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O Federal Reserve manteve a taxa básica de juros inalterada, como esperado, no intervalo entre 3,5% e 3,75% e reforçou a leitura de que não há pressa para novos cortes, diante de uma economia ainda resiliente, de um mercado de trabalho que dá sinais de estabilização e de uma inflação que segue acima da meta.
Mesmo em meio às pressões políticas do presidente Donald Trump, o Fed fez questão de enfatizar sua postura técnica e independente, indicando que eventuais reduções ao longo do ano, se ocorrerem, terão caráter preventivo — como proteção contra riscos de desaceleração — e não de estímulo, com o mercado ainda projetando um ou dois cortes apenas mais adiante, possivelmente já após o término do mandato de Powell, em maio.
No ambiente global, o pano de fundo seguiu marcado por um dólar mais fraco, forte valorização dos metais — com ouro, prata e cobre renovando máximas históricas — e aumento das tensões geopolíticas após novas ameaças de Trump ao Irã, movimento que também pressionou os preços do petróleo.
No Brasil, o Copom surpreendeu ao sinalizar de forma bem clara a possibilidade de cortes de juros já na próxima reunião, o que tende a manter elevada a volatilidade na curva de juros.
Já no campo corporativo, a temporada de resultados das big techs concentrou as atenções: Meta Platforms e IBM apresentaram números sólidos, a Tesla reforçou sua estratégia de longo prazo em inteligência artificial e robótica, enquanto a Microsoft decepcionou com a desaceleração do crescimento da nuvem, mantendo os mercados globais sensíveis tanto às decisões de política monetária quanto ao desempenho das gigantes de tecnologia.
· 00:56 — Sinalização mais clara do que o esperado
Por aqui, na véspera da decisão do Banco Central, o Ibovespa voltou a renovar máximas e registrou o oitavo recorde do ano — sendo o sexto recorde de fechamento nos últimos sete pregões — ainda sustentado pelo fluxo expressivo de capital estrangeiro.
O índice encerrou o dia aos 184.691 pontos, depois de ter flertado, ao longo do pregão, com níveis acima de 185 mil pontos. Ainda assim, o centro das atenções se deslocou rapidamente para a decisão do Copom.
Não pela manutenção da Selic em 15% ao ano, amplamente esperada e já antecipada por nós, mas sobretudo pelo conteúdo do comunicado. O Banco Central, que vinha adotando uma postura claramente contracionista, surpreendeu ao abandonar essa linguagem e, mais do que isso, ao sinalizar explicitamente o início de um ciclo de cortes em março. Embora tenha preservado um tom cauteloso quanto ao ritmo — o movimento inicial pode ser de 25 pontos-base, e não de 50 —, a mensagem foi bem recebida pelo mercado.
No fim das contas, o mais relevante é a confirmação de que o ciclo de afrouxamento monetário está prestes a começar, algo historicamente positivo para os ativos de risco, ainda que, no curto prazo, possa gerar algum ruído na curva de juros e nos preços dos ativos, na clássica dinâmica do “sobe no boato, cai no fato”.
Olhando à frente, o Banco Central dispõe de algo em torno de 300 pontos-base de espaço para cortes ao longo do ano, o que tende a seguir atraindo investidores locais e estrangeiros interessados em capturar a queda dos juros — sobretudo porque, mesmo após esse movimento, o juro real brasileiro deve permanecer em patamar elevado.
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· 01:47 — Tom sóbrio
Nos Estados Unidos, o Federal Reserve manteve a taxa básica de juros no intervalo de 3,50% a 3,75%, em linha com as expectativas do mercado, mas a comunicação adotou um viés ligeiramente mais cauteloso, refletindo a resiliência da atividade econômica e a menor necessidade de ajustes imediatos.
Em sua coletiva, Jerome Powell destacou que, após três cortes consecutivos, o nível atual dos juros é compatível com o avanço gradual em direção às metas de inflação e emprego, reforçando que as próximas decisões seguirão estritamente dependentes dos dados e evitando indicar um calendário explícito para novos cortes.
O mercado segue precificando majoritariamente um primeiro movimento apenas a partir de junho, não como estímulo à economia, mas como um seguro contra eventuais sinais de enfraquecimento do mercado de trabalho. A decisão, aprovada por ampla maioria e com apenas dois votos dissidentes favoráveis a um corte imediato (Miran e Waller), foi interpretada como mais um sinal da independência do Fed diante das pressões políticas, em um ambiente ainda marcado por incertezas fiscais, tensões comerciais e inflação acima da meta.
A reunião também reacendeu discussões sobre a sucessão de Powell, cujo mandato como presidente se encerra em maio, embora ele tenha evitado especulações e reiterado o compromisso da instituição com sua autonomia (evitou o tema). No balanço geral, o encontro adicionou nuances importantes à leitura do cenário, mas trouxe poucas mudanças práticas, com impacto limitado sobre o comportamento dos mercados no curto prazo.
· 02:33 — O que as Big Techs nos contaram ontem?
A temporada de resultados das Big Techs voltou a evidenciar o papel central da inteligência artificial nas estratégias corporativas, embora com reações distintas do mercado.
A Tesla, por exemplo, registrou sua primeira queda anual de receita e viu o lucro recuar 61% no quarto trimestre, mas, ao mesmo tempo, anunciou um investimento de US$ 2 bilhões na xAI e a conversão de parte de suas fábricas para a produção de robôs Optimus, reforçando a narrativa de transição para uma empresa focada em “IA física”.
Meta e Microsoft, por sua vez, superaram as expectativas de receita e reafirmaram planos ambiciosos de investimento em inteligência artificial: a Meta projeta um capex de até US$ 135 bilhões e foi bem recebida pelo mercado, enquanto a Microsoft, apesar do crescimento sólido da divisão de nuvem, teve reação negativa das ações diante do volume elevado de investimentos anunciados.
Esse movimento ocorre em um contexto mais amplo de ajustes no setor de tecnologia, com demissões relevantes e com o reconhecimento, inclusive pelo Federal Reserve, de que a adoção crescente de IA tende a gerar impactos profundos sobre produtividade e mercado de trabalho, tornando os próximos balanços das grandes empresas de tecnologia especialmente relevantes para a definição do humor dos mercados.
· 03:21 — Tom mais duro
Embora Donald Trump tenha adotado um tom mais duro nas redes sociais ao voltar a ameaçar o Irã com ações militares caso não haja avanço em um acordo nuclear, a reação dos mercados financeiros foi contida. Isso reflete a avaliação de que o impacto econômico direto de um eventual agravamento do conflito tende a ser limitado no curto prazo.
Ainda assim, a intensificação da retórica aumentou a cautela geopolítica no Oriente Médio e ajudou a sustentar a alta do petróleo, que atingiram o maior patamar em quatro meses diante do risco de um novo episódio de tensão na região.
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· 04:19 — Frenesi
A valorização dos metais continua a ganhar fôlego, sustentada por um aumento expressivo da atividade especulativa na China e por expectativas de um ciclo mais robusto de crescimento global.
O cobre chegou a avançar quase 8% em Londres, registrando a maior alta diária desde 2009, enquanto o ouro renovou máximas históricas acima de US$ 5.500 a onça, acumulando nove sessões consecutivas de valorização, com a prata também alcançando patamares recordes.
Esse movimento reflete, de um lado, a antecipação de maiores investimentos em infraestrutura, data centers e robótica e, de outro, o aumento das tensões geopolíticas e das preocupações em torno de moedas fiduciárias e títulos soberanos, reforçando a busca por ativos reais como forma de proteção e preservação de valor em um ambiente global mais incerto.
· 05:02 — Mudanças no radar
Após os resultados divulgados por Meta Platforms, Microsoft e Tesla, a atenção do mercado se desloca agora para a Amazon, que apresenta seus números no dia 5 de fevereiro. A empresa anunciou recentemente uma mudança relevante em sua estratégia no segmento de supermercados: passará a priorizar a entrega no mesmo dia de compras de alimentos, ao mesmo tempo em que fecha unidades físicas das bandeiras Amazon Fresh e Amazon Go, direcionando investimentos para a expansão da rede Whole Foods Market. Em comunicado oficial, a companhia reconheceu que, embora esses formatos tenham gerado aprendizados importantes, ainda não foi possível construir um modelo econômico verdadeiramente diferenciado e escalável. Com isso, parte das lojas será convertida em unidades Whole Foods, e cerca de 100 novas lojas da rede devem ser abertas. O fortalecimento da malha logística pode ajudar a Amazon a ganhar market share, mas ressaltam que a competição segue intensa, especialmente com o Walmart — que conta com mais de 4.000 lojas físicas e participação superior a 20% no varejo alimentar — além de concorrentes como a Kroger, o que impõe limitações estruturais a uma estratégia excessivamente concentrada no online.
Em paralelo, a Amazon também anunciou a…