As narrativas que o mercado cria

A verdade é que o mercado tradicional ainda não quer se arriscar com aquilo cujo valuation ele não pode medir, ou pelo menos achar que consegue fazê-lo.

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As narrativas que o mercado cria

23:58 – Bitcoin? Isso daí é dinheiro de nerd, dinheiro de jogo, não vale nada. 

23:59 – Blockchain e bitcoin? Nenhuma dessas coisas vai dá certo. Uma é dinheiro fictício e a outra ninguém usa ou entende o que é de fato. 

00:00 – Veja bem, o bitcoin não tem futuro, mas o blockchain tem várias aplicações, sim. 

00:01 – Como eu disse, o bitcoin não tem futuro, mas além de o blockchain ter utilidade, existem outras criptomoedas que vão ganhar do bitcoin daqui a uma década. 

00:02 – Na verdade, as criptomoedas têm sua utilidade, assim como o bitcoin, mas o que vai prosperar mesmo são as empresas que utilizam o blockchain em seus negócios e têm fluxo de caixa como qualquer outra. 

Realmente, o mercado cria a narrativa que quiser e tenta empurrar goela abaixo nos seus clientes.

Provavelmente, seria alguma variação desses papos acima citados que você ouviria se ligasse para o “research” de algum bancão gringo, de 2012 até 2016, pedindo a visão deles sobre essas tecnologias.

Atualmente, o mercado financeiro, que abriu os olhos para as criptomoedas e o blockchain, criou a narrativa de que as empresas que utilizam blockchain ou que proveem serviços dessa natureza para outras são as que prosperarão.

 

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No entanto, confiar nessa tese saída da mesma boca que proferiu que o bitcoin era só dinheiro fictício me parece imprudente.

A verdade é que o mercado tradicional ainda não quer se arriscar com aquilo cujo valuation ele não pode medir, ou pelo menos achar que consegue fazê-lo.

Afinal, me diga aí dez valuations baseados em fluxo de caixa descontado que seguiram exatamente a realidade criada em células de uma planilha.

Acho bem difícil você encontrar um sequer. 

Mas, então, por que esses caras insistem em vender a tese das empresas que utilizam blockchain como o santo graal desse mercado?

Porque parece o mais familiar para eles. É mais fácil criar essa tese e modelá-la do que procurar novos instrumentos e tentar fazer o valuation de criptoativos.

Para mim, a imagem abaixo representa o que esse mercado, na maioria das vezes, está fazendo.

É muito mais oportuno procurar onde tem luz, mas, nesse espaço, todos estão procurando também. 

E veja que ter mais olhos atentos nos mesmos pontos não torna o trabalho individual mais fácil, mas apenas mais conveniente. 

Deixando a parte filosófica de lado, vamos pensar nos números mais básicos: quantidade de pessoas dedicadas aos projetos descentralizados em comparação com as empresas de blockchain. 

Uma startup deve ter uma dezena de pessoas dedicadas ao desenvolvimento.

Já projetos como o ethereum têm dezenas de milhares de pessoas envolvidas.

Uma empresa não pode simplesmente abrir sua vantagem competitiva para o mundo e colher feedbacks do mercado; isso seria irracional e poderia matar o seu negócio.

Já os projetos descentralizados são, em essência, uma sequência de interações entre os seus desenvolvedores e melhorias constantes propostas por essas milhares de pessoas envolvidas no projeto. 

Estruturalmente, uma empresa nunca vai ter as vantagens que um projeto como o ethereum tem, simplesmente porque os dois têm naturezas totalmente diferentes.

Para entender como a natureza dos negócios impossibilita certas coisas, pense na Google e na Microsoft.

Apesar de trabalharem ambos com tecnologia, o primeiro oferece uma série de softwares online gratuitos e o segundo tem um pacote que é vendido. 

Se a Microsoft quisesse, da noite para o dia, parar de vender seu pacote Office e passasse a distribui-lo de graça, provavelmente mataria parte do seu negócio.

A essência do que um é não permite que ele replique a mesma tese de negócio que deu certo no outro. 

É por isso que acho que os projetos descentralizados darão mais certos que as empresas de blockchain em si, por uma questão de natureza.