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A dinâmica de crescimento, emprego e inflação nos Estados Unidos voltou a ocupar papel central nas decisões dos investidores neste começo de 2026, recolocando a agenda macroeconômica no protagonismo e moldando as expectativas em torno da trajetória dos juros e, por extensão, da precificação dos ativos de risco. Às vésperas da divulgação dos principais indicadores da semana, como o payroll lá fora e o IPCA aqui, o mercado acompanha hoje os dados de auxílio-desemprego nos EUA em busca de sinais mais finos sobre o ritmo da atividade. Ainda que o debate sobre valuations elevados e um possível excesso de otimismo em torno da inteligência artificial permaneça, o S&P 500 continua orbitando suas máximas históricas, evidenciando um ambiente que segue marcado por apetite ao risco e certa complacência.
No cenário internacional, contudo, o movimento é menos uniforme. As bolsas asiáticas encerraram o pregão em queda, pressionadas principalmente pelo desempenho negativo das ações de tecnologia e pelas preocupações com a forte emissão de dívida soberana anunciada pela China. No Japão, o mercado de títulos encontrou apenas um alívio pontual após um leilão de papéis longos, insuficiente para dissipar os receios estruturais. Na Europa, os principais índices operam em baixa diante do recrudescimento das tensões geopolíticas, intensificadas por novas declarações de Donald Trump envolvendo a Groenlândia. Nos Estados Unidos, os futuros recuam enquanto investidores aguardam o payroll de sexta-feira (9), ao mesmo tempo em que o petróleo ensaia uma recuperação parcial, em meio aos desdobramentos da Venezuela, à apreensão de petroleiros e aos sinais de maior controle americano sobre a oferta.
· 00:54 — No aguardo de vetores mais quentes
No Brasil, o Ibovespa recuou mais de 1% na quarta-feira (7), voltando a operar abaixo dos 162 mil pontos, em linha com o movimento de correção observado nas bolsas globais após as altas do início da semana. A queda foi puxada principalmente pelo setor financeiro, mesmo com o desempenho positivo da Vale, que seguiu se beneficiando da valorização do minério de ferro. A atenção dos investidores se desloca agora para a divulgação da produção industrial de novembro, que deve indicar estagnação e reforçar a leitura de perda gradual de fôlego da atividade, aumentando a probabilidade de que o Banco Central inicie o ciclo de cortes da Selic já na reunião de março.
No campo político, a agenda em Brasília é relevante. Cresce a expectativa de que o presidente Lula anuncie o veto ao projeto de lei da dosimetria de penas durante a solenidade que marca os três anos dos eventos de 8 de janeiro. Ainda que o veto venha a ser formalizado, a leitura predominante é de que ele tende a ser derrubado no Congresso e, posteriormente, o tema pode acabar judicializado no Supremo Tribunal Federal. Independentemente do desfecho, o projeto é visto como um dos fatores que poderiam levar Flávio Bolsonaro a reavaliar sua candidatura até março, caso ela continue enfrentando elevado nível de rejeição — algo que só deverá ficar mais claro após o Carnaval.
Por fim, o mercado segue acompanhando com atenção o caso do Banco Master, que explicitou um embate institucional entre o Banco Central e o Tribunal de Contas da União e já começa a gerar desconforto entre investidores estrangeiros, diante do receio de uma eventual ameaça à independência da autoridade monetária. O temor é que uma atuação considerada excessiva do TCU amplifique a insegurança jurídica e acabe afetando o fluxo de capital externo para o país. No curto prazo, a tendência é de suspensão da inspeção determinada de forma monocrática até o fim do recesso do tribunal. O presidente do TCU afirmou que não há, por ora, elementos para concluir que a liquidação do Master, decretada pelo BC em novembro, tenha sido precipitada, ressaltando ainda que qualquer reversão da decisão caberia exclusivamente ao STF. O setor financeiro, com peso relevante no Ibovespa e caráter sistêmico para o mercado local, já começa a refletir esse pano de fundo em maior volatilidade.
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· 01:48 — Ansiedade para o payroll
Nos EUA, o mercado de ações atravessou uma sessão mais adversa ontem, registrando as maiores quedas de 2026 até aqui. O S&P 500 recuou 0,3% e o Dow Jones caiu 0,9%, encerrando sequências recentes de valorização em um ambiente marcado por novos sinais de intervenção política vindos da Casa Branca. As declarações do presidente Trump sobre a intenção de restringir a atuação de investidores institucionais no mercado imobiliário residencial e de impor limites à distribuição de dividendos, recompras de ações e remuneração de executivos no setor de defesa pesaram de forma significativa sobre essas ações. Companhias como Lockheed Martin e Northrop Grumman figuraram entre as maiores baixas do dia.
No plano macro, os dados divulgados reforçaram a leitura de um mercado de trabalho em processo de desaceleração gradual, mas ainda longe de qualquer quadro de ruptura. O relatório JOLTS indicou níveis mais baixos de vagas abertas e contratações, enquanto indicadores privados, como os levantamentos da ADP e do Bank of America, apontaram, por outro lado, uma recuperação moderada das contratações em dezembro, ainda que abaixo do esperado. Esse conjunto de informações mantém o Federal Reserve em postura cautelosa: com o desemprego ainda controlado, cresce a probabilidade de manutenção dos juros na próxima reunião, enquanto o mercado aguarda o relatório oficial de emprego (payroll) para consolidar esse diagnóstico.
· 02:32 — A crise do custo de vida
Na quarta-feira, Donald Trump elevou significativamente o tom ao anunciar um pacote de propostas de forte apelo político — ainda que, em sua maioria, dependentes de tramitação e aprovação no Congresso — voltadas a áreas especialmente sensíveis da economia americana, como habitação, defesa e gastos públicos. Entre as medidas apresentadas, chamou atenção a intenção de restringir a compra de casas unifamiliares por investidores institucionais, uma resposta direta à crise de acessibilidade à moradia e ao fenômeno da chamada “economia em K”, na qual grandes agentes financeiros, beneficiados por condições de crédito mais favoráveis, ampliam sua presença no mercado imobiliário enquanto famílias enfrentam preços cada vez mais proibitivos. A reação dos mercados foi imediata: ações de construtoras reagiram positivamente, enquanto papéis ligados a grandes fundos imobiliários e gestores de ativos sofreram pressão. Na mesma linha, Trump defendeu a limitação de dividendos e recompras de ações por empresas do setor de defesa até que estas reforcem investimentos em capacidade produtiva e pesquisa, além de propor uma elevação expressiva dos gastos militares, para US$ 1,5 trilhão até 2027 — iniciativa que, se implementada, aceleraria de maneira relevante a trajetória da dívida pública dos Estados Unidos. Mais do que a viabilidade prática de cada proposta, o conjunto dos anúncios aponta para uma inflexão populista clara, cuidadosamente calibrada para temas de elevada ressonância eleitoral às vésperas das eleições de meio de mandato.
Em paralelo, os dados mais recentes do mercado de trabalho americano passaram a reforçar sinais de perda gradual de dinamismo. O número de vagas em aberto recuou para 7,15 milhões em novembro, o menor nível em mais de um ano e abaixo das expectativas de mercado, com quedas concentradas em setores como lazer e hospitalidade, saúde e transporte. As contratações também perderam fôlego, segundo dados oficiais e levantamentos do setor privado, ainda que o ritmo de demissões tenha mostrado algum arrefecimento. Esse pano de fundo ajuda a compreender o tom mais intervencionista adotado pela Casa Branca: a combinação de um mercado de trabalho menos aquecido, pressão social crescente ligada ao custo de vida e o histórico eleitoral desfavorável para presidentes em segundo mandato nas eleições de meio de mandato amplia os incentivos a propostas de forte impacto simbólico. Mesmo que muitas dessas iniciativas encontrem obstáculos no Congresso, a mensagem é clara: a agenda política tende a ganhar intensidade, com potenciais efeitos relevantes sobre setores específicos do mercado e sobre a narrativa econômica ao longo dos próximos meses.
· 03:23 — Alerta entre as grandes petroleiras chinesas
A prisão de Nicolás Maduro acendeu um sinal de alerta entre as grandes petroleiras chinesas. Estatais lideradas pela China National Petroleum Corp. passaram a recorrer discretamente a Pequim em busca de diretrizes sobre como preservar investimentos realizados ao longo de quase duas décadas em petróleo, gás e infraestrutura na Venezuela. O movimento revela o grau de exposição da China ao país: ainda que a produção venezuelana hoje represente uma parcela menor do suprimento chinês, a Venezuela segue detendo a maior reserva de petróleo do mundo e mantém dívidas bilionárias com credores chineses. Nesse contexto, a pressão explícita de Washington para que Caracas rompa laços com China, Rússia e Irã levanta uma questão central: até que ponto essa aposta chinesa conseguirá sobreviver diante de uma política americana claramente mais assertiva e confrontacional no Hemisfério Ocidental.
Em paralelo, a decisão dos Estados Unidos de assumir controle direto sobre parte do petróleo venezuelano produziu efeitos imediatos e relevantes no mercado global de energia. A liberação e a comercialização de até 50 milhões de barris — acompanhadas pela apreensão de navios-tanque e pela flexibilização seletiva de sanções — já pressionaram os preços do petróleo, elevaram os estoques das refinarias americanas e reacenderam o interesse de companhias que haviam sido afastadas do país nos últimos anos. Trata-se de uma mudança importante na política energética dos EUA, que deixa de atuar apenas como regulador para assumir um papel ativo e intervencionista no comércio internacional de petróleo, com implicações geopolíticas amplas. O desfecho desse processo ainda é incerto: enquanto Washington impõe condições rígidas ao governo interino de Delcy Rodríguez, também busca convencer grandes petroleiras americanas a retornar à Venezuela — um movimento que pode redesenhar, de forma duradoura, o equilíbrio energético e estratégico nas Américas.
· 04:16 — Não se trata só de petróleo…
O cerne da estratégia dos Estados Unidos em relação à Venezuela transcende, de forma clara, os ganhos imediatos das grandes petroleiras americanas. Trata-se, sobretudo, de um movimento de natureza geopolítica, inserido em um contexto mais amplo de rivalidade estrutural entre Washington e Pequim — a chamada “Segunda Guerra Fria”. O objetivo central é impedir que o petróleo venezuelano continue sendo direcionado à China com descontos expressivos, dinâmica da qual Pequim se tornou a principal beneficiária nos últimos anos. Em um ambiente de competição sistêmica, o acesso a energia abundante e relativamente barata constitui um dos maiores trunfos chineses, funcionando como contrapeso a fragilidades relevantes, como a demografia desfavorável, o esgotamento do modelo econômico baseado em investimento e exportações, a defasagem na cadeia global de semicondutores e a menor presença em setores estratégicos de alta tecnologia, como o aeroespacial.
A relevância estratégica da Venezuela, no entanto, vai muito além do petróleo. O país concentra cerca de 4 bilhões de toneladas de reservas de minério de ferro — uma das maiores do mundo — e aproximadamente 200 trilhões de pés cúbicos de gás natural, o que coloca seus ativos minerais e energéticos em um patamar estimado superior a US$ 1 trilhão aos preços atuais. Trata-se de um potencial ainda pouco explorado, que pode ganhar escala e viabilidade econômica com a entrada de grandes companhias americanas, sobretudo em um cenário de maior previsibilidade institucional. Ainda assim, interpretar esse movimento apenas sob a ótica econômica seria uma leitura simplista. Mais do que garantir exclusividade na exploração desses recursos, o objetivo estratégico parece ser impedir que potências rivais tenham acesso a eles. Em um tabuleiro de disputa por zonas de influência, os EUA dificilmente aceitam conviver, em sua vizinhança, com um país-chave alinhado ao eixo de seus principais adversários.
· 05:01 — Uma das teses do ano
A CES desta semana, em Las Vegas, tem sido dominada por um clima de forte entusiasmo em torno da robótica, com demonstrações chamativas de empresas como Boston Dynamics, LG e Nvidia — tema que já comentado anteriormente. A empolgação com os avanços tecnológicos não ficou restrita ao evento e acabou transbordando para os mercados financeiros, impulsionando, por exemplo, as ações da…