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Prezados, pedi para o Matheus Spiess me ceder o espaço da newsletter diária dele para poder contar um pouco do que pude vivenciar durante a última semana, enquanto estive nos Estados Unidos para participar do GTC 2026 – evento organizado pela Nvidia, na qual pessoas de todo o mundo foram para a cidade de San Jose, no estado da Califórnia, para saber mais dos avanços na tecnologia da Inteligência Artificial.
Entretanto, nada disso passou ileso com os acontecimentos dos últimos dias relacionados a guerra no Irã. O que muitos acreditavam (ou esperavam) era que o conflito fosse resolvido facilmente, mas a resistência apresentada pelo Irã, aliada as decisões que comprometem o fluxo de petróleo e gás natural pelo Estreito de Hormuz tem aumentado a volatilidade nos ativos internacionais.
Não à toa, os principais índices americanos apresentam forte desvalorização em março. O S&P 500 e o Nasdaq, por exemplo, caem 5% no período. Já o Russell 2000, que era o principal beneficiário de uma possível retomada no corte de juros por parte do Fed, se desvalorizava mais de 10% das máximas.
Contudo, o que posso afirmar que tudo que presenciei nos últimos dias, ainda que sofra com esses eventos, está apenas nos primeiros passos. Talvez essas quedas abram uma oportunidade única para quem ainda não tem parte do seu portfólio investido em ativos ligados a IA, já que ela mudará drasticamente o mundo nos próximos anos.
01:38 – Algo construído ao longo de duas décadas
Apesar de ter construído inicialmente a sua fama no design de GPUs (popularmente conhecidas como placas de vídeo), a grande virada de chave da Nvidia foi com o desenvolvimento do CUDA – sigla para “Compute Unified Device Architecture”, algo como “Arquitetura de Dispositivo para Computação Unificada” – em 2006.
Explicando de maneira simples, essa plataforma permitiu que diversos softwares pudessem utilizar as GPUs para outras necessidades de computação que não apenas a geração de imagens – elevou o mercado endereçável da Nvidia a um outro patamar.
Tanto que, a partir de então, a empresa que ficou conhecida por ter cunhado o termo GPU passou ser conhecida também por ser responsável pelas GPGPU: “General-Purpose Computing”, ou computação de propósito geral.
E essa guinada acabou criando um ciclo virtuoso para a Nvidia.
A partir da sua base instalada, vários desenvolvedores passaram a utilizar essas GPUs para estudos e pesquisas nos mais variados campos de atuação. Com as descobertas feitas ao longo do tempo, o ecossistema é atualizado com novas aplicações, plataformas e livrarias, que acaba levando novas pessoas a utilizarem os seus produtos, aumentando ainda mais a base de usuários.
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02:56 – Show do Trilhão
A expansão no uso dos chips em diversas indústrias da economia global, como saúde, serviços financeiros, robótica, entre outros, fez com que a demanda por esses produtos explodisse nos últimos anos.
Mesmo com o mercado questionando a sustentabilidade dos investimentos necessários para o pleno desenvolvimento da IA, o CEO Jensen Huang sempre gosta de frisar que estamos apenas no começo de uma “nova Revolução Industrial”.
E isso reflete nos números divulgados pelo executivo na sua apresentação: menos de 6 meses depois de afirmar que espera que a Nvidia gere receitas da ordem de US$500 bilhões entre 2025 e 2026, a projeção até 2027 é de que esse valor ultrapasse o US$1 trilhão.
03:44 – Gargalos e mais gargalos
Importante salientar, porém, que esses números poderiam ser ainda maiores caso a indústria conseguisse atender a demanda, principalmente dos grandes provedores de computação em nuvem e de algumas das startups responsáveis pelos principais modelos atualmente, como a OpenAI e a Anthropic.
Além da questão energética e da força de trabalho – dois pontos levantados por diversos executivos durante o evento –, o mercado de memória também tem ficado no centro das discussões.
Atualmente dominado por três empresas (as sul-coreanas SK Hynix e Samsung, além da americana Micron), o aumento dos modelos e da capacidade de contextualização dos mesmos fez crescer significativamente a necessidade pelas memórias HBM.
E pelas conversas durante o evento, essa incapacidade de não conseguir atender a demanda deve continuar pelos próximos anos. O presidente do conselho da SK Hynix comentou que, para eles, essa restrição deve continuar até 2030.
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04:47 – O que não significa que não tenham críticas
Ainda que detenha cerca de 90% do mercado de chips de IA, alguns participantes do evento entendem que a Nvidia conseguiria manter um poder ainda maior caso estendesse o seu ritmo de lançamento.
Um executivo da Cisco, apesar de reconhecer a superioridade dos produtos da empresa (ainda mais por conta do ecossistema proveniente do CUDA), entende que a companhia poderia fazer novos lançamentos no espaço de três anos, e não na cadência anual (a cada ano).
Para ele, o lançamento de novos sistemas poderia afastar o investimento de algumas empresas e indústrias. Afinal de contas, sabendo que o produto do ano que vem será ainda mais potente, por que dispender milhões (em alguns casos, bilhões) em algo que seria algo desatualizado com pouco tempo?
Só que quem esperar muito pode acabar ficando para trás na corrida tecnológica. O sistema Vera Rubin, lançado no evento, tem a capacidade de gerar 35 vezes mais tokens que o sistema Blackwell (que é, até então, o produto de maior sucesso da companhia). E Huang já fez questão de afirmar que o sistema Feynman já está em desenvolvimento, com previsão de lançamento em 2028.
M5M+ – Value Investing com um toque de tecnologia
Após minha participação no GTC 2026, fui para Nova Iorque participar de uma conferência de Value Investing.
Contando com a presença de investidores importantes do mercado americano, como Mario Gambelli (GAMCO) e John Rodgers, Jr (Ariel Investments), entendia que seria importante ter a visão do momento atual dos mercados por aqueles que buscam implementar a estratégia ensinada por Benjamin Graham.
Ainda que o foco fosse em empresas de mercados mais desenvolvidos, como o americano ou o europeu, foi interessante presenciar a defesa de duas teses voltadas ao mercado brasileiro – uma sugerindo o investimento em Natura e a outra defendendo Brasil como um dos principais mercados emergentes para se apostar nos próximos anos.
Só que a surpresa maior ficou de fato com a recomendação das ações da Amazon (B3: AMZO34 | Nasdaq: AMZN), uma das maiores empresas do mundo e com um grande foco em tecnologia.
Não que eu não goste da tese, muito pelo contrário. Entendo que, nos preços atuais, as ações da “Loja de Tudo” estão em um patamar altamente atrativo para aqueles investidores com foco no longo prazo.
A surpresa é mais pelo fato de que após anos e anos uma ação para aqueles investidores focados mais no “Growth Investing”, o avanço nos resultados nos últimos anos e a performance abaixo do índice no passado recente fez com que a companhia passasse a entrar no filtro daqueles voltados ao “Value Investing”.
E caso mais investidores também passem a olhar com mais afinco para a tese, entendo que ela não deva permanecer muito tempo nos níveis que se encontram – a gestora no evento, inclusive, tem um preço-alvo acima dos US$300 para a ação, o que indicaria algo como 50% dos US$205 que estão sendo negociadas atualmente.