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Investimentos

Mercado de bom humor? Tarifas em banho-maria e expectativas de corte de juros nos EUA e Brasil

Negociações do Trump com a China e o Sudeste Asiático, uma nova Eletrobras e mais destaques do dia. Confira.

Por Matheus Spiess

28 out 2025, 09:32

Atualizado em 28 out 2025, 09:32

dólar eua mercado bolsas

Imagem: iStock/ Dilok Klaisataporn

A melhora no humor dos mercados globais tem sido sustentada principalmente pela perspectiva de avanço nas negociações comerciais entre Estados Unidos e China. Por aqui, a reabertura do diálogo entre Lula e Trump para revisão de tarifas contribui para o apetite por risco, enquanto o esperado corte de juros pelo Federal Reserve reforça um ambiente favorável ao câmbio e à renda variável. No Japão, a política fiscal expansionista da primeira-ministra Sanae Takaichi — “Takaichinomics” — recebeu elogios do Tesouro americano, e um novo acordo envolvendo minerais estratégicos e terras raras fortalece cadeias de suprimento essenciais à indústria global.

Ainda assim, parte do movimento positivo foi seguida por uma leve realização nas principais bolsas asiáticas, após altas expressivas no pregão de ontem. Os indicadores econômicos continuam sugerindo resiliência: o PMI composto global voltou a crescer, com destaque para a força do setor de serviços. Na Europa, sinais de recuperação começam a aparecer após meses de atividade moderada. Todas as atenções agora convergem para o encontro entre Trump e Xi Jinping, que pode destravar novas medidas de desescalada tarifária. Futuros americanos sobem nesta manhã. No mercado de petróleo, os contratos operam em queda à espera da reunião da Opep+.

· 00:56 — Algumas repercussões

No Brasil, o Ibovespa encerrou a segunda-feira em nova máxima nominal, refletindo o maior apetite por risco com o avanço das negociações comerciais envolvendo os EUA. O mercado repercutiu positivamente o encontro entre os presidentes Lula e Trump no fim de semana, que abriu espaço para tratativas formais entre os dois países. Uma comitiva de alto nível, composta por ministros e autoridades econômicas, deve seguir a Washington já na próxima semana para dar continuidade às conversas. O governo brasileiro solicitou uma trégua de 90 dias sobre as tarifas americanas de 50% aplicadas a produtos nacionais — pedido ainda pendente de resposta, mas considerado factível. Em troca, o Brasil avalia reduzir a atual tarifa de 18% sobre o etanol importado dos EUA, caso os americanos suspendam a sobretaxa sobre café e carne brasileira.

Além da pauta bilateral com os Estados Unidos, dois vetores adicionais contribuíram para o otimismo local. O primeiro foi a euforia na América do Sul após a vitória contundente de Javier Milei nas eleições legislativas argentinas. Na Argentina, a reação foi ainda mais intensa: os títulos públicos subiram e o peso chegou a se valorizar acima de 10%. Em Nova York, o ETF argentino avançou quase 20% em dólares e segue em alta no pré-mercado de hoje, depois de bancos terem saltado entre 40% e 50%. O movimento reforça a leitura de que a região vive um processo de mudança política e econômica em direção a modelos mais pró-mercado — cenário que, no Brasil, poderia ser reproduzido caso haja alternância de poder nas eleições do próximo ano.

O segundo vetor veio da melhora gradual das expectativas de inflação doméstica, em linha com o que tenho comentado. As projeções para 2025, 2026 e 2027 seguem convergindo para níveis mais benignos, reforçando o entendimento de que o Banco Central poderá iniciar seu ciclo de corte de juros em breve — se não em dezembro, possivelmente na primeira ou segunda reunião de 2026. O encontro do Copom da próxima semana pode trazer indicações mais claras sobre o timing desse movimento.

· 01:41 — Apetite por risco

Nos Estados Unidos, dois fatores puxaram o movimento positivo: o avanço das negociações comerciais entre EUA e China e a continuidade do forte desempenho do setor de tecnologia. Após encontros diplomáticos na Malásia, autoridades dos dois países afirmaram ter chegado a um entendimento preliminar sobre tarifas e exportações, aumentando as chances de uma trégua mais ampla no encontro entre Donald Trump e Xi Jinping, previsto para esta quinta-feira. O gesto reduziu tensões geopolíticas e elevou imediatamente o apetite por risco: o Dow Jones avançou 0,7%, o S&P 500 subiu 1,2% e o Nasdaq ganhou 1,9%. Se confirmado, o acordo deve diminuir a probabilidade de novas tarifas, especialmente sobre bens tecnológicos e minerais estratégicos, aliviando um dos principais pontos de incerteza do ano.

Além do front diplomático, o mercado também encontra suporte na temporada de balanços. Cerca de um terço das empresas do S&P 500 já divulgou resultados, e a maior parte superou as estimativas, acompanhada de projeções positivas para o quarto trimestre. O principal destaque segue sendo o setor de tecnologia, impulsionado pela expansão da inteligência artificial e pela aceleração dos investimentos em infraestrutura digital. Caso o ritmo atual se mantenha, o crescimento dos lucros do trimestre pode alcançar cerca de 11%, acima dos 8% observados no período anterior. A semana, no entanto, será determinante: cinco gigantes do grupo “Magnificent Seven” — Alphabet, Amazon, Apple, Meta e Microsoft — reportam seus números, e o consenso aponta nova rodada de resultados robustos. Para gestores mais otimistas, mesmo eventuais correções de curto prazo podem abrir janelas de compra, já que os fundamentos das big techs permanecem robustos e sustentam a tese de longo prazo.

· 02:38 — Aquecendo os motores

Cinco das sete maiores empresas de tecnologia do mundo — Microsoft, Alphabet, Meta, Apple e Amazon — divulgam seus balanços trimestrais, em um período que concentra resultados de 160 companhias do S&P 500 e coincide com a penúltima reunião do Federal Reserve sobre política monetária. O mercado espera que as chamadas “Magnificent Seven” apresentem crescimento de aproximadamente 13% nos lucros — ritmo mais moderado do que o visto no trimestre anterior, mas ainda positivo.

Dentro desse grupo, a Meta se destaca pela intensidade dos investimentos em inteligência artificial. A companhia deve reportar aumento de 22% em receita, mas, ao mesmo tempo, direcionar mais de US$ 18 bilhões para expansão de data centers e infraestrutura, elevando seus gastos para cerca de 37% da receita — o maior patamar já registrado pela empresa. Mark Zuckerberg indicou que o ciclo de investimentos deve se acelerar nos próximos anos, com aportes que podem chegar a US$ 600 bilhões até 2028, argumentando que o maior risco seria avançar pouco, e não gastar demais. 

· 03:27 — Mais instabilidade

A França volta a lidar com turbulências políticas em meio ao debate sobre o aumento de impostos para os mais ricos. O Partido Socialista elevou o tom e ameaça novamente derrubar o governo do primeiro-ministro Sébastien Lecornu caso o orçamento de 2026 não inclua uma alta da carga tributária sobre grandes fortunas. Líderes já admitem abertamente a possibilidade de um novo voto de desconfiança, especialmente porque o projeto orçamentário enfrenta resistência no Parlamento. No centro da disputa está o imposto sobre riqueza proposto pelo economista Gabriel Zucman, defendido pela esquerda como instrumento de justiça fiscal, mas rejeitado por aliados de Emmanuel Macron e por partidos de direita, que veem a medida como potencialmente inconstitucional e prejudicial ao investimento privado, o que faz sentido.

O governo já opera sem maioria estável e, no ano passado, viu dois primeiros-ministros perderem o cargo após derrotas na votação do orçamento. Lecornu só permaneceu após ceder a pressões e suspender a reforma da Previdência, numa tentativa de garantir governabilidade mínima. Agora, além do impasse parlamentar, o ambiente fiscal inspira preocupação: a Moody’s rebaixou a perspectiva de crédito da França de estável para negativa, citando o avanço das despesas públicas e a dificuldade do governo em aprovar medidas de ajuste. Esse conjunto de fatores aumenta o nível de incerteza e coloca pressão adicional sobre a política econômica francesa.

· 04:15 — Negociações avançadas

Negociadores de Estados Unidos e China apontaram avanços relevantes rumo a um entendimento comercial antes do tão aguardado encontro entre Donald Trump e Xi Jinping. Autoridades de ambos os lados afirmaram ter chegado a um “consenso preliminar” sobre temas sensíveis — entre eles, tarifas adicionais, concessões agrícolas, exportações de minerais de terras raras, controles tecnológicos e o futuro das operações do TikTok em território americano. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, reforçou que a ameaça de impor tarifas de 100% sobre produtos chineses serviu como instrumento de pressão e deu aos EUA maior poder de barganha, deixando no ar a possibilidade de que um acordo formal seja anunciado durante a reunião marcada para esta semana na Coreia do Sul. Paralelamente, Trump fechou entendimentos com países do Sudeste Asiático e aprofundou a cooperação estratégica com o Japão, que se comprometeu a financiar até US$ 550 bilhões em projetos dentro dos Estados Unidos — gesto que reforça o eixo geopolítico norte-americano na região.

· 05:03 — Uma nova Eletrobras

Na última semana, a Eletrobras anunciou oficialmente sua mudança de nome para Axia Energia, consolidando de forma definitiva o processo de transformação iniciado com a privatização em 2022. O termo axia tem origem grega e remete a valor e eixo, conceitos escolhidos para expressar a nova identidade da companhia: mais moderna, eficiente, orientada à governança e focada em resultados sustentáveis. O rebranding também reforça para o mercado que a empresa deixa para trás a imagem de estatal e entra em uma etapa mais competitiva, alinhada às melhores práticas corporativas.

A mudança de nome, entretanto, é apenas um detalhe. O que realmente importa é a…

    Estudou finanças na University of Regina, no Canadá, tendo concluído lá parte de sua graduação em economia. Pós-graduado em finanças pelo Insper. Trabalhou em duas das maiores casas de análise de investimento do Brasil, além de ter feito parte da equipe de modelagem financeira de uma boutique voltada para fusões e aquisições. Trabalha hoje no time de analistas da Empiricus, sendo responsável, entre outras coisas, por análises macroeconômicas e políticas, além de cobrir estratégias de alocação. É analista com certificação CNPI.