Temer, Temor e Tremor

Qual seria a escolha mais ética: obedecer aos anseios divinos ou preservar a vida do seu filho?

Temer, Temor e Tremor

Segundo o livro de Gênesis, Deus ordenou a Abraão que sacrificasse seu filho Isaac.

Qual seria a escolha mais ética: obedecer aos anseios divinos ou preservar a vida do seu filho?

Soren Kierkegaard se debruça sobre o tema na obra Temor e Tremor, cunhando a expressão “suspensão teleológica da ética”. Kierkegaard deixa claro que a fé de Abraão não consiste na disposição de efetivamente sacrificar Isaac, mas na crença de que, de algum modo, ele conseguiria resgatar seu filho de volta. Supostamente, foi a fé que permitiu essa opção, pois havia uma confiança de que Deus realmente não faria Abraão matar Isaac.

O argumento da suspensão teleológica da ética é poderoso, mas pode ser também traiçoeiro e perigoso. Por vezes, ele é usado para justificar posturas questionáveis. Suspende-se a ética em prol de um suposto bem maior – claro, esse bem maior selecionado deliberadamente como forma de atender a alguma vontade particular do autor.

Deixe-me trazer a questão para nosso cotidiano.

Certa vez, um banco nos processou, contrariado com as críticas feitas ao seu balanço anêmico. Entre as acusações, aparecia a narrativa de que, ao expor a fragilidade da instituição, estávamos contribuindo com a instabilidade do sistema financeiro nacional. Supostamente, de acordo com os argumentos criativos alheios, atentávamos contra o sistema financeiro brasileiro.

Na verdade, o banco nem era tão irrelevante, de tal sorte que, na pior das hipóteses, uma corrida bancária ali jamais poderia ensejar uma crise sistêmica. Entretanto, mesmo que fosse o caso, qual é o dever do analista? Se ele identifica um problema no balanço de um banco – e note que a decisão de correr risco de crédito numa instituição financeira implica apenas e tão somente responder a essa pergunta -, o que ele deve fazer? Ficar quieto, sob o argumento de que suas críticas podem contribuir para a instabilidade do sistema financeiro?

Ora, é dever de ofício do analista analisar. Questão etimológica e ética.

No limite, defender o silêncio do sujeito em prol de uma pretensa estabilidade é privá-lo de fazer seu trabalho. Se ele só pode falar coisas boas, então não há porque haver análise. Até mesmo os elogios estarão contaminados, porque o leitor reconhecerá a ausência recorrente de críticas e jamais poderá saber se as palavras positivas vieram efetivamente do julgamento do analista ou de sua impossibilidade de contrariar os interesses do “sistema”.

Transbordando o argumento para outros segmentos, daqui a pouco pediremos para as agências de rating não mais reduzir seus outlooks ou suas notas para o Brasil, pois isso causa problemas pra gente. O Marcos Lisboa, então, com seu pessimismo atroz, estaria preso numa hora dessas, por duramente ferir as expectativas para consumo e investimentos no Brasil. E o que dizer de Lauro Jardim, que fez questão de cumprir seu dever de jornalista (ok, talvez pudesse ter sido mais cauteloso ao afirmar categoricamente sobre a anuência do pagamento a Cunha) e divulgar o fatídico áudio Temer-Joesley?

O que querem essas pessoas? Que, diante de crises e balanços corporativos ruins, assistamos à deterioração do patrimônio dos nossos clientes?

Desculpem, se proteger o dinheiro dos assinantes é atentar contra o sistema financeiro nacional, então, ok, eu aceito a alcunha de terrorista – pra falar a verdade, há ouvi outras muito piores. É só entrar na fila. Dizem coisas péssimas a meu respeito. Só 99% delas são verdadeiras. Se meus inimigos me conhecessem melhor, me odiariam ainda mais (eu adoro essa frase).

A disciplina espartana que tanto defendemos para os investimentos não pode ser confundida com a prática espartana de se matar o mensageiro.

Segundo indica a imprensa, agora vem a delação de Palocci. Para quem defende de maneira sistemática o uso de seguros, não há como não recomendar alguma proteção ao evento. Ao fazê-lo não estou categoricamente afirmando que os anexos vão necessariamente pegar este ou aquele banco. Quando se compra um seguro, você não sabe se vai bater o carro nesta rua ou naquela, ou se ele será roubado em frente à PUC em Perdizes ou na esquina de casa. Você apenas se protege, contra tudo que acha possível.

Na dúvida, como forma de proteção, recomendei puts de Bradesco na Carteira Empiricus – elas sobem mais de 200 por cento desde sua inclusão. Também tenho mantido um long em Itaú e short em Bradesco no portfólio, com ganhos de 5 por cento. Eu insisto para que as pessoas assinem o Carteira porque ela é a tradução pragmática de tudo que estou pensando. Se fosse para assinar um único produto da Empiricus, minha sugestão seria essa.

Há outros elementos que ensejam a necessidade de seguros agora. O primeiro é óbvio: a complacência do mercado com os riscos derivados da crise política brasileira – ainda que seja improvável, voltou a existir uma probabilidade de resgatarmos aquela trajetória nefasta de 2015, com dívida explodindo.

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Em paralelo, começa a se discutir irresponsavelmente a ideia de um pacote de bondades. Reajuste da tabela do IR, ajuda a governadores, aumento do bolsa família, novo Refis. Mais uma vez, vamos lá nós testarmos uma das definições de loucura. Repetimos o procedimento esperando um resultado diferente. Essa política intervencionista, de incentivo pra cá e pra lá, vem dando errado há quatro décadas, com representações mais emblemáticas no Segundo PND e na nova matriz econômica. De onde vem a crença de que pode dar certo agora? Pelo amor de Deus, alguém precisa sepultar essa ideia definitivamente.

Veja ainda que a volatilidade lá fora está próxima a mínimas históricas, com o índice VIX em seu menor patamar desde 1993. Essa vol baixa é um grande perigo, um incentivo a riscos excessivos e um aumento da probabilidade de ocorrência de um súbito evento de cauda.

A complacência com os riscos normalmente cobra seu preço. O mais ético neste caso é justamente procurar alguma proteção. Alguns podem apelar à fé e às orações. Com todo respeito, eu ainda prefiro uns bons seguros.

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