Mesa Pra Quatro

50 anos de carreira e incontáveis histórias para contar: Glória Maria no Mesa Pra Quatro

O último episódio do Mesa Pra Quatro traz um bate-papo com uma das mais prestigiadas jornalistas da TV brasileira: Glória Maria; veja os destaques.

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Data de publicação
10 de maio de 2022
Categoria
Mesa Pra Quatro

O episódio #35 do podcast  Mesa Pra Quatro contou com uma convidada muito especial: a jornalista e apresentadora Glória Maria.

Com mais de 50 anos de carreira, ela foi a primeira repórter de televisão negra no Brasil, protagonizando uma trajetória desafiadora e admirável.

Caio Mesquita, CEO da Empiricus; Dan Stulbach, ator e apresentador; e Teco Medina, consultor financeiro, conversam com a repórter sobre suas experiências profissionais mais marcantes, sua paixão pela sua vida e profissão e, como não poderia faltar, sua relação com o dinheiro.

Como tudo começou: o início de uma longa jornada

Glória conta que ingressou na Globo por meio de uma vaga de jornalismo oferecida por uma amiga que trabalhava como secretária na tesouraria da emissora. 

O chefe de reportagem, que a explicou sobre a vaga, também era negro e disse que seria bom se ela aceitasse a proposta porque seriam as únicas pessoas negras na emissora, e poderiam ser solidários um ao outro.

“É algo surpreendente que fala muito sobre racismo. Eu entrei basicamente em uma cota de solidariedade, em uma época em que isso não existia. Eu tenho orgulho de todas as maneiras que eu entrei no jornalismo”, comenta Glória.

Ela conta que no início foi muito discriminada em termos comportamentais por sua família, que não tinha um panorama claro do conceito de jornalismo. “Muitos dos meus familiares achavam que eu estava entrando na Globo para me juntar às garotas de biquini no programa do Chacrinha”, diz. 

Guinada financeira: quando o trabalho começou a dar frutos

A jornalista comenta que demorou muito para que passasse a de fato receber “dinheiro de verdade”. Enquanto estagiária, não recebia nada. Após um ano, ela passou a receber o equivalente a um salário mínimo, e complementava sua renda com outro trabalho que fazia como telefonista na Embratel.

“Eu não podia fazer muita coisa, porque tinha uma família para sustentar”, relata. Glória afirma que foi guardando dinheiro até que conseguisse alugar um apartamento para sua mãe. 

“Além disso, eu entendi que precisava me dar um presente. Meu pai era alfaiate e por isso nunca tive uma roupa comprada em loja. Então, fui a uma loja em Copacabana e comprei uma roupa que, por meses, eu apreciava pela vitrine”, conta a repórter.

Hoje, ela diz que tem um perfil mais gastador do que poupador. “Estou tentando me recuperar disso, preciso aprender a poupar para deixar algo para as minhas filhas”, brinca.

Entre a vida e a morte

Em 2019, Glória enfrentou um tumor no cérebro que a deixou em uma situação muito delicada de saúde. Ela conta que vencer essa enfermidade acentuou sua característica de ser completamente apaixonada pela vida. “Se eu vejo algo e acho que é legal, então vamos. Porque eu tenho feeling, aquele sentimento de que é aquilo”. 

Ela diz que não gosta de burocracias, pois não gosta de perder tempo com dúvidas e ponderações sobre o quanto vai ganhar ou perder em negociações: “Quero viver e não quero perder tempo com nada”. 

Ela conta que sempre teve essa sede por aventuras, e até mesmo já escalou o Monte Everest: “Eu não penso, eu vou. Não sei se isso é racional ou inteligente, mas é a minha alma”. 

Lidando com o preconceito

“Eu nunca tive a chance de sentir e experimentar o sucesso do jeito que as pessoas imaginavam”, comenta Glória. Ela fala que, na época que ficou famosa, não existiam redes sociais, e as pessoas racistas entravam em contato por meio de ligações ou cartas.

“Como você, negra, está ocupando o lugar de mulheres lindas, brancas, loiras?”, diz Glória, sobre os comentários que recebia na época. Ela explica que nunca pôde usufruir do sucesso plenamente, pois sempre foi alvo de muita crueldade por parte das pessoas e teve até mesmo que trabalhar essas questões em terapia.

“Já que a cor normalmente é um prejuízo, o fato de você ser preto te prejudica em 98% das coisas, você tem que saber aproveitar esses 2%”, afirma a jornalista. 

Reportagem atrás de reportagem

Durante sua vasta atuação como repórter, Glória visitou os locais mais inusitados e entrevistou grandes personalidades. Ao ser perguntada sobre se arrepender ou evitar alguma experiência, ela responde:

“Tudo que envolve água eu evito e depois que faço, me arrependo, porque eu não sei nadar. No ar, no céu, eu faço tudo, mas dentro da água fico em pânico”.

Ela descreve uma experiência que viveu no festival de pesca em Argungu, na Nigéria: “Era uma área muçulmana, eu era a única mulher em meio a 10 mil homens entrando em um rio caudaloso acreditando estar pescando seus antepassados”. Ela reforça, no entanto: “Mas faria de novo”.

Glória conta, ainda, que sua primeira viagem pós-pandemia já está marcada, mas não pode revelar o destino, pois será uma surpresa. “Já vivi tantas aventuras, agora estou planejando algo diferente”, afirma.