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Crypto Talks

As narrativas que o mercado cria

A verdade é que o mercado tradicional ainda não quer se arriscar com aquilo cujo valuation ele não pode medir, ou pelo menos achar que consegue fazê-lo.

Por André Franco

14 nov 2018, 15:19

23:58 – Bitcoin? Isso daí é dinheiro de nerd, dinheiro de jogo, não vale nada. 

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23:59 – Blockchain e bitcoin? Nenhuma dessas coisas vai dá certo. Uma é dinheiro fictício e a outra ninguém usa ou entende o que é de fato. 

00:00 – Veja bem, o bitcoin não tem futuro, mas o blockchain tem várias aplicações, sim. 

00:01 – Como eu disse, o bitcoin não tem futuro, mas além de o blockchain ter utilidade, existem outras criptomoedas que vão ganhar do bitcoin daqui a uma década. 

00:02 – Na verdade, as criptomoedas têm sua utilidade, assim como o bitcoin, mas o que vai prosperar mesmo são as empresas que utilizam o blockchain em seus negócios e têm fluxo de caixa como qualquer outra. 

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Realmente, o mercado cria a narrativa que quiser e tenta empurrar goela abaixo nos seus clientes.

Provavelmente, seria alguma variação desses papos acima citados que você ouviria se ligasse para o “research” de algum bancão gringo, de 2012 até 2016, pedindo a visão deles sobre essas tecnologias.

Atualmente, o mercado financeiro, que abriu os olhos para as criptomoedas e o blockchain, criou a narrativa de que as empresas que utilizam blockchain ou que proveem serviços dessa natureza para outras são as que prosperarão.

No entanto, confiar nessa tese saída da mesma boca que proferiu que o bitcoin era só dinheiro fictício me parece imprudente.

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A verdade é que o mercado tradicional ainda não quer se arriscar com aquilo cujo valuation ele não pode medir, ou pelo menos achar que consegue fazê-lo.

Afinal, me diga aí dez valuations baseados em fluxo de caixa descontado que seguiram exatamente a realidade criada em células de uma planilha.

Acho bem difícil você encontrar um sequer. 

Mas, então, por que esses caras insistem em vender a tese das empresas que utilizam blockchain como o santo graal desse mercado?

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Porque parece o mais familiar para eles. É mais fácil criar essa tese e modelá-la do que procurar novos instrumentos e tentar fazer o valuation de criptoativos.

Para mim, a imagem abaixo representa o que esse mercado, na maioria das vezes, está fazendo.

É muito mais oportuno procurar onde tem luz, mas, nesse espaço, todos estão procurando também. 

E veja que ter mais olhos atentos nos mesmos pontos não torna o trabalho individual mais fácil, mas apenas mais conveniente. 

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Deixando a parte filosófica de lado, vamos pensar nos números mais básicos: quantidade de pessoas dedicadas aos projetos descentralizados em comparação com as empresas de blockchain. 

Uma startup deve ter uma dezena de pessoas dedicadas ao desenvolvimento.

Já projetos como o ethereum têm dezenas de milhares de pessoas envolvidas.

Uma empresa não pode simplesmente abrir sua vantagem competitiva para o mundo e colher feedbacks do mercado; isso seria irracional e poderia matar o seu negócio.

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Já os projetos descentralizados são, em essência, uma sequência de interações entre os seus desenvolvedores e melhorias constantes propostas por essas milhares de pessoas envolvidas no projeto. 

Estruturalmente, uma empresa nunca vai ter as vantagens que um projeto como o ethereum tem, simplesmente porque os dois têm naturezas totalmente diferentes.

Para entender como a natureza dos negócios impossibilita certas coisas, pense na Google e na Microsoft.

Apesar de trabalharem ambos com tecnologia, o primeiro oferece uma série de softwares online gratuitos e o segundo tem um pacote que é vendido. 

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Se a Microsoft quisesse, da noite para o dia, parar de vender seu pacote Office e passasse a distribui-lo de graça, provavelmente mataria parte do seu negócio.

A essência do que um é não permite que ele replique a mesma tese de negócio que deu certo no outro. 

É por isso que acho que os projetos descentralizados darão mais certos que as empresas de blockchain em si, por uma questão de natureza.

Engenheiro mecatrônico formado pela Universidade de São Paulo, é editor responsável pelas séries sobre criptoativos. Vive em busca das próximas oportunidades nesse meio para multiplicar o patrimônio dos seus assinantes.