O mês que nunca vai terminar

Maio deixará mazelas indeléveis para a economia e os mercados brasileiros.

O mês que nunca vai terminar

O mês de maio deixará mazelas indeléveis para a economia e os mercados brasileiros. Até acho que, ao final do processo, as coisas terminam bem, mas piores e mais lentas do que poderiam ser.

Às vezes, me pego, meio distraído, imaginando: “mas que coisa…se aquela fatídica nota de Lauro Jardim saísse um ou dois meses à frente…”

Aprovadas as reformas trabalhistas e da Previdência, estaríamos em outro patamar. Hoje, ainda não. O País é outro depois daquela gravação. Ou talvez seja o mesmo de sempre, sei lá. Se eu acreditasse em sinais, poderia supor que o monstro Venceslau Pietro Pietra amaldiçoou Macunaíma para sempre. Sendo a preguiça um pecado capital, ela é mais difícil de ser perdoada, principalmente para os reincidentes. Nosso herói duplamente preguiçoso não encontraria compaixão.

 

A virada de folha do calendário é uma bobagem que inventamos para fatiar o tempo, mas sempre nos dá a oportunidade de pensar o que levamos daquele período recente. Com qual sensação você sai deste mês de maio?

Faço a mesma pergunta para mim mesmo. De um lado, saio de certa forma aliviado pois o mês mostrou nitidamente a importância das proteções, da diversificação e do tanto que, por mais convictos que estejamos, sempre precisamos duvidar de nós mesmos e de nossas teses de investimento. Somente um idiota pode ter certeza. Fico verdadeiramente estimulado pelo nosso espírito científico e por ter pessoas que reconhecem isso.

Em contrapartida, confesso sair com uma certa frustração. O Brasil é uma espécie de mito, o tudo que não é nada. Poderia ser incrível, mas no futuro. Sempre no futuro. A percepção de que, inexorável e imediatamente, teríamos uma trajetória crível para a dívida pública fomos atropelados por um cisne negro que abriu um vácuo. Do dia para noite, ninguém sabia o que poderia acontecer.

Se a tese de um novo Brasil estava a um passo de se materializar, agora ela exigirá mais tempo. Se flertávamos com Selic a 7 por cento e Ibovespa a 100 mil em poucos meses (e eu sinceramente acho que o fazíamos), agora precisaremos esperar. Até acho que seguimos na mesma direção, mas vai demorar mais um pouco. Se há uma parte boa no nosso caráter macunaímico, é que, de uma forma ou de outra, no final ele se acerta – com aquela complacência de sempre: “Seu Yes, dá um peixe pra mim”. Mas as coisas vão. Não temos solução sem as reformas. E o que não tem solução solucionado está. O sonho de uma caminhada rápida e vigorosa, porém, acabou. Mais uma vez, temos de humildemente pedir ao investidor paciência e serenidade. É o melhor que temos a oferecer neste momento.

Há outro fator ainda para minha frustração. Poderíamos tomar construtivamente o ocorrido em maio. Olhando com afastamento, tudo isso poderia ser apaixonante para gestão de ativos – e confesso que houve momentos realmente assim ao longo do mês, em que parecíamos encantados por uma espécie de Pirlimpisiquice. Haveria jeito de ser diferente?

Poderíamos ter aprendido que:

1- o investidor/gestor sempre – e também sempre – precisa ter proteções no seu portfólio. Eu encho o saco disso aqui diariamente e, para você, talvez já seja repetitivo e óbvio, mas o fato é que a adoção de seguros-catástrofe em seu portfólio e a arte de duvidar de si mesmo ainda são práticas heterodoxas. A arrogância ganha de goleada do espírito científico na Faria Lima e no Leblon;

2- stops são particularmente complicados. Se você stopou naquela quinta-feira, fez o pior negócio do mundo. Perdeu dinheiro com a surpresa negativa e não pegou a volta. Errou ao não ter proteção; e errou de novo ao sair no momento de desespero. Iniciada a corrida atrás do rabo, difícil pegar de volta. De novo: seguro não é pílula do dia seguinte. Depois do default, o risco de inadimplência é baixo, claro. Precisamos de engenheiros antes de realizar as obras;

3- gênio mesmo é aquele que percebe que não há genialidade alguma ou, então, que há vários outros gênios no mercado, o que faz dos mercados organismos bastante eficientes do ponto de vista informacional. Evite o melhor fundo do mercado – provavelmente, ele está concentrado demais, alavancado demais ou fora do mandato (verifique a correlação entre performance no ano e tombo na fatídica quinta-feira). Fundo de ação é fundo de ação. E é melhor ser o segundo do ano, pagando um pedágio para se proteger do pior – no dia que a cagada acontece, o primeiro vai lá pra trás; e o segundo continua parado, ou até vira o primeiro; e

4- ainda há insider no mercado. Não adianta reclamar da CVM ou falar que não dá pra provar. Se você tem certeza, por que não sacou? Alocador adora pagar de defensor da ética e da moral mas não pede resgate. Se você não faz a sua parte, compactua com aquilo – pare de falar mal da CVM pelo menos.

Mas sabe o que vai acontecer? Nada. Absolutamente nada. Não vamos aprender coisa alguma. Aliás, as pessoas nunca aprendem. Por ai, os eventos raros continuarão sendo tratados como uma exceção, como um outlier que deve ser retirado da amostra. E voltamos a fazer as mesmas coisas de sempre. Relacionamentos sem proteção com os ativos financeiros, alavancagem, descumprimento de mandato e por ai vai.

É difícil entender os eventos raros porque eles desafiam nossos vieses cognitivos. Para nos blindarmos das surpresas negativas, precisamos recorrentemente ir “queimando dinheiro”, comprando seguros que não serão executados e perder grana com isso. Doses homeopáticas de sofrimento. Você perde, perde, perde e perde um pouquinho de cada vez. Até que, subitamente, tem uma grande porrada.

O problema é que, como ensina Daniel Kahneman, nosso cérebro não está treinado para isso. Um grande lucro de uma vez é pouco prazeroso quando comparado ao sofrimento psicológico de várias perdas subsequentes, mesmo que a soma de todos os prejuízos seja, em módulo, menos do que o lucro de uma só vez. A cifra financeira não compensa o desgaste psicológico. No mundo do Extremistão, em que devemos nos proteger dos cisnes negros, os fracos não têm vez.

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É curioso porque, mesmo aqueles que conseguem perceber a importância dos eventos raros para o comportamento das séries financeiras, deixam escapar pontos relevantes. Robert Barro, por exemplo, tem um artigo incrível em que introduz a necessidade de se olhar também a curtose, não somente média e variância, para compreender os prêmios de risco. Ou seja, o investidor exige mais retorno de um ativo suscetível a eventos raros, com medo de subitamente incorrer numa grande perda.

Barro consegue avanços significativos com a abordagem. Ele nota a importância dos acontecimentos de baixa probabilidade para explicar o prêmio de risco de mercado, mas falha em modelá-lo com adequação. Isso deveria ser óbvio. Ninguém pode dar tratamento aos eventos raros, pelo simples motivo de que eles….hmmmm…. como posso dizer…. raros! E como teremos uma amostra relevante de eventos raros?

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