SAPR11: tudo que você precisa saber sobre as ações da Sanepar

Os bons dividendos e a avenida de crescimento pesam mais do que a ingestão política e a crise hídrica?
SAPR11: tudo que você precisa saber sobre as ações da Sanepar

As ações da Sanepar (especificamente a SAPR11) são recomendadas pelos nossos analistas nas séries Carteira Empiricus, Double Income, Palavra do Estrategista e Vacas Leiteiras. Como você pode ver, há consenso sobre esse ativo mesmo em carteiras com objetivos distintos.

Neste artigo, vamos esclarecer o perfil da Sanepar e o racional por trás da recomendação da sua ação. Para te ajudar, dividimos o conteúdo nos seguintes tópicos:

O que é a Sanepar?

A Companhia de Saneamento do Paraná foi criada na década de 1960 e atende as necessidades de 345 cidades do Paraná e uma de Santa Catarina. “O negócio é, basicamente, um monopólio natural, com contratos de longo prazo”, diz Felipe Miranda, CIO da Empiricus.

E essa natureza de longo prazo faz com que os resultados sejam mais previsíveis. Entretanto, vale destacar que essa qualidade é contrabalanceada pela ingerência política, que exploraremos posteriormente.

Vamos tangibilizar essa questão temporal em números: o prazo médio dos contratos é de 20 anos e, das mais de 340 concessões da Sanepar, apenas 28 venceram em 2020; apenas 60 vencerão entre 2021 e 2030; e todas as outras se estenderão para a próxima década.

Além do setor ter esse viés mais previsível, “há uma particularidade brasileira associada ao potencial de crescimento na coleta e tratamento de esgoto”, aponta Felipe. Aqui, “estamos muito abaixo da média internacional de países com renda semelhante, com grande espaço para evolução em saneamento básico, apesar de uma oferta de água sem precedentes”, conclui ele.

Para você, investidor, isso é bom porque a Sanepar conta com uma avenida de crescimento atrativa.

Agora, partindo para o lado operacional da companhia, estamos falando de uma das maiores empresas em operação no Paraná, com mais de 55 mil quilômetros de tubulações utilizadas para distribuição de água potável e mais de 36 mil quilômetros de rede coletora de esgoto.

Mais de 7 mil colaboradores estão por trás da infraestrutura de água potável, que atende mais de 10 milhões de pessoas; e da de esgoto, que serve cerca de 7 milhões de habitantes.

Com isso, estamos alinhados sobre o que a Sanepar faz, a peculiaridade temporal dela e a sua abrangência demográfica. Na próxima seção, vamos explorar quem comanda tudo isso.

Quem está por trás da Sanepar?

Até pouco tempo atrás, as ações da Sanepar contavam com um grave problema de liquidez: poucas instituições detinham grandes fatias da empresa. Mas isso mudou no começo de 2018, após uma grande venda por parte dos controladores — principalmente do governo do Paraná, Caixa Econômica e Andrade Gutierrez —, que totalizou cerca de R$ 1,5 bilhão.

Essa quantia foi convertida no chamado free float, ou seja, ações que circulam livremente no mercado: são elas que podemos comprar e vender.

A composição acionária da Sanepar, atualmente, é a seguinte:

Composição Acionária da Sanepar

O estado do Paraná possui 20,03% do capital total; o free float representa 73,83%

Ainda assim, precisamos filtrar a distribuição das ações para distinguir o peso do capital votante. Com isso, temos o seguinte cenário:

O estado do Paraná possui 60,08% do capital votante; o free float representa 36,5%

Como os gráficos mostram, o estado do Paraná ainda é o controlador da Sanepar, com participação majoritária no capital votante da empresa. Apesar da situação ter melhorado (em 2017, o governo detinha 90%), isso ainda é problemático porque a ingestão política está, constantemente, presente no horizonte da companhia.

Há, também, o aumento do free float, que em 2017 era de 64,3% do capital total, inferior aos 73,83% atuais. Com isso, podemos aferir que a volatilidade do papel aumentou com a venda da posição dos players institucionais, mas, por outro lado, sua liquidez também cresceu.

Em termos de mercado, no entanto, há três ações da companhia: SAPR3, SAPR4 e SAPR11. Na próxima seção, destrinchamos suas diferenças e expomos o motivo pelo qual recomendamos uma delas em detrimento das outras.

SAPR11 vs SAPR3 e SAPR4

Todas as empresas listadas na Bolsa de Valores possuem um ticker, ou seja, um código de quatro letras acompanhado de um ou dois números. Esse é um método criado para diferenciar cada ação, pois existem mais de 300 companhias na B3.

Além disso, uma empresa pode ter mais de um tipo de ação. É o caso da Sanepar.

A SAPR3 é a chamada ação ordinária (ON). A especificidade dela é que você ganha direito ao voto nas assembleias da empresa, ou seja, você vira um sócio ativo nas decisões da estatal. Mas não se engane: o poder concedido pela ação é proporcional ao volume que você possuir. Assim, ela é recomendada para investidores que forem comprar uma quantidade enorme de lotes.

Já a SAPR4 se encaixa como uma ação preferencial (PN). Ao comprá-la, você possui preferência na distribuição de dividendos e, caso o pior aconteça e a empresa seja liquidada, você também está na fila VIP para o reembolso do investimento (ou do que sobrar dele).

Perceba, aqui, que como são ativos de tipos diferentes, suas demandas são diferentes. Isso pode causar ligeiras oscilações nos preços de ambos, quando comparados.

Por fim, chegamos à nossa recomendação: SAPR11.

O número 11 pode simbolizar Units, fundos de investimento imobiliários e ETFs. Na Sanepar, trata-se do primeiro caso. Nunca ouviu falar de Units?

Explicamos.

Essa categoria de ações é como um mix das ações ordinárias e preferenciais da Sanepar. Assim, é uma forma de investir nelas simultaneamente e carregar ambos os benefícios.

Nas sugestões da Empiricus, SAPR11 é priorizada porque buscamos equilibrar as diferentes demandas entre SAPR3 e SAPR4, reduzindo as oscilações provenientes desse motivo específico. E, por falar em demanda, esse ativo é o que possui a maior liquidez entre as três classes de ações da Sanepar, o que a torna mais atrativa para nós.

Os bons dividendos de SAPR11

Como dito, SAPR11 é uma combinação entre os outros dois tipos de ação da Sanepar e, assim sendo, ela traz para você, investidor, os dividendos de SAPR4.

E aqui, nesse tema, encontramos um dos pontos mais fortes dessa indicação: o dividend yield da Sanepar é um dos maiores da Bolsa. 

Em junho de 2018, o Conselho de Administração aprovou o payout — nova política de distribuição de dividendos para 50% de distribuição do lucro líquido (25% obrigatório + 25% a depender das condições financeiras).

Assim, nossos analistas passaram a reforçar essa indicação — que já fazia parte do portfólio — para que os assinantes aproveitassem a superioridade do dividend yield da Sanepar, quase 2x superior ao dos seus pares de mercado.

Desde então, os dividendos de SAPR11 continuaram muito favoráveis para os seus investidores, variando entre 4% a 6% nos últimos anos.

O que importa, no entanto, é o que ainda está por vir.

A boa notícia é que a perspectiva para o futuro, de acordo com nosso analista Sérgio Oba, continua positiva nesse aspecto, com SAPR11 entregando um dividend yield de 8,6% e 7,1% ao ano, para 2021 e 2022, respectivamente:

SAPR11: dividend yield

Fonte: Bloomberg; Empiricus

O grande desconto em SAPR11

Quando analisamos a Sanepar sob a ótica do seu valuation, SAPR11 era, desde 2018, uma barganha: o papel era negociado a 6,5 vezes P/L na época e, em janeiro de 2020, a 9,1 vezes P/L.

Fonte: Bloomberg

Aqui, ficou claro que o mercado notou o desconto excessivo e reduziu a lacuna. Entretanto, os pares de mercado da Sanepar ainda eram negociados a 12,8 vezes P/L, ou seja, há uma margem de segurança confortável para os investidores continuarem segurando SAPR11.

E o que justifica isso?

O primeiro ponto para sustentar esse desconto já foi exposto anteriormente: a baixa liquidez das ações da empresa. Perceba como o preço da ação aumentou com mais agressividade após alguns meses da venda de SAPR11 pelos grandes players institucionais: 

Valorização de 71% em SAPR11 

E, por falar em players institucionais, ressaltamos que a presença do governo na composição acionária da Sanepar é o segundo ponto de atenção aqui. O progresso do marco regulatório PL 4.162/19 no Senado é uma questão bastante instável.

Se aprovado, será uma ótima notícia e destravará muito valor para SAPR11: trata-se de um dos pilares fundamentais da tese de nossos analistas sobre esse ativo. Ainda assim, “os riscos relacionados ao tema, como instabilidade jurídica, interferência política, execução das regras contratuais ao longo do tempo, entre outros, estão altamente presentes e de forma alguma devem ser ignorados”, destaca Oba.

Por fim, uma questão mais pontual é o impacto das secas sobre o desempenho da Sanepar. Em 2020, a falta de chuvas no estado do Paraná foi um golpe em cheio na empresa, que viu seus reservatórios atingirem as mínimas dos últimos cinco anos.

Níveis dos reservatórios - Consolidado em 5 anos

Fonte: Sanepar e Empiricus 

A crise hídrica forçou a companhia “a implementar um rodízio no fornecimento de água em busca de uma redução de consumo — o que vimos foi um volume de águas 2,4% menor na comparação anual, com impactos sobre receitas e margens”, explica Oba.

E a causa, como ele explica, é inevitável: “a estiagem que ocorre na região sul é reflexo de um evento meteorológico chamado ‘La Niña’, que causa uma maior concentração das chuvas na região Norte, levando o período de calor a se prolongar nas regiões Centro-Oeste e Sul”.

De acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), esse efeito deve perdurar até o primeiro trimestre de 2021, o que pode manter os reservatórios da Sanepar nos níveis mais baixos já registrados...

Veredito sobre SAPR11: comprar ou vender?

Entre os prós desse ativo, podemos colocar na mesa fatores como o dividend yield, um dos melhores da Bolsa; o desconto entre a Sanepar (SAPR11) em frente a seus pares, como Copasa (de Minas Gerais) e Sabesp (de São Paulo); e a potencial aprovação do novo marco do saneamento básico, que pode destravar ainda mais valor para os seus acionistas.

Para nossos analistas, são motivos fortes que sustentam nossa sugestão: compre SAPR11.

Ainda assim, queremos ressaltar que os riscos não são — e nem devem ser — ignorados por vocês, investidores. Entre os contras, devemos nos atentar a fatores como a ingestão política na empresa e o atraso do processo regulatório; além da questão hidrológica envolvendo as secas, que pressiona os níveis de reservatório e de consumo.

Nós, da Empiricus, redobramos nossa atenção sobre o desenrolar destas situações à frente e, caso necessário, não hesitaremos em encerrar nossa posição e acompanhar à distância os efeitos sobre o setor.