Os mercados globais iniciaram a semana em um claro regime de aversão a risco, marcado por vendas amplas em ações, commodities e criptoativos, refletindo um processo de desalavancagem que teve início nos metais preciosos e rapidamente se propagou para outras classes de ativos.
As bolsas asiáticas registraram a pior queda em dois dias desde abril do ano passado, pressionadas sobretudo pelos setores de tecnologia e mineração, após declarações do CEO da Nvidia, Jensen Huang, que esfriaram as expectativas em torno de investimentos bilionários em inteligência artificial.
Nesse contexto, ouro e prata recuaram de níveis historicamente elevados, em meio a liquidações forçadas e forte aumento da volatilidade, enquanto petróleo e cobre também sofreram quedas expressivas. Em paralelo, os futuros do S&P 500 passaram a sinalizar novas perdas, reforçando o tom defensivo que domina os mercados.
A semana traz uma agenda particularmente intensa, com decisões de política monetária de bancos centrais relevantes, além da divulgação do payroll americano, de diversos PMIs globais e da continuidade da temporada de balanços corporativos.
· 00:57 — Depois de um janeiro fantástico
Por aqui, janeiro foi excepcional para o mercado brasileiro, em grande parte por conta do fluxo. Os números oficiais devem sair ao longo desta semana, mas, pelo que se observa até aqui, houve uma entrada próxima de R$ 23 bilhões — valor que representa quase tudo o que o investidor estrangeiro aportou na Bolsa ao longo de 2025 — ajudando a sustentar volumes mais robustos e um ambiente mais favorável para o mercado doméstico.
Mesmo com uma reta final um pouco mais fraca, o mês terminou com alta de quase 13% no principal índice de ações do país. O mesmo ocorreu com o câmbio: no acumulado do mês, o dólar recuou mais de 4% frente à moeda brasileira.
Dito isso, em um dia de humor global mais negativo, não seria surpresa ver o mercado local também devolvendo parte dos ganhos — algo normal e, em certa medida, até saudável, desde que dentro de limites razoáveis, contribuindo para reequilibrar preços após um movimento tão forte.
O timing, aliás, é particularmente sensível porque a semana promete ser bastante agitada. No Brasil, teremos a retomada dos trabalhos do Congresso, além de divulgações relevantes, como a produção industrial de dezembro e a balança comercial de janeiro — dados que podem influenciar as expectativas para o primeiro corte da Selic em março.
Por fim, mas não menos importante, começa a temporada de resultados do quarto trimestre, com destaque para os grandes bancos, cujos balanços começam a ser divulgados a partir de quarta-feira.
· 01:48 — O fim de um longo janeiro
Janeiro foi marcado por um movimento relevante de rotação para fora dos Estados Unidos e das large caps americanas, favorecendo mercados emergentes. O mês terminou com ganhos moderados nos principais índices, apesar de o Dow ter acumulado três semanas consecutivas de queda, registrando sua pior sequência semanal desde o fim de 2024.
Em paralelo, o noticiário político e macroeconômico adicionou volatilidade aos mercados, com a indicação de Kevin Warsh por Donald Trump para substituir Jerome Powell na presidência do Federal Reserve, reacendendo discussões sobre a condução da política monetária e contribuindo para o fortalecimento do dólar, especialmente após a divulgação de um índice de preços ao produtor acima do esperado.
A semana de agora concentra uma agenda particularmente carregada de indicadores, com destaque para o relatório de emprego, além de dados de PMIs, vagas abertas do JOLTS, criação de empregos no setor privado no ADP e pedidos iniciais de seguro-desemprego. Soma-se a isso uma bateria relevante de balanços corporativos, incluindo nomes de peso como Alphabet, Amazon, AMD, Merck e Pfizer.
· 02:35 — Efeito Warsh
A indicação de Kevin Warsh por Donald Trump para suceder Jerome Powell na presidência do Federal Reserve colocou fim a meses de especulação e foi recebida pelos mercados com um alívio cauteloso.
Embora Warsh seja tradicionalmente associado a uma postura mais hawkish, herança de sua última passagem pelo Fed, e a um forte compromisso com o controle da inflação, ele tem sinalizado abertura para cortes graduais de juros, sustentando o argumento de que os ganhos de produtividade associados à inteligência artificial podem permitir um crescimento econômico mais robusto sem gerar pressões inflacionárias excessivas.
Além disso, é percebido como um nome menos propenso a aventuras políticas frente aos demais concorrentes, o que reforça a leitura de preservação da independência do banco central. Ainda assim, a avaliação predominante é que, como apenas um entre os 12 votos do comitê de política monetária, Warsh não altera de forma relevante o cenário-base: seguem válidas as expectativas de dois cortes de juros ao longo do ano, sempre condicionados aos dados, em um ambiente de crescimento saudável, mercado de trabalho mais estável e taxas próximas do nível neutro.
Os movimentos observados nos mercados após o anúncio — fortalecimento do dólar, queda nos preços dos metais preciosos e leve alta dos juros longos — parecem refletir mais uma acomodação do recente movimento de “debasement trade” do que uma mudança estrutural de tendência, reforçando a percepção de que Warsh foi o nome “mais seguro” entre os possíveis.
· 03:22 — Nova estrutura
Autoridades dos Estados Unidos, da Dinamarca e da Groenlândia avançam nas conversas sobre uma nova estrutura de cooperação para o território ártico, com o objetivo de ampliar a presença e a coordenação de segurança americana na região sem qualquer transferência de soberania — um tema que ganhou tração após semanas de pressão geopolítica de Washington sobre a ilha, estratégica do ponto de vista militar e logístico.
Esse episódio ilustra a velocidade com que alianças e dependências vêm sendo reconfiguradas no cenário global, com países tentando equilibrar interesses de segurança e comércio em um mundo mais fragmentado.
· 04:14 — Batendo na defesa
O cenário atual vem desmontando, ao menos no curto prazo, a lógica tradicional dos ativos defensivos: ouro, prata, moedas fortes e até o Bitcoin passaram a exibir volatilidade incomum justamente em um dos ambientes geopolíticos mais tensionados das últimas décadas.
Depois de um rali expressivo, ouro e prata passaram a operar com uma dinâmica de muito excesso — guiada por fluxo e alavancagem — e, como costuma acontecer nesses episódios, a correção veio rápida e intensa, com movimentos históricos em poucos pregões, amplificados por realização de lucros, uma leitura mais hawkish do Fed, fortalecimento do dólar e vendas forçadas.
O iene também perdeu parte do apelo como porto seguro, enquanto o Bitcoin recuou para patamares mais fracos no período pós-Trump, deixando o franco suíço como um dos poucos refúgios ainda relativamente preservados — embora também sob volatilidade elevada. No fim, o que estamos observando é um processo clássico e natural de desalavancagem: vendas forçadas aumentam a oscilação dos preços, apertam as condições financeiras, drenam liquidez e podem contaminar outras classes de ativo, elevando o risco de uma onda mais ampla de aversão ao risco.
· 05:01 — Precisamos estar preparados para correções como essa
As análises que circulam nas comunidades especializadas em criptoativos indicam que o Bitcoin estaria atualmente negociado com um desconto relevante em relação à sua tendência histórica de longo prazo, estimada a partir de um modelo de lei de potência com cerca de 15 anos de dados.
Com o preço próximo de US$ 77 mil — algo em torno de 35% a 40% abaixo do chamado “valor justo” pela tendência, estimado em aproximadamente US$ 122 mil — o ativo estaria inserido em uma zona estatística de sobrevenda pouco frequente. Historicamente, episódios semelhantes foram seguidos por retornos médios superiores a 100% ao longo dos 12 meses subsequentes.
De acordo com esse arcabouço analítico, o desvio em relação à tendência tende a se corrigir com relativa rapidez, apresentando uma meia-vida próxima de quatro meses, o que sugere um processo acelerado de reversão à média.
Isso, naturalmente, não elimina a…