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Após um começo de semana mais tenso, marcado pelas tentativas do governo Trump de exercer pressão sobre o Federal Reserve, os ativos de risco conseguiram se recuperar ao longo de segunda-feira.
Esse movimento foi favorecido por declarações públicas de ex-presidentes do Fed e de parlamentares republicanos, que reagiram de forma crítica às investidas contra Jerome Powell e reforçaram a importância da autonomia do banco central.
Ainda assim, a abertura de uma investigação criminal envolvendo a autoridade monetária elevou o risco institucional nos EUA. Grandes gestoras alertaram que qualquer ameaça à independência do Fed tende a se refletir em juros de longo prazo mais altos, já que os investidores passam a exigir maior retorno para compensar a incerteza.
Mesmo nesse ambiente mais delicado, 2026 começou de forma bastante intensa: a prata, as ações japonesas, as small caps americanas e o Russell 2000 exibem alguns dos melhores inícios de ano da história, indicando uma rotação relevante nos portfólios e a permanência de um apetite por risco significativo.
No cenário geopolítico, as notícias também adicionam camadas de tensão. Trump anunciou tarifas de 25% contra países que mantêm relações comerciais com o Irã, em meio ao agravamento dos protestos em Teerã e à repressão violenta do regime.
A iniciativa aumenta o risco de problemas no fornecimento de petróleo e adiciona incerteza ao comércio global, ainda que, até o momento, os mercados tenham reagido de maneira relativamente contida. No curto prazo, o grande foco passa a ser a divulgação da inflação americana de dezembro, um dado-chave para ajustar as expectativas sobre a trajetória dos juros e, consequentemente, sobre o comportamento dos ativos no mundo todo.
Enquanto isso, o Japão renova máximas impulsionado por especulações eleitorais, as bolsas asiáticas fecham sem direção única e os mercados europeus operam em queda, pressionados pela combinação de incerteza geopolítica e pela expectativa em torno do índice de preços ao consumidor dos Estados Unidos.
· 00:53 — Dívida, orçamento e o calendário eleitoral
No Brasil, o principal destaque do dia em termos de dados é a divulgação do volume de serviços de novembro. O resultado surpreendeu negativamente: houve queda de 0,1%, quando o mercado esperava alta de 0,1%, após o avanço de 0,3% em outubro.
O dado ganha ainda mais relevância porque o setor de serviços foi o principal vetor de pressão inflacionária no IPCA de dezembro. Ele reforça a leitura de que a atividade econômica começa, de forma gradual, a perder fôlego — ainda em um ritmo compatível com uma postura cautelosa do Banco Central.
O pano de fundo, no entanto, continua sendo a incerteza fiscal. O Tesouro revisou para pior a trajetória da dívida bruta, que agora deve atingir 86,1% do PIB em 2027 e alcançar um pico de 88,6% em 2032.
Essa deterioração reflete juros mais elevados, crescimento nominal mais fraco e, sobretudo, um resultado fiscal menos favorável após a PEC 136, que retirou os precatórios do limite de gastos. Com isso, as despesas judiciais fora da meta devem se aproximar de R$ 100 bilhões em 2028. O problema é que esse tema dificilmente será enfrentado de forma estrutural antes de 2027, já que o debate fiscal tende a ficar contaminado pelo ciclo eleitoral.
Esse ambiente doméstico é reforçado por um cenário político mais frágil para o governo. A popularidade vem caindo — o Lulômetro aponta cerca de 39% de avaliação ruim ou péssima — e o Executivo não conseguiu avançar em uma agenda consistente nem mesmo em torno do principal tema do momento, a segurança pública.
Tanto que o Planalto já avalia abandonar a chamada PEC da Segurança, depois de perder o controle do texto no Congresso por falta de articulação política e temer que a proposta seja aprovada em um formato distante do que pretendia originalmente.
Do outro lado, porém, a oposição segue desorganizada e ainda não conseguiu se unificar em torno de um nome claramente viável. A primeira pesquisa eleitoral do ano, realizada pelo Instituto Ideia e divulgada pelo Canal Meio, mostra Lula liderando o primeiro turno com cerca de 40% das intenções de voto, à frente de Tarcísio, com 32,7%, e de Flávio Bolsonaro, com 26,5%. No segundo turno, Lula aparece tecnicamente empatado com Tarcísio, 44,4% a 42,1%, mas venceria com folga os demais nomes da oposição — contra Flávio, por exemplo, ganharia por 46,2% a 36%.
Como tenho destacado há meses, os números deixam claro que Tarcísio é hoje o adversário mais competitivo, combinando melhor desempenho eleitoral com menor rejeição, de apenas 16%, contra 41% de Lula e 30% de Flávio.
O problema é que a ala mais ideológica da direita ainda não se organizou em torno dele. Há tempo para isso, ao menos até o fim de março, mas essa indefinição deixa o mercado desconfortável. Um cenário em que Flávio insiste na candidatura, em vez de abrir espaço para um nome mais competitivo, aumenta sensivelmente a probabilidade de reeleição do governo atual. Novas pesquisas sairão ao longo da semana, inclusive a Quaest amanhã. O mercado acompanha tudo isso com atenção — e crescente apreensão.
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· 01:41 — Lição amarga de credibilidade
Os mercados iniciaram a semana em tom levemente positivo, com os investidores, ao menos momentaneamente, deixando em segundo plano as turbulências em torno do Federal Reserve para concentrar as atenções no início da temporada de balanços do quarto trimestre.
Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq avançaram, renovando máximas recentes, sustentados pela expectativa de mais um ciclo robusto de resultados corporativos. Esse otimismo é alimentado sobretudo pelo forte ritmo de investimentos em inteligência artificial e pelo dólar mais fraco, que tende a favorecer empresas americanas com receitas relevantes no exterior.
Ainda assim, o movimento não foi homogêneo: setores como bancos e emissores de cartões sentiram o peso das declarações de Donald Trump sobre limitar os juros do crédito a 10% — uma proposta que depende do Congresso para avançar, mas introduz incerteza sobre a rentabilidade.
Em paralelo, a investigação criminal contra Jerome Powell voltou a levantar dúvidas sobre a autonomia do Federal Reserve, provocando reações típicas de busca por proteção: o dólar perdeu força, o ouro se valorizou e os juros oscilaram mais intensamente.
O episódio reacendeu a narrativa de “venda de ativos americanos” e elevou a percepção de risco institucional nos Estados Unidos, com críticas vindas tanto de democratas quanto de republicanos, além de ex-presidentes do próprio Fed. Em um ambiente marcado por valuations elevados, forte concentração de desempenho em poucas ações de tecnologia e crescente ruído político, a lição que se impõe é a importância da diversificação setorial e regional.
No campo macro, a expectativa para o CPI de dezembro é de inflação em torno de 2,7%, com leve aceleração do núcleo, o que, se confirmado, deve manter o cenário de pausa no ciclo de cortes de juros.
· 02:35 — Que comece a temporada
A temporada de resultados americana tem início hoje com os grandes bancos e coloca no centro do palco instituições como JPMorgan, Bank of America, Wells Fargo, Citigroup, Goldman Sachs e Morgan Stanley. O ponto de partida é relativamente favorável. A valorização recente dos mercados tende a fortalecer as áreas de gestão de patrimônio e de ativos, o consumo das famílias segue resiliente e, até aqui, a qualidade do crédito ainda é vista como saudável.
Nesse contexto, a leitura predominante é de que a maioria dos bancos deve apresentar crescimento de lucros em relação ao ano anterior, com a exceção mais provável sendo o Goldman Sachs, que pode registrar um desempenho inferior ao do mesmo período do ano passado.
No entanto, nem tudo é conforto. Um risco relevante vem do campo político. O presidente Donald Trump voltou a defender a limitação das taxas de juros dos cartões de crédito em 10% ao ano, um patamar muito abaixo das médias atuais, que giram em torno de 20% ou mais. Embora o presidente não tenha poder para implementar essa mudança de forma unilateral — dependerá de aprovação do Congresso —, a simples possibilidade de avanço dessa agenda já acende um sinal de alerta.
A medida seria particularmente negativa para grandes emissores de cartão, como JPMorgan, American Express e Capital One, que hoje se beneficiam de margens elevadas nesse segmento. Por outro lado, poderia abrir espaço para modelos alternativos de crédito, como plataformas de “compre agora, pague depois” e outros credores não tradicionais, que tenderiam a ganhar competitividade caso as regras do jogo mudem.
· 03:29 — O próximo a cair?
Os Estados Unidos intensificaram a pressão sobre Cuba após a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, cortando o fluxo de petróleo e recursos que vinham de Caracas — um suporte crucial para a economia cubana — e exigindo que Havana negocie com Washington “antes que seja tarde demais”, segundo declarações recentes de Donald Trump. Essa postura faz parte de uma escalada na retórica e nas sanções contra o regime cubano, que depende historicamente do apoio venezuelano para energia e recursos básicos e agora enfrenta pressões econômicas e políticas aceleradas. Cuba rejeitou as exigências, dizendo que quaisquer conversas, até o momento, se limitaram a temas técnicos, sem negociações diretas com os EUA.
No atual ambiente, diplomatas brasileiros observam que Havana se encontra em uma posição inteiramente vulnerável: sem o apoio venezuelano, a ilha enfrenta um cenário de escassez energética e social mais agudo. Apesar disso, não há sinais claros de um colapso iminente do regime cubano, que historicamente resistiu a décadas de embargos, crises econômicas e pressões externas. A afirmação das autoridades cubanas de defender a independência do país, mesmo sob intensa dificuldade interna, reforça a ideia de que, embora a situação seja delicada, a trajetória do regime ainda é incerta e não se pode presumir sua queda em curto prazo. Saberemos em breve…
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· 04:14 — Novas máximas
As ações japonesas renovaram máximas históricas depois que ganharam força as especulações de que a primeira-ministra Sanae Takaichi estaria avaliando convocar eleições antecipadas, possivelmente já para fevereiro. O simples rumor foi suficiente para reativar a chamada “operação Takaichi”, expressão usada pelo mercado para descrever o movimento clássico de compra de ações e venda de iene e títulos públicos, na aposta de que suas políticas de viés fiscalmente expansionista tendem a favorecer empresas, lucros corporativos e ativos de risco. Com isso, os índices Nikkei e Topix avançaram mais de 2%, enquanto o iene se desvalorizou cerca de 0,5% frente ao dólar e o rendimento dos títulos do governo japonês de 30 anos saltou para próximo de 3,5%, refletindo a expectativa de mais gastos públicos e maior pressão sobre a dívida.
No campo político, Takaichi tenta capitalizar sua elevada popularidade pessoal — em torno de 70% — para compensar a fragilidade crescente de seu partido, o Partido Liberal Democrático (PLD), que perdeu força nas eleições mais recentes e hoje sustenta apenas um posicionamento delicado no Parlamento. Antecipar o pleito seria uma jogada para transformar sua força individual em capital político, reforçar a base governista e ganhar fôlego para aprovar um orçamento capaz de enfrentar a pesada e estrutural dívida pública do país. O movimento, porém, não é isento de riscos. Uma estratégia semelhante adotada por seu antecessor, Shigeru Ishiba, terminou de forma desastrosa, com a perda da maioria parlamentar após a convocação de eleições antecipadas. O episódio ilustra bem a assimetria dessa aposta: ela pode consolidar o poder de Takaichi — ou, ao contrário, expor ainda mais as fragilidades do partido.
· 05:02 — Mais uma para o Clube dos US$ 4 trilhões
A Alphabet alcançou a impressionante marca de US$ 4 trilhões em valor de mercado, movimento impulsionado pelo crescente entusiasmo dos investidores com o posicionamento da companhia na corrida global da inteligência artificial.
No dia do marco, as ações chegaram a avançar até 1,7%, o suficiente para levar a empresa à condição de segunda mais valiosa do mundo, atrás apenas da Nvidia, passando a integrar um grupo extremamente seleto que inclui também Apple e Microsoft. Esse patamar simbólico traduz uma percepção clara do mercado: o Google está entre os grandes protagonistas do novo ciclo de investimentos em tecnologia e IA.
Esse reconhecimento não surgiu por acaso. Nos últimos trimestres, a companhia apresentou…