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Faz semanas que os mercados são definidos por uma única variável: o que acontece no Oriente Médio. O conflito não dá sinais de desaceleração, o petróleo continua subindo, e os bancos centrais não têm resposta fácil para essa equação.
Petróleo caro pressiona custos, reabre o debate inflacionário e mantém os juros altos por mais tempo — um ambiente que penaliza ativos de risco de forma ampla. As criptomoedas não ficam de fora: o Bitcoin voltou a ceder abaixo dos US$ 68 mil.
Apesar dos pesares, em paralelo a esse ambiente ruidoso, os mercados onchain continuam avançando. A blockchain nunca fecha. E enquanto o sistema financeiro tradicional hesita diante da imprevisibilidade geopolítica, um conjunto de movimentos regulatórios e institucionais revela a trajetória de longo prazo do setor, com ou sem turbulência.
Nesta edição, destrinchamos o ambiente macro que segue pressionando os preços, o papel estratégico que a blockchain passou a ocupar num contexto de desglobalização — com stablecoins e tokenização — e, no tema da semana, uma notícia que pode abrir as portas do maior mercado do mundo para cripto: o ramo imobiliário norte-americano.
De olho nos últimos acontecimentos do bitcoin (BTC)
O bitcoin (BTC) não conseguiu sustentar os US$ 70 mil e cedeu ao longo da semana, chegando a tocar os US$ 66 mil, a mínima desde o início de março. O movimento não foi isolado. O rendimento dos Treasuries americanos, títulos do governo dos EUA que funcionam como balizador do custo do dinheiro no mundo, se aproximou de 4,5%, o nível mais alto em aproximadamente um ano. Quando o ativo “seguro” paga mais, o apetite por risco diminui.
O fluxo dos ETFs de Bitcoin confirmou essa leitura. Em um único dia, investidores retiraram US$ 171 milhões dos fundos norte-americanos, a maior saída diária em mais de três semanas, com o fundo da BlackRock liderando os resgates. Não é uma reversão estrutural, mas é um sinal de que o apetite institucional esfriou no curto prazo.

O pano de fundo técnico ainda não aponta uma direção clara. No entanto, nossos modelos internos indicam que o atual regime de lateralização está próximo do fim. A expectativa é que um movimento direcional se materialize nos próximos dias, tendo o conflito no Oriente Médio como principal catalisador.
Diante desse cenário, o gerenciamento de risco se torna ainda mais relevante. Manter parte do portfólio em caixa e buscar exposição a ativos descorrelacionados — como o que abordaremos mais adiante nesta edição — passa a ser uma estratégia fundamental.
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O papel da blockchain em um mundo fragmentado
Em um mundo no qual tensões geopolíticas deixaram de ser eventos de cauda e passaram a compor um elemento estrutural dos mercados, o impacto vai além da volatilidade: há uma erosão gradual da confiança entre as partes.
Esse é o ambiente de desglobalização: fluxos de capital mais restritos, contrapartes mais exigentes e uma dinâmica em que cada agente precisa garantir seus próprios interesses. Nesse cenário, ativos que operam 24/7, sem intermediários e sem necessidade de confiança mútua, deixam de ser apenas instrumentos especulativos e passam a assumir um papel de infraestrutura.
Para os Estados Unidos, essa dinâmica já ganhou dimensão estratégica. Stablecoins em dólar, com mais de US$ 200 bilhões em circulação, funcionam como um vetor de distribuição global da moeda americana fora do sistema bancário tradicional, especialmente em meio ao debate crescente sobre desdolarização.
Em paralelo, a tokenização de ativos avança impulsionada por ganhos de eficiência, permitindo que instrumentos financeiros tradicionais (como ações, títulos e até commodities) sejam negociados diretamente na blockchain. Dentro dessa mesma lógica, mercados de derivativos perpétuos também ganham espaço, ao permitir exposição contínua a diferentes classes de ativos, sem as limitações operacionais do sistema tradicional.
Em momentos de estresse, como a recente escalada do conflito no Oriente Médio, plataformas como a Hyperliquid (HYPE) ganharam relevância ao oferecer negociação ininterrupta de derivativos, incluindo commodities.
Nos últimos dias, uma parte relevante do volume negociado esteve concentrada justamente em petróleo e outros ativos do mundo real, evidenciando como esses mercados passaram a absorver, em tempo real, choques geopolíticos que o sistema tradicional ainda demora a precificar.
Mais do que isso, essa dinâmica acabou atuando como catalisador para o próprio ativo, que conseguiu se valorizar mesmo em um ambiente de incerteza, apresentando um comportamento descorrelacionado em relação ao restante do mercado. Em momentos de estresse e queda generalizada, esse tipo de exposição é raro e, muitas vezes, é justamente o que permite ao investidor ficar à frente dos principais índices.
Por fim, o avanço regulatório reforça essa direção. Nos Estados Unidos, SEC e CFTC já avançam na definição de diretrizes para o setor, enquanto propostas como o Clarity Act ganham tração no Congresso. O movimento aponta para um cenário em que não apenas o mundo cripto se aproxima do mercado tradicional, mas o próprio sistema financeiro passa, gradualmente, a migrar para a infraestrutura onchain.
Nesse ambiente, projetos como Hyperliquid, que entregam valor real ao mercado financeiro e estão estruturalmente posicionados para capturar esse fluxo de migração, se destacam como algumas das oportunidades mais relevantes dentro desse novo ciclo.
Cripto no ramo imobiliário, um mercado trilionário
O mercado imobiliário norte-americano movimenta cerca de US$ 40 trilhões em ativos. Até esta semana, estava praticamente fechado para a blockchain.
Até que a Fannie Mae, empresa patrocinada pelo governo norte-americano que garante trilhões de dólares em financiamentos imobiliários nos EUA, aceitou pela primeira vez hipotecas lastreadas em criptoativos.
Em parceria com a Coinbase, a maior corretora de criptomoedas dos EUA, e a Better Home & Finance, plataforma digital de crédito imobiliário, foi criado um produto que permite usar bitcoin ou USDC — uma stablecoin, de valor atrelado ao dólar — como colateral para financiar a entrada de um imóvel, sem precisar vender os ativos.
Os detalhes importam. Não há margin call: se o bitcoin cair de preço, os termos da hipoteca não mudam, e nenhum colateral adicional é exigido. A Fannie Mae compra esses empréstimos exatamente como compra qualquer hipoteca convencional. E o CEO da Better foi direto ao ponto: “criamos a infraestrutura para que qualquer ativo tokenizado nos EUA possa ser usado como garantia para ajudar alguém a comprar uma casa”.
O ponto não está apenas no produto em si, mas no precedente que ele estabelece. Quando a maior garantidora de hipotecas dos Estados Unidos passa a aceitar criptoativos como colateral, isso eleva o nível de legitimação do setor – e sinaliza uma mudança na forma como esses ativos são percebidos pelo sistema financeiro.
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