Dizem por aí que o mercado está ficando cada vez mais complexo.
Tubarões institucionais teriam acesso a informações privilegiadas, única forma de competir com a inteligência artificial dos infalíveis algoritmos de high frequency trading.
Não vou dizer que não existam certos privilégios, e nem que os algoritmos sejam irrelevantes (embora longe de serem infalíveis).
No entanto, em meio a um discurso de enormes complexidades e modernidades, quem dá as cartas em 2020 é a pessoa física, seja ela a Maria das Graças ou o Ilson Mateus.
Reconhecimento seja dado ao investidor individual, cujo peso comum é elevado à potência das massas.
De forma análoga, em meio a boatos conspiratórios, modelos científicos e ferramentas tecnológicas, os grandes gatilhos do início de outubro são absolutamente mundanos.
Nos EUA, o presidente ficou doente, depois sarou e tuitou.
No Brasil, o ministro da Fazenda topou jantar com o presidente da Câmara, e vice-versa.
Você fica surpreso que um jantar possa fazer a Bolsa ir dos 94 para os 97 mil pontos, devolvendo o dólar para baixo de R$ 5,50?
É simples assim, e por isso funciona.
A complexidade nas relações do Planalto faz o mercado cair, e a simplicidade faz subir.
O que há de tão poderoso em um jantar?
A maior parte do trabalho dos políticos – e também dos economistas – consiste em conversar, persuadir, entender o outro lado e mudar a forma como as pessoas pensam (ou não pensam).
Segundo cálculos da Professora McCloskey, aquilo que os cientistas sociais chamam de “sweet talk” é responsável por nada menos que um quarto de todo o PIB global.
Conseguimos ficar isolados por um tempo, mas não conseguimos ficar sem jantar e sem conversar.
Imagino que um parlamentar seja versado na arte da retórica por ordem da prática do ofício. Por outro lado, os economistas estão em dívida nessa matéria, uma dívida que já estourou os 100% do PIB.
Se não fosse a sorte de cair na classe da Bianchi, nem eu e nem o Felipe teríamos tido aulas de retórica na faculdade.