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Embora parte das interpretações de fundo continue fazendo sentido, o tom dos mercados nesta manhã é nitidamente mais cauteloso. Os futuros americanos operam em queda e arrastam consigo os principais índices europeus e asiáticos, além de pressionarem também os metais, em um movimento típico de aversão ao risco.
A principal exceção é o Japão, onde os ativos encontram algum suporte na expectativa pelas eleições de domingo, o que ajuda a amortecer — ao menos localmente — o humor mais defensivo que predomina no restante do mundo.
Esse ambiente mais tenso parece resultar de uma combinação de fatores: a incerteza geopolítica, as dúvidas sobre o ritmo da economia global e, sobretudo, o incômodo crescente com o ajuste em tecnologia. A sequência recente de correções em grandes nomes do setor, somada a anúncios de investimentos muito elevados em inteligência artificial, reacendeu o debate sobre retorno desse capital e sobre o risco de excesso de gastos.
· 00:54 — Apesar do alívio, há pouca margem de manobra
No Brasil, os ativos conseguiram alguma recuperação na sessão de ontem, apoiados sobretudo pelo resultado do Itaú, que deu sustentação ao setor financeiro — segmento com peso relevante para o índice — após a correção mais intensa observada na quarta-feira.
O fluxo de recursos estrangeiros segue presente. O movimento também contou com a contribuição do mercado de juros, que apresentou alívio na quinta-feira, em reação à decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, que concedeu liminar suspendendo os penduricalhos remuneratórios do poder público. A medida determinou a revisão da base legal dessas verbas, maior transparência nos pagamentos e a suspensão imediata daquilo que não estiver expressamente previsto em lei — tema que temos acompanhado de perto ao longo da semana.
A decisão reforça a percepção de que o país precisará, mais cedo ou mais tarde, enfrentar de forma mais profunda o debate sobre uma reforma administrativa, em paralelo a uma reforma orçamentária e a um ajuste fiscal mais consistente. Ainda que esse processo deva ganhar tração apenas a partir de 2027, após o ciclo eleitoral, permanece a dúvida central sobre o grau de convicção política para levar essas discussões adiante. Um movimento estrutural e profundo seria mais positivo.
Para hoje, apesar da melhora marginal em relação à véspera, o ambiente internacional mais adverso tende a dificultar a vida dos ativos brasileiros, que ainda precisam digerir um resultado abaixo do esperado do Bradesco.
Na agenda do dia, o indicado pelo ministro Fernando Haddad para a diretoria do Banco Central, Guilherme Mello, falará ao mercado para comentar o balanço macrofiscal de 2025 e as perspectivas para este ano. Será uma oportunidade para Mello tentar se afastar de sua trajetória acadêmica heterodoxa — ponto que tem gerado apreensão entre investidores nos últimos dias.
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· 01:47 — Correção em tecnologia
Nos Estados Unidos, a atenção dos investidores migrou de forma clara para o setor de tecnologia. Mesmo com a sequência de dados mais fracos do mercado de trabalho — que aumentou as apostas em um possível corte de juros pelo Fed —, o movimento mais visível nos mercados foi a correção concentrada nesse segmento. O índice Nasdaq recuou cerca de 4% nos últimos cinco dias, em um ajuste que se assemelha muito mais a um processo de rotação de portfólio.
As manchetes passaram a refletir um desconforto específico com tecnologia, especialmente após uma sequência de quedas semelhantes nos últimos meses, sinalizando um investidor mais criterioso e menos disposto a pagar múltiplos elevados apenas pela promessa de crescimento.
Dentro do próprio setor de tecnologia, esse ajuste tem ocorrido de maneira bastante desigual. Como já conversamos nesta semana, a pressão mais intensa recaiu sobre as empresas de software, em especial o universo de SaaS, diante do temor crescente de que a inteligência artificial deixe de atuar apenas como ferramenta complementar e passe a canibalizar modelos de negócio tradicionais.
O lançamento de soluções de automação cada vez mais sofisticadas reforçou essa percepção, enquanto o capital passou a migrar para as empresas que fornecem a infraestrutura da revolução tecnológica. Os resultados da Amazon, divulgados na noite de ontem, com uma reação forte das ações, deixam claro que, nesta nova fase, o investidor precisará assumir mais risco e ser muito mais seletivo na escolha dos verdadeiros vencedores do setor.
· 02:36 — Juros inalterados
O Banco da Inglaterra adotou um tom mais dovish ao decidir pela manutenção dos juros em uma votação apertada — cinco votos a favor e quatro contra —, sinalizando que já há espaço para cortes a partir de março, caso os dados econômicos confirmem essa leitura.
O cenário-base da autoridade monetária passa a incorporar dois cortes de 25 pontos-base ao longo de 2026, refletindo uma perspectiva de crescimento mais fraco e uma redução das preocupações com a dinâmica salarial. A mensagem é a de maior sensibilidade à desaceleração da atividade, com a política monetária pronta para se ajustar de forma gradual e condicionada à evolução dos indicadores.
Já o Banco Central Europeu optou por manter a taxa de depósito em 2% e transmitiu conforto com o atual grau de aperto monetário. A avaliação é de que os riscos para a inflação e para a atividade estão, no momento, amplamente equilibrados, o que reduz a urgência por um afrouxamento adicional.
Ainda assim, a autoridade europeia deixou explícito que a porta não está fechada: um arrefecimento mais intenso do que o esperado da inflação subjacente ou uma apreciação relevante do euro poderiam antecipar ajustes. O pano de fundo segue sendo de uma economia resiliente, embora exposta a riscos que recomendam cautela na condução da política monetária.
· 03:21 — Ligação entre gigantes
Uma ligação telefônica entre Donald Trump e Xi Jinping nesta semana foi descrita por ambos como positiva e reforça a leitura de que a distensão entre EUA e China segue em curso, em meio às negociações comerciais e à perspectiva de uma possível visita de Trump à China em abril.
Do lado americano, Trump mencionou conversas sobre potenciais compras chinesas de petróleo, gás e produtos agrícolas dos EUA. Já a comunicação oficial chinesa manteve um tom cautelosamente construtivo, sem assumir compromissos explícitos nessa frente, mas aproveitou para recolocar Taiwan no centro da agenda bilateral, pedindo “prudência” dos EUA na venda de armas à ilha.
Em síntese, o sinal é de continuidade do diálogo, com moderação estratégica por parte de Xi, mas com um recado claro: o tema Taiwan segue sendo a linha mais sensível da relação e pode, a depender dos próximos movimentos, influenciar o ritmo e a profundidade do entendimento entre as duas potências.
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· 04:15 — Corrida eleitoral japonesa
Às vésperas da eleição no Japão, marcada para este domingo, o noticiário político ganhou intensidade, com atenção concentrada na primeira-ministra Sanae Takaichi e na volatilidade recente do iene. Para o mercado, o ponto central está menos no ruído político de curto prazo e mais na transformação estrutural em curso no mercado acionário japonês.
Após anos de reformas de governança corporativa, as empresas do país — inclusive em setores tradicionalmente vistos como pouco dinâmicos, como metais e indústria — passaram a ganhar a confiança do mercado, elevando de forma consistente dividendos e programas de recompra de ações. Esse movimento ajudou a romper o estigma histórico de “value traps” e sustenta um rali que, em vários momentos, já rivaliza com o entusiasmo em torno da tecnologia americana.
Embora as ações japonesas continuem sensíveis às oscilações do câmbio e a recente alta dos juros dos títulos públicos gere algum desconforto, a leitura predominante é de um processo de normalização, e não de crise. A resposta cada vez mais resiliente do mercado acionário diante desses choques — inclusive frente a episódios de fortalecimento do iene — reforça a percepção de que a força da bolsa japonesa tem caráter estrutural, ancorada em melhores práticas de governança, maior retorno ao acionista e valuations ainda atrativos.
Nesse sentido, o cenário sugere que a trajetória positiva do mercado japonês tende a se sustentar independentemente do desfecho eleitoral, desde que o arcabouço institucional e as reformas recentes sejam preservados. Resta saber se o mercado não vai desconfiar de um maior expansionismo fiscal de Takaishi assim como desconfiou de Liz Truss há alguns anos no Reino Unido.
· 05:03 — Um mundo mais belicoso
A expiração do acordo de não proliferação nuclear entre Estados Unidos e Rússia, ocorrida nesta semana, reforçou a busca por teses do setor de defesa, em um mundo mais belicoso, e deixou claro que os gastos militares deixaram de ser pontuais para assumir um caráter global, estrutural e duradouro.
A atual corrida armamentista expressa uma mudança profunda na forma como os países encaram soberania e segurança em um mundo cada vez mais multipolar: as despesas globais com defesa devem ultrapassar US$ 2,6 trilhões até 2026, com praticamente todos os membros da OTAN já acima do patamar de 2% do PIB, além de movimentos semelhantes em economias relevantes como Japão, Índia e Arábia Saudita.
Nesse contexto, os Estados Unidos voltam ao centro da tese, com um orçamento em torno de US$ 1,48 trilhão, grandes projetos estruturantes e volumes expressivos de vendas militares externas, o que sugere espaço para uma reprecificação das empresas americanas do setor após um período de desempenho relativamente inferior ao das companhias europeias.
Mais do que a expansão de armamentos tradicionais, o novo ciclo de investimentos em defesa está cada vez mais…