Imagem: iStock/ Andrey Sarapulov
A sexta-feira chega como o principal ponto de inflexão da semana para os mercados, com a divulgação do payroll americano e do IPCA de dezembro — indicadores fundamentais para ajustar as expectativas em torno da trajetória dos juros, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil.
Caso os números não tragam surpresas relevantes, o cenário-base permanece inalterado: pausa temporária nos cortes pelo Federal Reserve e início do ciclo de flexibilização da Selic em março.
Em paralelo, investidores acompanham com atenção a possibilidade de um pronunciamento da Suprema Corte dos EUA sobre a legalidade das tarifas impostas por Donald Trump, tema que pode influenciar tanto a dinâmica inflacionária quanto as decisões de política monetária.
No ambiente internacional, o comportamento dos mercados segue heterogêneo. As bolsas europeias avançam, sustentadas por movimentos corporativos no setor de mineração e por dados de atividade um pouco mais firmes, enquanto os futuros de Nova York operam sem direção única à espera do payroll.
Na Ásia, o apetite por risco voltou a ganhar tração, com um novo rali das ações de defesa em meio à intensificação das tensões geopolíticas.
No setor de tecnologia, os resultados da TSMC reforçam a leitura de que os investimentos em inteligência artificial seguem robustos em 2026, contrastando com a persistente pressão deflacionária na China.
Já o petróleo se mantém em alta, refletindo riscos de oferta associados a Rússia, Irã e Venezuela, o que mantém a geopolítica como um dos principais vetores dos preços da commodity.
· 00:52 — O que o IPCA nos disse?
No mercado doméstico, o Ibovespa voltou a avançar ontem, impulsionado sobretudo pelas ações da Petrobras e de outras companhias do setor de óleo e gás, que acompanharam a alta do petróleo no mercado internacional.
Na agenda de hoje, o foco se desloca para os dados de inflação de dezembro, divulgados nesta manhã, que vieram levemente abaixo do esperado e reforçaram a trajetória de desaceleração na comparação anual.
O IPCA subiu 0,33% no mês, abaixo do consenso de 0,35%, enquanto a taxa acumulada em 12 meses recuou de 4,46% em novembro para 4,26% em dezembro. Com a inflação encerrando o ano abaixo do teto da meta e mantendo uma dinâmica consistente de convergência, ganha força a expectativa de que o Banco Central dê início ao ciclo de cortes de juros já no começo de 2026, provavelmente em março, após uma sinalização mais clara na comunicação ao longo de janeiro.
Esse pano de fundo dialoga diretamente com os dados mais recentes de atividade. A queda da produção industrial na comparação anual de novembro reforça a leitura de um crescimento econômico enfraquecido e de perspectivas pouco animadoras à frente, consolidando o diagnóstico de uma desaceleração gradual da economia. Esse cenário mantém pressão sobre o Banco Central para iniciar a flexibilização monetária, ainda que de forma cautelosa.
É importante, no entanto, evitar conclusões apressadas: mesmo com o início dos cortes, o ritmo do ciclo tende a ser limitado pela desancoragem das expectativas de inflação, em grande parte associada à fragilidade do arcabouço fiscal e à perda de credibilidade nessa frente.
Assim, o Banco Central deve seguir prudente ao longo do processo. Ainda assim, o simples início do ciclo de afrouxamento já representa um vetor positivo para os ativos de risco neste começo de ano — ao menos até que a volatilidade eleitoral se manifeste de forma mais explícita.
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· 01:46 — Acordo aprovado
O Conselho da União Europeia deu aval ao acordo de livre-comércio com o Mercosul, conseguindo avançar apesar da resistência de países como França e Irlanda.
O fator determinante foi o apoio da Itália, que permitiu a formação da maioria qualificada necessária para a aprovação do tratado. Com essa etapa superada, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, está agora habilitada a se deslocar ao Paraguai para a cerimônia de assinatura, prevista para a próxima segunda-feira (dia 12), colocando um ponto final em uma negociação que se estendeu por 25 anos.
A França, por sua vez, votou contra o acordo sob forte pressão de produtores rurais locais, que temem a concorrência de produtos agrícolas do Mercosul. Paris já deixou claro que a disputa está longe de encerrada: o governo francês sinalizou que pretende mobilizar o Parlamento Europeu, onde o tratado ainda precisará ser ratificado, e avalia também recorrer ao Tribunal de Justiça da União Europeia.
O objetivo é tentar atrasar ou até suspender a aplicação do acordo, o que indica que, embora o avanço seja relevante do ponto de vista político e econômico, o caminho até a plena implementação ainda pode ser marcado por embates institucionais e jurídicos relevantes.
· 02:33 — Atenção para o payroll
Nos Estados Unidos, o começo de 2026 vem sendo caracterizado por uma rotação na liderança dos mercados de ações. Após um longo período em que as grandes empresas de tecnologia concentraram a maior parte dos ganhos, observa-se agora um desempenho superior das ações de empresas menores.
Esse movimento é sustentado por uma combinação de fatores: expectativas de retomada gradual do crescimento econômico nos Estados Unidos, efeitos defasados do ciclo de cortes de juros e, sobretudo, valuations mais atrativos nesse segmento, que ficou para trás nos últimos anos. Mais do que um sinal de aversão a risco, trata-se de um processo saudável de diversificação e redistribuição de fluxo entre setores e estilos de investimento.
Paralelamente, o mercado passa a operar com sensibilidade crescente aos dados macroeconômicos. O payroll de dezembro — o primeiro sem as distorções provocadas pelo longo shutdown — tende a reforçar a leitura de um mercado de trabalho que desacelera de forma ordenada, com leve recuo da taxa de desemprego, mas ainda com pressões salariais presentes.
Esse conjunto de informações sustenta a expectativa de que o Federal Reserve adote uma postura de cautela no início do ano, mantendo uma pausa no ciclo de cortes de juros. Ao longo de 2026, a política monetária deverá depender cada vez mais da leitura fina dos dados, o que reforça a importância de acompanhar de perto os indicadores de atividade, inflação e emprego.
· 03:28 — Tarifar ou não tarifar, eis a questão
O déficit comercial americano apresentou queda expressiva em outubro, recuando 39% na comparação mensal e atingindo US$ 29,4 bilhões — o menor patamar desde 2009.
O movimento foi sustentado por uma combinação de alta de 2,6% nas exportações e retração de 3,2% nas importações, um ajuste que tende a exercer contribuição positiva para o crescimento do PIB no quarto trimestre.
Vale destacar, contudo, que boa parte dessa melhora decorreu de fatores pontuais: o forte avanço das exportações de ouro respondeu por quase todo o crescimento das vendas externas, enquanto a queda das importações foi influenciada pela redução nas compras de produtos farmacêuticos, após um ciclo de antecipação de estoques diante das ameaças tarifárias.
Em contraste, as importações de equipamentos de informática continuaram em expansão, refletindo a demanda aquecida associada ao avanço da inteligência artificial.
Apesar do alívio observado no dado mensal, o pano de fundo estrutural segue cercado de incertezas. No acumulado do ano até outubro, o déficit comercial ainda se encontra 7,7% acima do registrado no mesmo período do ano anterior, sugerindo que os efeitos das tarifas permanecem irregulares e longe de um ajuste definitivo.
Esse debate ganha contornos ainda mais relevantes com a expectativa de uma decisão iminente da Suprema Corte dos Estados Unidos sobre a legalidade das tarifas implementadas por Donald Trump com base em poderes de emergência. Um eventual revés judicial poderia obrigar o governo a reembolsar importadores, lançar dúvidas sobre acordos comerciais já firmados e reacender preocupações fiscais e comerciais.
Ainda assim, mesmo nesse cenário, a Casa Branca dispõe de outros instrumentos legais que poderiam ser acionados para restabelecer tarifas, o que mantém o tema comercial no radar e reforça a leitura de um ambiente ainda volátil para o comércio internacional.
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· 04:01 — Mudança regional de eixo
Ao longo dos últimos dias, tenho dedicado parte desta newsletter a analisar os desdobramentos da incursão dos EUA na Venezuela, que, a meu ver, representa uma mudança estrutural na política externa americana em relação ao Hemisfério Ocidental.
Ao neutralizar um dos principais países da América Latina que mantinha uma parceria estratégica explícita e profunda com a China, Washington envia um sinal inequívoco de retomada prática da lógica da Doutrina Monroe, rebatizada por Donald Trump como “Doutrina Donroe”.
Depois de mais de duas décadas em que Pequim avançou de forma paciente, gradual e capilarizada sobre a região, os EUA responderam com velocidade e pragmatismo: pressão diplomática direta, sanções como instrumento recorrente, estímulo a mudanças de poder via processos eleitorais e, quando essas vias se mostraram insuficientes, o uso explícito da força. Nos últimos anos, uma sucessão de viradas políticas em países da América Latina consolidou esse novo alinhamento.
Em 2026, a Venezuela simboliza a continuidade desse ciclo. A mensagem para a região é direta: quem insistir em permanecer fora do novo eixo corre o risco de se tornar um problema. Brasil e Colômbia entram naturalmente nesse radar, justamente às vésperas de eleições, em um ambiente regional que passa a privilegiar segurança, previsibilidade econômica e pragmatismo político.
Ainda assim, é importante não subestimar o risco de exceção: caso a oposição não consiga se organizar em torno de um nome viável e competitivo, o Brasil pode contrariar o movimento regional e adiar essa inflexão para 2030, quando o contexto geopolítico pode já ser bastante distinto. Seja qual for o desfecho, a tese central permanece inequívoca: em um intervalo de poucos anos, o eixo de influência nas Américas foi profundamente redesenhado.
· 05:08 — Mais um passo na otimização de passivos
Na reta final do ano passado, a Cosan anunciou uma reorganização societária da Cosan Dez Participações — veículo por meio do qual a holding detém sua participação na Compass Gás e Energia — envolvendo o BTG Pactual e o Bradesco BBI.
A nova estrutura substitui o acordo firmado em 2022 e redefine a participação dos bancos: cada um passa a deter 4,99% do poder de voto por meio de ações preferenciais, preservando aproximadamente 23% do capital econômico do veículo. No agregado, a operação corresponde a R$ 4 bilhões em ações preferenciais e não altera o controle da Compass, que segue majoritariamente sob a Cosan, com 79% do capital votante.
Do ponto de vista econômico, a transação equivale a uma…