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Day One

Esta história de ficar rico é uma beleza

Contardo Calligaris nos ensinou que o senso estético reflete, ainda que tacitamente, uma profunda erudição.

Por Rodolfo Amstalden

20 fev 2020, 10:10

Contardo Calligaris nos ensinou que o senso estético reflete, ainda que tacitamente, uma profunda erudição.

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O pai de Contardo, italiano, manteve-se distante do fascismo por considerar os fascistas vulgares (um critério estético).

Sob tal régua, empresas listadas consideradas belas (sob quaisquer critérios, verbalizáveis ou não) frequentemente implicam grandes potenciais de valorização acionária, enquanto empresas feias carregam a ameaça de largos prejuízos.

Se é difícil definir e catalogar o belo e o feio, ainda mais difícil é identificar o lucro e o prejuízo a priori. Logo, entre duas dificuldades, fico com a menor delas.

Isso tudo me ocorreu ontem, no banco de trás do uber que me trazia para a Empiricus.

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Ao contrário do que talvez valesse no 1929 dos taxistas de Joe Kennedy, deriva-se hoje enorme sabedoria financeira das conversas com motoristas de táxi ou de uber.

Taxistas e uberistas são profissionais com os dois pés no pedal, sabem quanto esforço é necessário para faturar R$ 6 mil líquidos por mês. Sentem de longe o cheiro de pirâmides e não acreditam em milagres financeiros.

Com olfato apurado, esse motorista de ontem me perguntou como era possível que a empresa dos patinetes pudesse triunfar financeiramente, dado tamanho desleixo com os próprios patinetes.

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“Ando por São Paulo inteira, vejo patinetes jogados em terrenos baldios, jogados no meio de praças, em canteiros, até jogados no meio da rua. Quem cuida desses patinetes?” 

Lembrei-me de minha primeira impressão ao ver também tantos patinetes abatidos, pacientes terminais sem leito, semicadáveres deixados para o abandono em cova rasa.

Note que o motorista não tinha qualquer informação sobre a estrutura de capital ou sobre os fluxos de caixa da empresa. Ele “apenas” capturou a estética do negócio, e daí se indignou com um hipotético sucesso financeiro.

“As bicicletas do Itaú eu entendo, são bem organizadas, tem lugar pra pegar, lugar pra deixar, vejo os meninos do Itaú consertando, enchendo pneu, mas os patinetes, largados desse jeito, eu juro que não consigo entender.”

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Quem consegue entender?

Materialista histórico enrustido, o financista típico há de argumentar que toda beleza decorre, em última instância, do rigor administrativo-financeiro da empresa, do modelo de negócios, das barreiras à entrada, do poder de disrupção.

Já achei. Hoje não acho que seja assim. 

Quanto mais envelheço, mais sinto que a beleza vem da origem, vem antes de tudo, e que o amor ao belo organiza as demais coisas de forma que não fiquem caídas por toda parte.

Sócio-fundador e CEO da Empiricus, é bacharel em Economia pela FEA-USP, em Jornalismo pela Cásper Líbero e mestre em Finanças pela FGV-EESP.