Os mercados globais abriram um movimento de correção mais intenso, com queda expressiva nas ações de tecnologia e inteligência artificial. Nasdaq e S&P 500 recuaram, enquanto as bolsas da Ásia e da Europa acompanharam o clima de aversão a risco. Empresas emblemáticas do tema, como SoftBank e AMD, chegaram a desabar. O gatilho não foi um único evento, mas o acúmulo de sinais de que os valuations do setor de IA podem estar excessivamente esticados. Esse ambiente acabou contaminando outros segmentos: criptomoedas recuaram, ações “meme” perderam fôlego e investidores buscaram proteção. O ouro avançou, enquanto o Bitcoin chegou a furar momentaneamente o patamar de US$ 100 mil, pressionado pela venda de cerca de US$ 45 bilhões realizada por grandes detentores da moeda.
Esse ajuste ocorre num cenário macro já mais frágil. O shutdown do governo americano — o mais longo da história, chegando ao 36º dia — bloqueia a divulgação de dados oficiais essenciais, aumentando a incerteza sobre a trajetória de juros e o ritmo da atividade. Com isso, relatórios privados como o ADP ganham relevância. A Suprema Corte dos EUA, por sua vez, inicia o julgamento sobre a legalidade das tarifas impostas pela administração Trump, outro tema que pode mexer com o humor dos mercados. No lado das commodities, o petróleo até encontrou algum suporte na queda dos estoques americanos e no dólar mais forte, mas dados industriais fracos nos EUA e na China limitaram os ganhos. Em síntese, depois de meses de alta consistente, o mercado passa por um processo natural de realização de lucros, e justamente os ativos que mais subiram em 2025 são os mais atingidos nesta fase inicial de correção.
· 00:51 — O tom do BC
Enquanto os mercados globais migraram para uma postura mais defensiva, o Ibovespa seguiu em sentido oposto e renovou sucessivos recordes — já são 10 altas seguidas. O fator central por trás dessa resiliência é a expectativa de que o comunicado do Copom, mesmo mantendo a Selic em 15%, abra caminho para o início do ciclo de cortes já no começo de 2026. Dados mais fracos de produção industrial reforçam essa percepção, sinalizando que o aperto monetário começa a produzir efeitos desejados.
Na agenda, o dia é de digestão dos números do Itaú, que animaram o mercado a ponto de impulsionar as ADRs do banco em Nova York no after-market. O foco agora se volta para a Petrobras, cuja divulgação ocorre apenas amanhã, enquanto o Copom encerra sua reunião nesta noite. O ponto-chave não é a decisão em si — amplamente consensual —, mas o tom do comunicado. Qualquer indicação adicional de flexibilização monetária será acompanhada de lupa pelos investidores.
É importante lembrar, contudo, que os juros permanecem tão elevados principalmente pela ausência de um compromisso fiscal crível. E esse debate volta hoje ao Senado, onde a Comissão de Assuntos Econômicos deve votar o projeto que amplia a faixa de isenção do IR para trabalhadores que ganham até R$ 5 mil por mês. A intenção é levar o texto ao plenário ainda nesta quarta. Como a medida implica renúncia estimada de R$ 4 bilhões, o relator apresentou um projeto paralelo para compensar a perda de arrecadação, dobrando a tributação sobre “bets” e elevando a CSLL para bancos e fintechs — medida com potencial de arrecadar até R$ 18 bilhões entre 2026 e 2028.
O tema tem peso político evidente: ampliar a isenção do IR é uma das principais bandeiras eleitorais do governo, que buscará reeleição no ano que vem — a menos que Lula opte por não concorrer e indique um sucessor, cenário que não pode ser descartado. Nesse contexto, a piora na avaliação do presidente medida por um novo tracking da Secom após a operação policial no Rio reforça um ponto que venho destacando desde o início do episódio: segurança pública tende a ser o calcanhar de Aquiles do governo em 2026. O discurso adotado até aqui dificilmente agradará o eleitorado médio, e o tema deve ganhar ainda mais centralidade na disputa eleitoral.
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· 01:44 — Correção
Nos EUA, o segmento de tecnologia — especialmente ações ligadas à inteligência artificial — passou por um raro movimento de realização de lucros, pressionando os principais índices de Nova York. O Nasdaq caiu 2%, o S&P 500 recuou 1,2% e o Dow Jones perdeu 0,5%. Não houve um gatilho específico, mas uma combinação de fatores acabou pesando sobre o sentimento dos investidores: a Palantir, por exemplo, divulgou resultados que seu próprio CEO descreveu como “os melhores que uma empresa de software já apresentou”, mas, após ter encerrado o pregão anterior em máxima histórica, viu suas ações recuarem 8% em um claro ajuste de posições. Além disso, uma reportagem chamou atenção para a preocupação de executivos de Wall Street, como os CEOs do Morgan Stanley e do Goldman Sachs, com valuations considerados esticados no setor. Esse ambiente estimulou uma redução seletiva de risco, que se espalhou para outros ativos ligados a tecnologia e até para segmentos mais especulativos, como criptomoedas, ações “meme” e empresas de consumo cíclico.
Apesar da correção, o quadro geral permanece construtivo: os índices continuam muito próximos das máximas históricas, e o movimento poderia ser classificado como parte natural de uma rotação após sete meses consecutivos de alta — a sequência positiva mais longa desde 2016 — e não como o início de uma reversão estrutural. Enquanto isso, o mercado volta suas atenções para a nova leva de balanços corporativos, para os dados de emprego da ADP e para o PMI de serviços, que podem ajudar a calibrar expectativas sobre crescimento e juros. Também segue no radar o julgamento da Suprema Corte sobre o uso de poderes emergenciais para impor tarifas.
· 02:38 — Um populista em Nova York
A eleição de Zohran Mamdani para prefeito de Nova York trouxe algo inédito: pela primeira vez, a capital financeira do mundo será governada por um autodeclarado socialista — não um social-democrata, mas um “socialista democrático”, rótulo que inclui o adjetivo “democrático” apenas para tornar a palavra socialista mais digerível ao eleitorado americano. Aos 34 anos, Mamdani venceu com 50,4% dos votos e superou dois adversários de peso: o ex-governador Andrew Cuomo, concorrendo como independente, e o republicano Curtis Sliwa. Sua plataforma promete congelamento de aluguéis, transporte público gratuito e supermercados municipais, um conjunto de propostas reminiscentes de modelos intervencionistas inspirados em economias planificadas — ou em experiências das esquerdas latino-americanas. A vitória aconteceu apesar da forte resistência da elite empresarial da cidade, que financiou uma ampla campanha negativa e mobilizou mais de US$ 40 milhões para tentar barrá-lo. Ela também se insere em um contexto eleitoral positivo para os democratas em disputas locais, com vitórias relevantes em Nova Jersey, Virgínia, Pensilvânia e mudanças estratégicas aprovadas na Califórnia, após um ano particularmente difícil.
No plano nacional, os democratas retrataram o resultado como um recado contra Donald Trump. Lideranças como Chuck Schumer argumentaram que o eleitorado estaria rejeitando o “radicalismo MAGA” e premiando prioridades como custo de vida, moradia e saúde. Trump, por sua vez, atribuiu as derrotas à ausência de seu nome nas cédulas e ao shutdown federal. Apesar das celebrações, o pleito também expôs divisões internas: parte do establishment democrata se recusou a apoiar Mamdani e considerou sua agenda irrealista. Já os republicanos saíram fragilizados nessas disputas locais, embora continuem fortes nas regiões mais tradicionais e em estados menos alinhados à política identitária progressista. Em resumo, os resultados foram expressivos em nível municipal e estadual, mas não significam uma virada eleitoral.
É importante notar, porém, que a eleição de Mamdani está longe de refletir o espírito americano médio. Ela revela a decadência de grandes centros urbanos como Nova York e Los Angeles — cidades que convivem com deterioração urbana, aumento de impostos, evasão de empresas e êxodo populacional. Um prefeito com agenda intervencionista, estatizante e semelhante ao populismo da esquerda latino-americana dificilmente reverterá esse quadro; ao contrário, tende a agravá-lo. Trata-se de um discurso que não se sustenta economicamente e repete erros históricos, afastando ainda mais o Partido Democrata do centro político — justamente a guinada que custou a Kamala Harris a eleição e que pode fortalecer Donald Trump nas eleições de meio de mandato e em 2028, quando deverá indicar seu sucessor. A boa notícia é que esse radicalismo não reflete os Estados Unidos como um todo. Cidades alinhadas ao mercado, competição e empreendedorismo — como Austin e Miami — estão prosperando e atraindo empresas, empregos e renda. Ou seja, Mamdani é menos um modelo do futuro e mais um sintoma do declínio de enclaves urbanos mais velhos.
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· 03:27 — A decisão da Suprema Corte
A Suprema Corte dos EUA inicia hoje o julgamento que decidirá se as tarifas impostas por Trump — aplicadas a produtos de dezenas de países — são compatíveis com a Constituição. Embora o tema pareça restrito à geopolítica e ao comércio internacional, seu impacto é muito mais amplo: grande parte das ações contra o governo foi apresentada por pequenas e médias empresas americanas, que relatam aumento expressivo de custos de importação e perda de competitividade. No centro do debate está a interpretação da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA), criada em 1977 justamente para limitar ações unilaterais do Executivo. Trump declarou múltiplos “estados de emergência nacional” para justificar tarifas sobre Canadá, México, China e outros países, alegando riscos à segurança nacional, como desequilíbrios comerciais e o tráfico de fentanil. Críticos argumentam que a Casa Branca estaria abusando do conceito de emergência para contornar o Congresso.
Os possíveis desfechos carregam consequências relevantes. Caso a Suprema Corte entenda que houve abuso de autoridade, o governo pode ser obrigado a devolver bilhões de dólares arrecadados com as tarifas, embora o Tesouro afirme possuir outros mecanismos legais caso haja derrota judicial. Em sentido oposto, se o tribunal validar o uso da IEEPA nesse contexto, cria-se um precedente que permitiria a futuros presidentes impor tarifas amplas e interferir na economia sem aprovação do Congresso — algo que juristas classificam como uma mudança estrutural no equilíbrio de poderes dos EUA. A decisão é aguardada até junho de 2026 e será acompanhada de perto.
· 04:15 — Um novo alerta
Em meio ao movimento de realização de lucros no mercado acionário americano, Gita Gopinath, vice-diretora-geral do FMI, fez um novo alerta: a alta recente das bolsas dos EUA — puxada sobretudo pelo entusiasmo com inteligência artificial — começa a lembrar a euforia da bolha da internet no fim dos anos 1990. A diferença, segundo ela, é que, desta vez, os riscos podem ser maiores. Ao longo dos últimos 15 anos, famílias americanas ampliaram significativamente sua exposição a ações, assim como investidores estrangeiros, especialmente europeus, que foram atraídos pelos retornos das big techs e pela força do dólar. Essa concentração eleva a fragilidade do sistema: uma correção semelhante à de 2000 poderia eliminar mais de US$ 20 trilhões em patrimônio das famílias americanas (algo próximo a 70% do PIB dos EUA), reduzindo o consumo em até 3,5 pontos percentuais e cortando cerca de 2 pontos do crescimento do PIB — sem sequer contabilizar o efeito sobre investimentos.
No exterior, o impacto seria igualmente severo. Investidores internacionais poderiam registrar perdas superiores a US$ 15 trilhões — cerca de 20% do PIB global — valor muito maior que o observado na bolha ponto com. Tradicionalmente, o fortalecimento do dólar funcionou como proteção nesses episódios, já que a moeda tende a se valorizar em momentos de busca por segurança. Contudo, essa dinâmica pode não se repetir na próxima crise, deixando o sistema financeiro mundial mais vulnerável. Ou seja, o risco não está apenas em uma eventual correção das bolsas americanas, mas no seu efeito dominó sobre consumo, atividade econômica global e estabilidade financeira. “Mesmo assim, sigo cético em relação às previsões mais catastrofistas. Como já destaquei outras vezes neste espaço, embora o momento atual apresente semelhanças superficiais com episódios mais delicados do passado, o saldo de diferenças positivas — fundamentos, liquidez e estrutura — é claramente maior.
· 05:09 — Depois da forte realização
Nos últimos dias, o mercado de Bitcoin voltou a ganhar destaque pelos motivos errados. Investidores que carregam posições há mais tempo realizaram vendas significativas, despejando cerca de 400 mil Bitcoins no mercado, um volume equivalente a aproximadamente US$ 45 bilhões. Esse fluxo vendedor desestabilizou os preços, levando a criptomoeda novamente abaixo da marca de US$ 100 mil e acumulando queda superior a 20% desde a máxima histórica registrada há poucas semanas. Diferentemente de outubro, quando a correção foi causada majoritariamente por liquidações forçadas, o movimento atual indica algo mais estrutural: a perda de convicção de parte dos investidores. Isso ficou evidente no mercado de derivativos, onde aumentou a busca por proteção, especialmente por opções de venda com preço de exercício em US$ 80 mil — sinal claro de receio de novas quedas.
Esse sentimento mais defensivo contaminou o restante do universo cripto. O Ether recuou quase 10% no período, e diversas altcoins já acumulam perdas superiores a 50% no ano. Com menor apetite por risco, o Bitcoin passou a subir menos no acumulado de 2025 e voltou a frustrar quem buscava proteção de carteira ou descorrelação em momentos de instabilidade. A aversão ao risco também transbordou para a bolsa americana, particularmente para o setor de tecnologia, onde ressurgiram temores de bolha especulativa após uma onda de vendas.
Ainda assim, olhando além do curto prazo, a classe de criptoativos…