mesmo tempo, as negociações entre Estados Unidos e Irã avançam de forma incerta, enquanto a presença militar americana na região e as divergências sobre os termos do acordo continuam a alimentar a instabilidade.

Em paralelo, indicadores econômicos e a ata do Federal Reserve ganham relevância, em um contexto no qual o choque de energia pode pressionar a inflação e influenciar a trajetória dos juros. O resultado é um cenário global ainda bastante sensível aos desdobramentos geopolíticos, exigindo atenção redobrada por parte dos investidores.

· 00:57 — Surfando a melhora de percepção (e colhendo a eventual piora)

No Brasil, o Ibovespa registrou forte alta na sessão de ontem, avançando 2,09% e alcançando os inéditos 192 mil pontos, novo recorde de fechamento, impulsionado, em grande medida, pelo alívio momentâneo no cenário geopolítico.

No mesmo movimento, o dólar recuou para os R$ 5,10 — o menor patamar desde 17 de maio de 2024. Em essência, surfamos a melhora do humor externo proporcionada pelo frágil cessar-fogo, assim como devemos estar preparados para eventuais correções, caso o investidor estrangeiro volte a adotar uma postura mais cautelosa.

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Na agenda doméstica, enquanto aguardamos a divulgação do dado de inflação de março, sobre o qual o viés segue pouco animador, o mercado acompanha a fala do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, além dos dados de produção industrial regional de fevereiro, que mostraram expansão em 11 dos 15 locais pesquisados frente a janeiro.

No agregado, a produção industrial nacional avançou 0,9% no mês. Ao mesmo tempo, a queda do dólar tende a atenuar, na margem, os impactos da alta do petróleo sobre os preços, embora o cenário ainda esteja longe de ser confortável, o que ajuda a explicar a manutenção de expectativas inflacionárias elevadas.

Diante desse quadro, o governo acelerou um conjunto de medidas para conter os efeitos da alta do petróleo, combinando ações de curto prazo, como desonerações, crédito subsidiado e apoio a setores mais sensíveis, como o de aviação, com iniciativas de caráter mais estrutural, como o aumento da mistura de etanol na gasolina e de biodiesel no diesel.

A intenção é reduzir a dependência de combustíveis fósseis e suavizar a pressão sobre os preços internos. Ainda assim, a leitura predominante é de que essas medidas têm caráter essencialmente paliativo e podem, no limite, gerar custos fiscais adicionais no curto prazo, postergando parte do ajuste e elevando a conta a ser enfrentada adiante, especialmente a partir de 2027.

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· 01:46 — Dia de ata e inflação

Nos Estados Unidos, a ata mais recente do Federal Reserve reforçou uma postura mais cautelosa por parte da autoridade monetária. Embora o cenário-base ainda aponte para um número bastante limitado de cortes de juros, se é que há espaço para que eles aconteçam, diversos membros do Fed já passaram a discutir de forma aberta a possibilidade de novas alto caso a inflação volte a ganhar tração, especialmente em um contexto de pressão adicional oriunda da guerra sobre os preços de energia.

A leitura predominante é de que os riscos aumentaram em ambas as frentes do mandato da instituição: de um lado, a inflação pode levar mais tempo para convergir à meta de 2%; de outro, o mercado de trabalho começa a dar sinais de maior vulnerabilidade. Isso coloca o banco central americano em uma posição particularmente delicada.

Esse diagnóstico ganha ainda mais relevância à luz dos dados de inflação, com o PCE, principal indicador monitorado pelo Fed, projetado ao redor de 2,8% no índice cheio e de 3% no núcleo, níveis que permanecem acima do objetivo perseguido pela autoridade monetária.

Em outras palavras, mesmo com algum alívio pontual proporcionado pela queda do petróleo após o cessar-fogo, o quadro inflacionário segue pressionado e longe de permitir conforto. Isso ajuda a explicar por que o Fed tende a adotar uma postura de espera, mantendo os juros em patamar elevado por mais tempo enquanto observa os desdobramentos da guerra e seus efeitos sobre a atividade e os preços.

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Para o investidor, o ciclo de flexibilização monetária nos EUA deve se mostrar mais lento, mais gradual e mais incerto do que se imaginava.

· 02:32 — Um cessar-fogo muito frágil

O cessar-fogo de duas semanas entre Estados Unidos e Irã, que em um primeiro momento trouxe alívio expressivo aos mercados, rapidamente se revelou frágil e permeado por contradições. Autoridades iranianas passaram a denunciar violações relevantes do acordo, incluindo incursões militares e a presença de drones em seu território, enquanto divergências entre os próprios protagonistas da crise, como as declarações por vezes inconsistentes de Donald Trump e a continuidade de tensões envolvendo Israel e o Hezbollah no Líbano, reforçam a percepção de que a trégua está longe de repousar sobre bases robustas, como já indiquei aqui neste espaço.

Assim, embora a reação inicial dos mercados tenha sido bastante positiva, com queda acentuada do petróleo e alta das bolsas, o quadro concreto no terreno permanece tensionado: o Estreito de Ormuz continua, na prática, amplamente disfuncional, mais de 800 navios seguem retidos na região e o fluxo de petróleo ainda não foi normalizado, preservando o risco de novas interrupções no abastecimento global de energia.

Com o passar dos dias, o entusiasmo inicial deve ceder espaço para uma postura mais cautelosa. O petróleo voltou a subir, em meio a projeções de preços ainda elevados ao longo do ano, e os mercados começaram a devolver parte dos ganhos recentes.

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O encontro entre o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, e autoridades iranianas marca um evento raro e significativo: trata-se da reunião de mais alto nível entre os dois países desde a Revolução Islâmica de 1979, quando as relações diplomáticas foram rompidas. É verdade que ainda existem sinais construtivos, como a possibilidade de negociações diretas e a redução pontual de alguns ataques, mas a presença militar americana na região, a distância entre as propostas em discussão e o risco permanente de uma nova escalada continuam impondo prudência.

Para o investidor, o ponto central aqui é entender o contexto: esse tipo de diálogo não surge em um ambiente estável, mas justamente em um mundo mais fragmentado, tenso e conflituoso, no qual rivais estratégicos alternam momentos de confronto com tentativas pontuais de distensão. Em outras palavras, a guerra no sentido amplo tende a continuar existindo, mas de forma mais intermitente, com episódios de escalada sendo seguidos por pausas táticas e negociações. Esse padrão, longe de indicar resolução definitiva, reforça a ideia de um ambiente global mais volátil e menos previsível, no qual choques e alívios passam a conviver como parte do mesmo ciclo.

· 03:25 — O próximo alvo da Casa Branca

Nos Estados Unidos, voltou a ganhar tração o debate em torno de uma eventual saída da OTAN por parte de Donald Trump. Do ponto de vista institucional, esse movimento parece hoje pouco provável: desde 2023, passou a ser necessária a aprovação do Congresso americano para que o país se desligue formalmente da aliança, em uma iniciativa desenhada justamente para blindar a organização contra uma decisão unilateral do Executivo.

Ainda assim, o simples fato de essa hipótese voltar ao centro das discussões já carrega implicações relevantes. Ao longo dos últimos anos, Trump tem reiterado críticas à OTAN, questionando sua utilidade estratégica e pressionando aliados por maior comprometimento em defesa. Essa postura voltou a se manifestar, inclusive no contexto de seu encontro com o secretário-geral Mark Rutte, realizado logo depois de o presidente ter classificado a aliança como um “tigre de papel”.

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Esse ruído está longe de ser trivial. Na prática, os Estados Unidos constituem o principal alicerce militar, financeiro e político da OTAN. Por isso, qualquer sinal de distanciamento, ainda que não se converta em uma saída formal, já basta para fragilizar a percepção de coesão do grupo.

Em paralelo, cresce a pressão de Washington para que os aliados europeus assumam compromissos mais concretos, inclusive no que diz respeito à segurança do Estreito de Ormuz, o que revela uma mudança de postura: menos ênfase na lógica tradicional de coordenação e mais cobrança direta por execução. Esse ambiente tem produzido atritos adicionais dentro da aliança, especialmente em um momento no qual diversos países europeus já demonstram desconforto com decisões americanas em matérias geopolíticas.

· 04:11 — Um censo de grandes proporções

A Índia, hoje o país mais populoso do mundo, está dando início a um censo de dimensões extraordinárias, com o objetivo de mapear de forma mais precisa a composição e as condições de vida de uma população estimada em mais de 1,4 bilhão de pessoas.

Pela primeira vez, além das visitas presenciais dos recenseadores, os cidadãos também poderão enviar suas informações por meio de um aplicativo, o que adiciona um componente de modernização relevante a esse processo. O levantamento será realizado em duas etapas: a primeira voltada à contagem da população e da infraestrutura existente; a segunda, dedicada à coleta de informações econômicas e sociais mais detalhadas, como renda, qualidade de vida e, também pela primeira vez desde a independência do país, dados sobre casta.

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Esse ponto merece atenção especial, já que o sistema de castas, embora historicamente enraizado na sociedade indiana, continua influenciando o acesso a oportunidades, recursos e mobilidade social. Ao reunir essas informações, o governo busca desenhar políticas públicas mais direcionadas, especialmente na área de assistência social e distribuição de recursos.

Ao mesmo tempo, o alcance desse censo vai além da esfera social: seus resultados podem produzir efeitos políticos relevantes, inclusive sobre a distribuição de cadeiras no Parlamento e nas assembleias estaduais. Em outras palavras, trata-se não apenas de uma operação estatística de grande escala, mas de um exercício com potencial para influenciar a organização econômica, social e política de uma das economias mais importantes e dinâmicas do mundo.

· 05:09 — IA com sabor chinês

Apesar de o mundo estar cada vez mais dividido nos últimos anos por questões de natureza geopolítica, a temática de Inteligência Artificial segue firme e em expansão ao redor do globo.

Isso não significa, contudo, que o desenvolvimento dessa tecnologia esteja dissociado da disputa por zonas de influência entre as principais potências mundiais — em especial entre Estados Unidos e China.

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Desde o surgimento do ChatGPT, as duas maiores economias do mundo vêm buscando se posicionar na vanguarda da Inteligência Artificial.

No entanto, como as principais empresas de tecnologia são americanas — ou, ao menos, estão mais alinhadas aos interesses dos EUA —, as companhias chinesas acabaram sendo prejudicadas por restrições de acesso a hardwares e softwares essenciais para o pleno desenvolvimento da IA no país.

Ainda assim, engana-se quem acredita que a segunda maior economia do mundo pode ser descartada nessa corrida.

Desde o lançamento do DeepSeek, no início do ano passado, analistas e investidores ao redor do mundo voltaram a direcionar sua atenção para as empresas de tecnologia chinesas, uma vez que as soluções desenvolvidas por essas companhias têm se mostrado tão boas — e, por vezes, até superiores — às americanas, mesmo diante das restrições impostas nesse período.

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Ontem, por exemplo, a Alibaba, em parceria com a China Telecom, inaugurou um data center no sul da China operando com semicondutores desenvolvidos internamente. A instalação contará com 10 mil chips Zhenwu, voltados tanto para o treinamento quanto para a inferência de modelos de IA, além de suportar arquiteturas com bilhões de parâmetros.

Meu colega Enzo Pacheco, responsável pelas séries internacionais aqui da casa, tem insistido na temática de IA na China há algum tempo — tendo inclusive cunhado o termo “IAkisoba Trade” para se referir a essa oportunidade de mercado.

Tendo a concordar com essa leitura, entendo que o investidor brasileiro deveria considerar alocar uma parcela do seu portfólio em ativos expostos ao gigante asiático dentro dessa temática. Uma forma de fazer isso é por meio do KraneShares CSI China Internet ETF (B3: BKWB39), que permite acesso diversificado às principais empresas de tecnologia da China, com suas dez maiores posições representando cerca de 60% do fundo.

Considerando que dificilmente voltaremos a observar, no curto prazo, um ambiente global tão estável quanto o do início do século, parece prudente estar posicionado para capturar oportunidades independentemente de quem saia vencedor dessa corrida tecnológica — sem a necessidade de excluir qualquer país ou região dessa equação.

Estudou finanças na University of Regina, no Canadá, tendo concluído lá parte de sua graduação em economia. Pós-graduado em finanças pelo Insper. Trabalhou em duas das maiores casas de análise de investimento do Brasil, além de ter feito parte da equipe de modelagem financeira de uma boutique voltada para fusões e aquisições. Trabalha hoje no time de analistas da Empiricus, sendo responsável, entre outras coisas, por análises macroeconômicas e políticas, além de cobrir estratégias de alocação. É analista com certificação CNPI.