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Investimentos

Após Ibovespa atingir nova máxima e mais um capítulo do TACO Trade, o que esperar do mercado nesta quinta (22)?

Bolsa local registrou R$ 43 bilhões em movimentação na quarta-feira impulsionada pelo capital estrangeiro e pela pesquisa AtlasIntel

Por Matheus Spiess

22 jan 2026, 10:11

Atualizado em 22 jan 2026, 10:17

brasil ibovespa mercado investimentos

Imagem: iStock/ Alex Sholom

A sinalização de Donald Trump de que irá suspender as tarifas relacionadas à Groenlândia contra países europeus — após mencionar, em Davos, a existência de um “arcabouço para um futuro acordo” com a OTAN — trouxe alívio imediato aos mercados globais.

O presidente descartou explicitamente o uso da força militar, postergou as tarifas que estavam previstas para fevereiro e afirmou que os Estados Unidos terão algum grau de envolvimento nos direitos minerais da ilha.

O conjunto dessas sinalizações foi suficiente para destravar uma reação positiva dos investidores: bolsas avançaram nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia, a volatilidade recuou e ganhou força, mais uma vez, a leitura de que Trump tende a recuar quando o risco de escalada geopolítica se torna mais concreto — ainda que a Dinamarca tenha reiterado, de forma categórica, sua oposição a qualquer hipótese de transferência da Groenlândia.

Esse ambiente mais construtivo também favoreceu setores tradicionalmente mais sensíveis ao apetite por risco, como o de semicondutores, após declarações otimistas de Jensen Huang em Davos, enquanto o petróleo devolveu parte dos ganhos recentes diante da redução das tensões internacionais.

No Brasil, o movimento global ajudou o Ibovespa a renovar máximas históricas, em um contexto de fluxo externo favorável e leitura mais benigna do cenário político doméstico.

Com a agenda geopolítica momentaneamente mais tranquila, a atenção dos investidores volta-se agora para os próximos catalisadores: a divulgação de dados macroeconômicos relevantes nos Estados Unidos — PIB e PCE — e o avanço da temporada de balanços corporativos.

· 00:57 — Quebrando barreiras

Por aqui, o Ibovespa avançou e alcançou uma nova máxima histórica, chegando a tocar os 172 mil pontos ao longo do pregão de ontem e encerrando, pela primeira vez, acima dos 171 mil pontos, com alta superior a 3%. Em termos absolutos, foram cerca de 5.500 pontos adicionados em um único dia.

O volume negociado foi de mais de R$ 43 bilhões em movimentação, impulsionado por forte ingresso de capital estrangeiro (rotação global de portfólios). Naturalmente, a bolsa brasileira se beneficiou tanto da diversificação internacional em curso quanto da distensão recente nas relações entre Estados Unidos e União Europeia. Ainda assim, o fator doméstico que realmente catalisou o movimento foi a pesquisa AtlasIntel, comentada na manhã de ontem.

A leitura predominante, ao menos neste primeiro momento, foi a de que o presidente Lula se mostrou menos competitivo do que o esperado, inclusive diante de nomes com elevada rejeição, como Flávio Bolsonaro.

Essa percepção aumentou, no curto prazo, a probabilidade atribuída pelo mercado a uma inflexão do pêndulo político no Brasil, como vemos em outros países na América do Sul. Como consequência, não apenas as ações subiram, mas também houve queda relevante dos juros futuros, refletindo a expectativa — ainda incipiente — de uma alternativa minimamente mais reformista, enquanto o dólar recuou para a casa de R$ 5,32, o menor nível desde o anúncio da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, no início de dezembro, no episódio que ficou conhecido como “Flávio Day”, quando a moeda chegou próxima dos R$ 5,30.

Ainda assim, como já destacamos ontem, era natural observar uma melhora inicial nas intenções de voto de Flávio, dado que ele foi, até aqui, o único nome a formalizar uma pré-candidatura.

Se Tarcísio tivesse sido oficializado, por exemplo, ele também teria uma melhora — a diferença é que ele tem um desempenho melhor no segundo turno mesmo sem ter se lançado candidato, o que é uma diferença importantíssima.

Contudo, o processo eleitoral propriamente dito ainda não começou, e tampouco vimos a máquina governista entrar em campo de forma mais agressiva contra a candidatura de Flávio, como fez contra Marina Silva em 2014. Olhando adiante, a chance de uma passagem de bastão dentro do campo oposicionista parece ter diminuído, o que, em um segundo momento, pode frustrar parte do entusiasmo recente do mercado.

Outras pesquisas indicam que eleitores moderados, de centro e independentes — decisivos no segundo turno, como em 2022 — tendem a atribuir maior rejeição a Flávio, o que tornaria nomes mais competitivos politicamente uma alternativa preferível sob a ótica do mercado (eleição de um reformista). Esse cenário ainda pode se materializar até março, a depender da dinâmica política, mas os sinais, por ora, são menos favoráveis.

Depois de movimentos tão intensos quanto o de ontem, correções pontuais fazem parte do processo natural de ajuste de posições. Ainda assim, o pano de fundo segue construtivo: o movimento pode continuar sustentado por um ambiente externo que não impõe restrições relevantes (ausência de recessão), pela rotação global de recursos em direção a mercados ainda considerados baratos e atrativos, pela queda dos juros internacionais (em especial nos EUA), pelo dólar mais fraco no mundo e, no plano doméstico, pela perspectiva de cortes de juros e pela possibilidade de um rali eleitoral mais adiante.

Na agenda local, os dados da Receita Federal divulgados pela manhã devem confirmar que o ano de 2025 foi encerrado com arrecadação de R$ 2,884 trilhões — novo recorde histórico, com crescimento real de 4,3% em relação a 2024. O ponto de atenção permanece o mesmo: as despesas cresceram em ritmo ainda mais acelerado. Essa discussão fiscal, no entanto, tende a ser endereçada apenas a partir de 2027, após o desfecho eleitoral. Até lá, o mercado seguirá tentando antecipar se uma alternativa mais reformista e fiscalista conseguirá, de fato, ganhar espaço.

· 01:48 — Taco Trade

Em Davos, o tom diplomático se suavizou após o presidente Donald Trump anunciar a construção de um “quadro para um futuro acordo” com o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, envolvendo a Groenlândia.

O entendimento preliminar incluiu o compromisso de não recorrer ao uso da força, a retirada das tarifas que haviam sido ameaçadas contra aliados europeus e a abertura de negociações em torno de temas sensíveis, como defesa antimísseis e minerais estratégicos.

A sinalização foi suficiente para aliviar, ao menos temporariamente, as tensões transatlânticas, impulsionar os mercados — com valorização das ações, recuo dos rendimentos dos Treasuries e fortalecimento do dólar — e afastar uma escalada imediata de retaliações comerciais que vinha sendo debatida na União Europeia.

Ainda assim, apesar do alívio de curto prazo e da leitura recorrente de que Trump tende a recuar diante de maior pressão, persiste a percepção de que o desgaste na relação de confiança entre os Estados Unidos e seus aliados europeus é mais profundo e duradouro, exigindo que investidores e lideranças se preparem para um cenário em que a previsibilidade das relações internacionais e as alianças tradicionais seguirão sendo colocadas à prova.

· 02:33 — Recuperação

Nos Estados Unidos, os mercados reagiram de forma construtiva aos sinais de desescalada após o período de estresse associado à questão da Groenlândia. A mudança de postura de Trump foi bem recebida e se traduziu em uma recuperação expressiva das bolsas americanas, com altas superiores a 1% nos principais índices, revertendo parte relevante das perdas observadas na sessão anterior.

Em paralelo, o foco se deslocou para Washington, onde a Suprema Corte dos Estados Unidos demonstrou resistência à tentativa do governo de afastar Lisa Cook do Federal Reserve, reforçando a importância da preservação da independência do banco central. Durante as audiências, magistrados de diferentes orientações políticas expressaram ceticismo em relação às acusações e preocupação com os precedentes institucionais envolvidos, o que aumenta a probabilidade de manutenção de Cook no cargo enquanto o processo tramita.

Para a Casa Branca, trata-se de um revés em sua estratégia de ampliar a influência política sobre a condução da política monetária, justamente em um momento marcado por maior sensibilidade econômica e institucional. Bom sinal.

· 03:29 — Paralisado

O Parlamento Europeu aprovou ontem, por margem estreita, o envio do acordo UE–Mercosul ao Tribunal de Justiça da União Europeia, um movimento que tende a postergar sua entrada em vigor por vários meses e expõe as divisões internas do bloco — ainda que a Comissão Europeia mantenha a prerrogativa de aplicar o tratado de maneira provisória. Assinado recentemente e tratado como um marco histórico, o acordo prevê a criação da maior zona de livre comércio do mundo, reunindo mais de 700 milhões de consumidores e eliminando tarifas sobre mais de 90% do comércio bilateral, com impactos particularmente positivos para o agronegócio brasileiro.

Do lado europeu, críticos alertam para possíveis efeitos adversos sobre a agricultura local, enquanto defensores — entre eles o chanceler alemão Friedrich Merz — sustentam que o acordo é justo, equilibrado e fundamental para destravar o crescimento econômico do continente (uma avaliação com a qual concordo). Diante do impasse no Parlamento Europeu e no âmbito da União Europeia, o governo brasileiro deve intensificar sua articulação política para tentar destravar o processo ou, ao menos, viabilizar uma vigência temporária do acordo. Minha leitura é que esse movimento representa, sobretudo, uma reação previsível de grupos que ficaram insatisfeitos com a aprovação do tratado, criando esse atraso adicional. Mas, após mais de 25 anos de negociações, alguns meses a mais dificilmente alteram a direção estrutural do acordo.

· 04:15 — Conselho da Paz

Donald Trump lançou hoje, na Suíça, o seu ambicioso “Conselho da Paz”, concebido para atuar em cooperação com as Nações Unidas — mas que já estreia esvaziado pela recusa de líderes relevantes, como os de França e Reino Unido, e pela falta de sinalização de outros atores, entre eles o Brasil. A ideia de uma grande cerimônia de assinatura no próprio Fórum Econômico Mundial vem perdendo força diante do receio de que o novo organismo seja, na prática, uma estrutura paralela à ONU, percepção que elevou o desconforto entre aliados tradicionais e reforçou a leitura de que Washington busca redesenhar os canais de coordenação internacional em torno de uma lógica mais bilateral e transacional.

A iniciativa, entretanto, acabou ofuscada pela fixação de Trump com a Groenlândia e por ataques públicos e pessoais a líderes que recusaram o convite. O resultado é um ambiente de tensão diplomática, em que a agenda geopolítica do fórum passa a ser dominada mais pelo confronto do que por avanços concretos em cooperação e coordenação internacional em temas relevantes.

· 05:01 — Integrando plataforma de inteligência artificial

O JPMorgan Chase anunciou que romperá integralmente com consultorias externas de voto e passará a utilizar uma plataforma interna de inteligência artificial, batizada de Proxy IQ, conforme revelou o The Wall Street Journal. A decisão representa uma ruptura relevante em um segmento historicamente dominado por empresas como Glass Lewis e Institutional Shareholder Services, responsáveis por fornecer análises e recomendações que influenciam votações de acionistas sobre temas sensíveis, que vão desde pacotes de remuneração executiva até pautas ambientais, sociais e de governança. Com mais de US$ 7 trilhões sob gestão, o JPMorgan se torna o primeiro grande gestor global a abandonar por completo esse modelo tradicional.

O movimento dialoga com…

Estudou finanças na University of Regina, no Canadá, tendo concluído lá parte de sua graduação em economia. Pós-graduado em finanças pelo Insper. Trabalhou em duas das maiores casas de análise de investimento do Brasil, além de ter feito parte da equipe de modelagem financeira de uma boutique voltada para fusões e aquisições. Trabalha hoje no time de analistas da Empiricus, sendo responsável, entre outras coisas, por análises macroeconômicas e políticas, além de cobrir estratégias de alocação. É analista com certificação CNPI.