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Investimentos

Ibovespa hoje: aversão a risco nos mercados globais vai predominar no primeiro pregão de fevereiro? Veja os destaques do dia

Após um janeiro excepcional para o mercado brasileiro, primeiro pregão de fevereiro deve enfrentar turbulência vinda de fora

Por Matheus Spiess

02 fev 2026, 09:57

Atualizado em 02 fev 2026, 11:14

Ibovespa queda super quarta mercado

Os mercados globais iniciaram a semana em um claro regime de aversão a risco, marcado por vendas amplas em ações, commodities e criptoativos, refletindo um processo de desalavancagem que teve início nos metais preciosos e rapidamente se propagou para outras classes de ativos.

As bolsas asiáticas registraram a pior queda em dois dias desde abril do ano passado, pressionadas sobretudo pelos setores de tecnologia e mineração, após declarações do CEO da Nvidia, Jensen Huang, que esfriaram as expectativas em torno de investimentos bilionários em inteligência artificial.

Nesse contexto, ouro e prata recuaram de níveis historicamente elevados, em meio a liquidações forçadas e forte aumento da volatilidade, enquanto petróleo e cobre também sofreram quedas expressivas. Em paralelo, os futuros do S&P 500 passaram a sinalizar novas perdas, reforçando o tom defensivo que domina os mercados.

A semana traz uma agenda particularmente intensa, com decisões de política monetária de bancos centrais relevantes, além da divulgação do payroll americano, de diversos PMIs globais e da continuidade da temporada de balanços corporativos.

· 00:57 — Depois de um janeiro fantástico

Por aqui, janeiro foi excepcional para o mercado brasileiro, em grande parte por conta do fluxo. Os números oficiais devem sair ao longo desta semana, mas, pelo que se observa até aqui, houve uma entrada próxima de R$ 23 bilhões — valor que representa quase tudo o que o investidor estrangeiro aportou na Bolsa ao longo de 2025 — ajudando a sustentar volumes mais robustos e um ambiente mais favorável para o mercado doméstico.

Mesmo com uma reta final um pouco mais fraca, o mês terminou com alta de quase 13% no principal índice de ações do país. O mesmo ocorreu com o câmbio: no acumulado do mês, o dólar recuou mais de 4% frente à moeda brasileira.

Dito isso, em um dia de humor global mais negativo, não seria surpresa ver o mercado local também devolvendo parte dos ganhos — algo normal e, em certa medida, até saudável, desde que dentro de limites razoáveis, contribuindo para reequilibrar preços após um movimento tão forte.

O timing, aliás, é particularmente sensível porque a semana promete ser bastante agitada. No Brasil, teremos a retomada dos trabalhos do Congresso, além de divulgações relevantes, como a produção industrial de dezembro e a balança comercial de janeiro — dados que podem influenciar as expectativas para o primeiro corte da Selic em março.

Por fim, mas não menos importante, começa a temporada de resultados do quarto trimestre, com destaque para os grandes bancos, cujos balanços começam a ser divulgados a partir de quarta-feira.

· 01:48 — O fim de um longo janeiro

Janeiro foi marcado por um movimento relevante de rotação para fora dos Estados Unidos e das large caps americanas, favorecendo mercados emergentes. O mês terminou com ganhos moderados nos principais índices, apesar de o Dow ter acumulado três semanas consecutivas de queda, registrando sua pior sequência semanal desde o fim de 2024.

Em paralelo, o noticiário político e macroeconômico adicionou volatilidade aos mercados, com a indicação de Kevin Warsh por Donald Trump para substituir Jerome Powell na presidência do Federal Reserve, reacendendo discussões sobre a condução da política monetária e contribuindo para o fortalecimento do dólar, especialmente após a divulgação de um índice de preços ao produtor acima do esperado.

A semana de agora concentra uma agenda particularmente carregada de indicadores, com destaque para o relatório de emprego, além de dados de PMIs, vagas abertas do JOLTS, criação de empregos no setor privado no ADP e pedidos iniciais de seguro-desemprego. Soma-se a isso uma bateria relevante de balanços corporativos, incluindo nomes de peso como Alphabet, Amazon, AMD, Merck e Pfizer.

· 02:35 — Efeito Warsh

A indicação de Kevin Warsh por Donald Trump para suceder Jerome Powell na presidência do Federal Reserve colocou fim a meses de especulação e foi recebida pelos mercados com um alívio cauteloso.

Embora Warsh seja tradicionalmente associado a uma postura mais hawkish, herança de sua última passagem pelo Fed, e a um forte compromisso com o controle da inflação, ele tem sinalizado abertura para cortes graduais de juros, sustentando o argumento de que os ganhos de produtividade associados à inteligência artificial podem permitir um crescimento econômico mais robusto sem gerar pressões inflacionárias excessivas.

Além disso, é percebido como um nome menos propenso a aventuras políticas frente aos demais concorrentes, o que reforça a leitura de preservação da independência do banco central. Ainda assim, a avaliação predominante é que, como apenas um entre os 12 votos do comitê de política monetária, Warsh não altera de forma relevante o cenário-base: seguem válidas as expectativas de dois cortes de juros ao longo do ano, sempre condicionados aos dados, em um ambiente de crescimento saudável, mercado de trabalho mais estável e taxas próximas do nível neutro.

Os movimentos observados nos mercados após o anúncio — fortalecimento do dólar, queda nos preços dos metais preciosos e leve alta dos juros longos — parecem refletir mais uma acomodação do recente movimento de “debasement trade” do que uma mudança estrutural de tendência, reforçando a percepção de que Warsh foi o nome “mais seguro” entre os possíveis.

· 03:22 — Nova estrutura

Autoridades dos Estados Unidos, da Dinamarca e da Groenlândia avançam nas conversas sobre uma nova estrutura de cooperação para o território ártico, com o objetivo de ampliar a presença e a coordenação de segurança americana na região sem qualquer transferência de soberania — um tema que ganhou tração após semanas de pressão geopolítica de Washington sobre a ilha, estratégica do ponto de vista militar e logístico.

Esse episódio ilustra a velocidade com que alianças e dependências vêm sendo reconfiguradas no cenário global, com países tentando equilibrar interesses de segurança e comércio em um mundo mais fragmentado.

· 04:14 — Batendo na defesa

O cenário atual vem desmontando, ao menos no curto prazo, a lógica tradicional dos ativos defensivos: ouro, prata, moedas fortes e até o Bitcoin passaram a exibir volatilidade incomum justamente em um dos ambientes geopolíticos mais tensionados das últimas décadas.

Depois de um rali expressivo, ouro e prata passaram a operar com uma dinâmica de muito excesso — guiada por fluxo e alavancagem — e, como costuma acontecer nesses episódios, a correção veio rápida e intensa, com movimentos históricos em poucos pregões, amplificados por realização de lucros, uma leitura mais hawkish do Fed, fortalecimento do dólar e vendas forçadas.

O iene também perdeu parte do apelo como porto seguro, enquanto o Bitcoin recuou para patamares mais fracos no período pós-Trump, deixando o franco suíço como um dos poucos refúgios ainda relativamente preservados — embora também sob volatilidade elevada. No fim, o que estamos observando é um processo clássico e natural de desalavancagem: vendas forçadas aumentam a oscilação dos preços, apertam as condições financeiras, drenam liquidez e podem contaminar outras classes de ativo, elevando o risco de uma onda mais ampla de aversão ao risco.

· 05:01 — Precisamos estar preparados para correções como essa

As análises que circulam nas comunidades especializadas em criptoativos indicam que o Bitcoin estaria atualmente negociado com um desconto relevante em relação à sua tendência histórica de longo prazo, estimada a partir de um modelo de lei de potência com cerca de 15 anos de dados.

Com o preço próximo de US$ 77 mil — algo em torno de 35% a 40% abaixo do chamado “valor justo” pela tendência, estimado em aproximadamente US$ 122 mil — o ativo estaria inserido em uma zona estatística de sobrevenda pouco frequente. Historicamente, episódios semelhantes foram seguidos por retornos médios superiores a 100% ao longo dos 12 meses subsequentes.

De acordo com esse arcabouço analítico, o desvio em relação à tendência tende a se corrigir com relativa rapidez, apresentando uma meia-vida próxima de quatro meses, o que sugere um processo acelerado de reversão à média.

Isso, naturalmente, não elimina a…

Estudou finanças na University of Regina, no Canadá, tendo concluído lá parte de sua graduação em economia. Pós-graduado em finanças pelo Insper. Trabalhou em duas das maiores casas de análise de investimento do Brasil, além de ter feito parte da equipe de modelagem financeira de uma boutique voltada para fusões e aquisições. Trabalha hoje no time de analistas da Empiricus, sendo responsável, entre outras coisas, por análises macroeconômicas e políticas, além de cobrir estratégias de alocação. É analista com certificação CNPI.