Brasileiros usam poupança para quitar dívidas e colocam projeções de bancos em dúvida

Mais brasileiros estão usando as economias para quitar dívidas, que ficaram mais caras com a crise econômica. Um sinal de que as projeções dos bancos para o crescimento de carteira podem ser otimistas demais.

Por Francisco Marcelino.

“O crédito não está crescendo e as pessoas estão usando a poupança para quitar dívida cara”, disse Max Bohm, analista da empresa de consultoria Empiricus Research em São Paulo, em entrevista. “A maioria das carteiras de crédito dos bancos vai crescer no piso do guidance, se chegar a crescer”.

Conceder empréstimos está menos atraente. A contração da economia brasileira deve ser a mais longa desde os anos 1930. O aumento dos juros para combater a inflação, que ficou acima do centro da meta todos os anos desde 2010, é outro desestímulo. A taxa Selic está no maior nível em mais de nove anos. Com isso, os bancos estão restringindo o crédito para manter a inadimplência sob controle.

Os consumidores estão respondendo com desalavancagem: o endividamento das famílias caiu para 45,8 por cento em junho, menor nível em um ano, enquanto que os depósitos em poupança recuaram 3 por cento em agosto em relação ao recorde de R$ 643,2 bilhões em dezembro do ano passado, segundo os dados mais recentes do BC.

Já os bancos estão emprestando menos. A concessão de novos empréstimos caiu 1,4 por cento no acumulado de janeiro a agosto em relação ao mesmo período do ano passado, segundo o BC.

O Itaú Unibanco Holding SA, maior banco da América Latina em valor de mercado, reduziu em maio sua estimativa para crescimento da carteira de crédito neste ano: passou de 6 por cento a 9 por cento para uma faixa de 3 por cento a 7 por cento. O Banco Bradesco SA, o segundo maior da região, estima que os empréstimos irão se expandir na parte de baixo de sua projeção de 5 por cento a 9 por cento, disse o diretor executivo Luiz Carlos Angelotti em julho.

Confiança do consumidor

O Itaú e o Bradesco não quiseram comentar.

O Itaú subia 0,4 por cento, cotado a R$ 26,62, às 11h49 em São Paulo, e o Bradesco subia 0,7 por cento, a R$ 21,57.

Os juros médios dos empréstimos pessoais subiram para 61,2 por cento em agosto, nível mais alto desde março de 2011, quando o BC começou a compilar os dados. Já a confiança do consumidor atingiu uma baixa recorde em setembro, segundo dados da Fundação Getúlio Vargas divulgados na semana passada.

“O que o índice de confiança está dizendo para as pessoas? Diminuam a alavancagem”, disse Denise Pavarina, presidente da Anbima, a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais, em uma entrevista em São Paulo, na segunda-feira. “Você pode perder seu emprego, você pode não estar em condição de pagar essa dívida depois”.

Dívida e renda

O comprometimento da renda com a amortização da dívida caiu para o menor nível em mais de quatro anos, segundo o BC.

Os consumidores e as empresas do Brasil vão conseguir desalavancar rapidamente, porque a maior parte da dívida é de curto prazo, com vencimento em um ou dois anos, disse Carlos Thadeu de Freitas Gomes Filho, economista da Franklin Templeton Investments no Rio de Janeiro. E essa desalavancagem deve aumentar o consumo lá na frente, segundo ele.

“Assim que a gente tiver uma definição política, a expectativa dos consumidores e da indústria parar de piorar, já vai haver uma maior demanda por crédito via consumo represado”, disse Gomes Filho, em entrevista por telefone.

Fonte: Bloomberg

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