Onde investir em 2017

Estrategista-chefe da Empiricus, Felipe Miranda, fala quais os melhores investimentos de 2017.

02/01/2017 – 08H06 – ATUALIZADA ÀS 08H06 – POR DANIELA FRABASILE

A renda fixa ainda deve garantir os melhores rendimentos, mas algumas ações também podem trazer boa rentabilidade no ano

Com o início de 2017, este pode ser um bom momento para tirar aquele dinheiro guardado na poupança e alocar em outros investimentos com maior rentabilidade. É consenso entre os especialistas que a caderneta não é a melhor opção para quem quer ver o dinheiro render. Mas sempre fica a dúvida: onde investir?

Para os especialistas, a renda fixa ainda é a melhor opção. Apesar da expectativa de queda da Selic, a taxa de juros real (juros menos inflação) deve ficar em torno de 6% em 2017, patamar bastante elevado se comparado a outros países.

Com a expectativa de que a economia se estabilize ao longo do ano e que o PIB apresente crescimento, ainda que moderado, a bolsa também pode oferecer algumas boas opções de investimento. “Estamos em uma trajetória de reconstrução do Brasil. Quem tem estômago e orientação de longo prazo pode ter bons ganhos”, diz Felipe Miranda, estrategista-chefe da Empiricus.

Renda fixa ainda vale a pena

Com a taxa básica de juros em trajetória de queda, mas ainda elevada, e a expectativa de inflação menor para o ano que vem, a renda fixa ainda é uma aposta certeira para os investidores. Além disso, o ano de 2017 não deve ser de total calmaria — a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e a alta dos juros por lá podem interferir nos mercados financeiros em todo o mundo — e, por isso, a segurança dos ativos de renda fixa deve atrair investidores.

André Lassance, responsável pela área de Renda Fixa da XP Investimentos, alerta que antes de escolher em quais papéis investir, é importante saber quando você vai precisar do dinheiro de volta. “Se você precisar daquele dinheiro para fazer uma reforma ou comprar um bem, é importante não investir em ativos de muito longo prazo ou que não tenham liquidez”, afirma.

Na renda fixa, existem os ativos pré-fixados, aqueles nos quais a remuneração é definida na hora da compra dos títulos, e os pós-fixados, quando isso é determinado depois. “Quem quer uma estratégia mais conservadora deve investir mais em pós-fixado, que é menos suscetível à volatilidade de mercado”, diz Lassance. Nos pós-fixados, uma sugestão dos especialistas para o momento atual é o Tesouro IPCA + (antigo NTN-B) com vencimento em três anos.

Para Miranda, da Empiricus, porém, os pré-fixados podem ter um desempenho melhor em 2017. “Eu acredito que o juro vai cair mais do que o mercado está contemplando, não me surpreenderia em ver a Selic em um dígito no fim de 2017”, diz. No caso dos títulos pré-fixados, já de largada, os investidores sabem o quanto o dinheiro vai render até o vencimento. Por isso, eles têm no preço uma projeção de quanto deve estar a Selic durante todo o período. Se ela cair mais do que o mercado espera, o investidor acaba se dando bem, porque seu rendimento será superior à rentabilidade da Selic em vigor após a compra de seu título.

Uma dica para investir nos pré-fixados é fazer a aplicação apenas se você tem condições de manter aquele investimento até o vencimento, quando estará garantido o rendimento contratado. Antes do vencimento, os títulos podem ser vendidos, mas o preço será determinado pelo mercado e você pode acabar perdendo dinheiro.

Para quem quer investir no curto prazo, Lassance sugere CDBs (certificado de depósito bancário, uma espécie de empréstimo que você faz ao banco) e LCIs (Letras de Crédito Imobiliário, um tipo de investimento lastreado em empréstimos para o setor imobiliário).

Para quem quer investir no curto prazo, Lassance sugere CDBs (certificado de depósito bancário, uma espécie de empréstimo que você faz ao banco) e LCIs (Letras de Crédito Imobiliário, um tipo de investimento lastreado em empréstimos para o setor imobiliário).

Claudio Sanches, diretor do Itaú, afirma que “LCIs e LCAs, como são isentas de tributação para pessoas físicas, pagam um pouco mais para os clientes e são uma boa opção para o dinheiro de segurança”. No entanto, ele afirma que é importante analisar quando será possível fazer o regaste do investimento.

Mauro Mattes, gerente de investimentos da Concórdia Corretora, lembra ainda que as debêntures de infraestrutura, que são títulos de dívidas de empresas do setor, são incentivadas e atualmente não há cobrança de imposto de renda para pessoas físicas, por isso podem ser uma boa opção.

Fundos são boa opção para diversificar investimentos

Fundos de investimento podem ser uma opção para quem quer diversificar suas aplicações ou prefere terceirizar a gestão do dinheiro. Mas, antes de investir em qualquer fundo, é preciso avaliar com cuidado. Em especial, o investidor deve prestar atenção às taxas cobradas pelos fundos. Elas têm impacto direto na rentabilidade do investimento.

Para Sanches, do Itaú, os fundos multimercados são uma opção para quem quer diversificar e não tem muito tempo e experiência para eventualmente ficar realocando seus investimentos. Esses fundos possuem um gestor que normalmente tem a liberdade para investir em renda fixa, câmbio e ações. Há fundos de diversos perfis, inclusive alguns com alto risco, portanto, na hora de investir, você deve ficar atento à estratégia de cada um deles.

Mattes sugere que, ao escolher fundos de ações, o investidor deve avaliar se aquele produto é compatível com seu perfil de risco. “Se é alguém que quer colocar dinheiro em ações, pode ser uma boa ideia fazer isso via fundo de investimento, com acompanhamento de alguém que tem conhecimento no assunto, mas tem que ver qual é a política de investimento do fundo e o nível de alavancagem desse fundo, para ver se o grau de risco está no nível que o investidor está disposto a tolerar”, diz. Em fundos que permitem a alavancagem, por exemplo, há a possibilidade de perda superior ao capital investido pelo cliente — e, nesse caso, o investidor precisa colocar mais recursos para cobrir o prejuízo do fundo.

Para Miranda, da Empiricus, os fundos imobiliários, apesar de isentos de IR, não são uma boa opção nesse momento. Esses fundos investem em imóveis e os colocam para locação, lucrando com o pagamento de aluguel dos inquilinos. “Estruturalmente, é interessante como investimento. Principalmente para o brasileiro, que ainda gosta muito da ideia do aluguel, de ter uma renda mensal. Mas eles têm baixa liquidez em bolsa e são muito ligados ao desempenho da economia. Atualmente, a oferta de imóveis e a vacância estão elevados”, diz.

Bolsa para quem quer arriscar

Para quem aceita investir em ativos com risco maior, a bolsa pode trazer boas opções para o próximo ano. Com a expectativa de que a economia brasileira pelo menos se estabilize, as empresas devem começar a apresentar resultados melhores — o que potencialmente pode dar valorizar as ações. Como grande parte das companhias brasileiras se estruturaram para sobreviver à crise, qualquer melhora deve ser positiva para a geração de caixa e a margem de lucro.

“O cenário econômico pode ser mais favorável. O mercado não espera uma recuperação forte da economia, mas também não prevê tanta volatilidade como tivemos em 2016”, afirma Marco Saravalle, analista da XP Investimentos.

“A bolsa hoje não está barata, considerando que os lucros estão entre 25% e 30% abaixo da média histórica”, diz Miranda, da Empiricus. Nesse cenário de lucros deprimidos, diz ele, qualquer estabilização ou leve crescimento da economia poderá fazer com que as empresas recuperem seus lucros e, consequentemente, as ações se valorizem. “Algumas empresas estão tão adaptadas que qualquer recuperação marginal da receita pode trazer uma grande alta na geração de caixa”, afirma Saravalle.

Outro sinal positivo para a bolsa é a expectativa de redução da Selic. Para as empresas endividadas, a queda da taxa básica de juros significa uma grande economia nas despesas financeiras. “Temos companhias bastante alavancadas. O pagamento da dívida tem consumido bastante caixa das empresas, portanto, essa baixa de juros é muito positiva”, diz Samuel Torres, analista da Spinelli Corretora.

“Nossa recomendação é montar uma carteira com base em empresas que têm apresentado menor dependência das questões políticas”, afirma Saravalle.

Confira abaixo as ações mais recomendadas pelas corretoras consultadas por NEGÓCIOS para 2017:

Itaú
Os papéis do banco não são novidade nas recomendações de compra. “Tivemos uma queda recente nos papeis, portanto, as ações estão com um preço aceitável”, diz Torres, da Spinelli. O Itaú deve se beneficiar da esperada queda na inadimplência, e seus papeis atualmente são negociados a preços atrativos. “Mesmo com um cenário bastante desafiador, eles conseguiram ser conservadores e se adaptaram ao cenário com rentabilidade muito boa”, afirma Saravalle. Além disso, ações do banco costumam acompanhar o movimento do Ibovespa. “Se um investidor está otimista com bolsa, deve ter o Itaú em sua carteira”, diz Miranda, da Empiricus.

Petrobras
Nos últimos anos, o desempenho das ações da Petrobras tinha muita relação com os eventos políticos. Mas, com a gestão de Pedro Parente, isso parece ter mudado, o que animou os acionistas da empresa. Há no mercado a percepção de que Parente deve dar continuidade ao plano estratégico proposto para a estatal, em especial as vendas de ativos. “Nos últimos meses, o comportamento das ações da estatal estão mais dependentes do barril de petróleo lá fora do que dos eventos políticos aqui no Brasil”, diz Saravalle. Com o recente acordo entre os maiores países exportadores de petróleo para diminuir da produção, as projeções para o setor são otimistas. “Pelo que estamos vendo, o pior momento passou, e o risco de queda dos preços de petróleo é pequeno”, afirma Torres, da Spinelli.

Rumo-ALL
Atuando no setor de infraestrutura, a Rumo deve se beneficiar tanto da queda dos juros quanto das concessões ferroviárias e rodoviárias esperadas para o próximo ano. Ao comprar ações da empresa agora, o investidor pode ter ganhos expressivos, caso essas expectativas se concretizem.

Kroton e Estácio
Após a aquisição da Estácio pela rival Kroton, as duas empresas têm muitas sinergias para capturar, o que significa redução de custos. Além disso, as companhias do setor de educação tendem a se beneficiar do Fies, após a publicação das regras do programa para o primeiro semestre do ano, no fim de dezembro.

Hypermarcas
A empresa atua no setor de consumo, que foi muito afetado nos últimos anos. Por isso, a expectativa é que a estabilização da economia brasileira seja suficiente para impulsionar os lucros da companhia. Para Miranda,da Empiricus, em comparação com outras empresas de consumo, como Ambev e Renner, a Hypermarcas é uma opção mais barata. Além disso, a empresa tem exposição em saúde, segmento com perspectiva otimista.

Cosan
A empresa atua tanto na distribuição de combustíveis quanto no mercado de açúcar e álcool  — dois setores com perspectivas positivas para o próximo ano. “Com o governo querendo vender a BR Distribuidora, cria-se um ambiente muito favorável para a distribuição de combustíveis”, diz Miranda. Além disso, ele descreve a diretoria da Cosan como “excelente, talvez a melhor equipe de gestão que temos no Brasil hoje”.

Fibria
Marco Saravalle, da XP Investimentos, sugere que os investidores tenham parte de seus recursos investidos em ações da Fibria, empresa que atua no segmento de papel e celulose, por uma questão defensiva. O desempenho da empresa muitas vezes é pautado pelo setor externo e se descola das brasileiras nos movimentos de alta e queda. “É uma estratégia de proteção da carteira, com a redução do otimismo para 2017. Se houver algum momento de maior aversão ao risco, esse é um papel que pode apresentar crescimento”, disse o analista. “Muitas vezes o Ibovespa está caindo, mas a Fibria está em alta”, completa.

BM&F Bovespa
A proposta de fusão com a Cetip deve beneficiar as ações da BM&F Bovespa. “Mesmo se o Cade aprovar o negócio com restrições, vemos isso como sendo um movimento positivo para a empresa, porque há muitas sinergias para capturar”, afirma Samuel Torres, da Spinelli.

Dólar

Investimentos em dólar são polêmicos. Há quem diga que é arriscado comprar a moeda por causa da volatilidade, mas há também quem defenda que é uma boa forma de proteger seu patrimônio.

Marcio Cardoso, sócio-diretor da Easynvest, faz parte do primeiro grupo. Segundo ele, só deve comprar dólar quem tem compromisso na divisa norte-americana e precisa de uma proteção, caso a cotação tenha uma alta expressiva.

William Eid, professor de finanças da FGV, lembra que para pessoas físicas é difícil operar nesse mercado. “Normalmente, o investidor não tem acesso ao dólar comercial, então ele vai para a cotação do dólar turismo, que já é bem menos vantajosa”, afirma. “Além disso, a diferença entre o preço de compra e o preço de venda, tanto em casas de câmbio quanto diretamente com os bancos, é gigante”, completa. Ou seja, se você precisar vender seus dólares, pode acabar perdendo dinheiro.

Para Claudio Sanches, do Itaú, o dólar é uma das variáveis mais difíceis de se prever. “A volatilidade é muito grande e há muitos fatores que influenciam na cotação. Quando uma variação grande acontece é por causa de algum evento que não estava previsto”, afirma. Ele ressalta, contudo, que o investimento na moeda pode representar uma parte pequena da carteira de clientes que tenham um perfil de investimento mais arriscado.

Felipe Miranda, estrategista-chefe da Empiricus, defende que os investidores devem ter parte de seu portfólio na moeda estrangeira. “Risco é estar em real, dólar é segurança. Precisamos pensar que há uma chance não desprezível de rupturas — e se o Cunha delatar o Temer ou se passar uma PEC que convoca eleições diretas e o Lula for eleito? A bolsa despencaria e o dólar iria para as alturas. Nesse cenário, o melhor é ter parte do patrimônio em dólar”, diz.

Fonte: Época Negócios

Conteúdo relacionado